Mundo de ficçãoIniciar sessão
A mansão dos Hurvix, cravada no coração mais exclusivo de Dubai, era menos um lar e mais um mausoléu de mármore e vidro. Ali, o silêncio não era sinal de paz, mas de uma guerra fria travada entre Khaleb e Olga. Por trás da fachada de um casal de bilionários que estampava capas de revistas de negócios, existia um abismo. Eles viviam em alas separadas, cruzando-se apenas em eventos sociais onde o brilho das joias de Olga servia para ofuscar o vazio de seus olhos. O casamento era um contrato irrevogável, mantido não por afeto, mas pela herança colossal deixada pelo avô de Khaleb — um império de locação de iates de luxo que não permitia divisões de bens ou escândalos de divórcio.
No epicentro desse deserto afetivo estavam Michael e Khalel. Os gêmeos, embora herdeiros de uma fortuna inestimável, eram pouco mais que acessórios esquecidos na rotina dos pais. Desde o nascimento, o calor humano que conheceram vinha exclusivamente de Madame Vouché, a governanta francesa cuja lealdade à família era tão antiga quanto as oliveiras do jardim. No entanto, o tempo é um senhor impiedoso. Sobrecarregada pelas infinitas atribuições de gerir uma equipe de dezenas de funcionários, Vouché sentia os meninos escaparem de seu controle à medida que cresciam e demandavam uma presença que ela já não podia oferecer.
A coragem de Madame Vouché floresceu em uma tarde abafada, quando confrontou Olga. A resposta da matriarca foi um misto de tédio e ultraje. Para Olga, a maternidade era um fardo terceirizado; a simples ideia de ter que ninar os próprios filhos soava como um castigo medieval. Sem desviar os olhos do espelho, ela disparou uma mensagem curta e cortante para o marido: "Precisamos de uma babá para os dois garotos. Urgente. Madame Vouché solicita que venha uma ainda esta semana."
Khaleb recebeu a notificação durante uma reunião de conselho. Para ele, o pedido era apenas mais um ruído a ser silenciado para evitar os "pitis" histriônicos da esposa, cuja voz ele mal suportava ouvir. Ele abriu o portal de recrutamento com o mesmo pragmatismo frio com que despachava petroleiros. Dezenas de currículos desfilaram pela tela: mulheres experientes, enfermeiras padrão, especialistas em educação infantil. Ele as deletava com um clique indiferente.
Até que surgiu Serena Hurvix.
Vinte e quatro anos. Solteira. Sem amarras. A foto no currículo não era apenas uma imagem; era uma perturbação. Havia uma pureza no olhar de Serena que contrastava violentamente com a podridão dourada em que Khaleb estava submerso. Em um segundo, a necessidade de contratar uma funcionária transformou-se em um impulso primitivo de posse. Ele não analisou suas referências ou seu histórico acadêmico; ele apenas observou a curva de seu sorriso na fotografia e decidiu que aquela luz pertenceria à sua escuridão.
Com um comando definitivo, ele deletou todos os outros candidatos, eliminando qualquer rastro de concorrência. A entrevista foi marcada para o dia seguinte. Khaleb fechou o laptop, o reflexo de seus olhos escuros brilhando com uma antecipação perigosa. Serena estava prestes a entrar em um labirinto de luxo e obsessão, sem saber que, na mansão dos Hurvix, o preço da segurança era a própria liberdade.







