Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Evelyn
O despertador tocou às seis da manhã, quebrando o silêncio do meu pequeno quarto com aquele bipe estridente e irritante. Estiquei o braço para desligar o aparelho antes que o barulho acordasse Noah no quarto ao lado.
Sentei na beirada da cama, passando as mãos pelo rosto. Meus músculos ainda estavam doloridos da dança da noite anterior, e a minha pele parecia reter o calor do corpo de Damien. Olhei para a penteadeira no canto. A peruca prateada e a máscara veneziana preta estavam trancadas na gaveta do fundo, cuja chave ficava pendurada num cordão no meu pescoço. Ali, naquele apartamento simples na periferia de Montreal, Alaska deixava de existir.
Hoje eu era apenas Evelyn Laurent. A neta órfã que estava prestes a se casar por contrato para salvar o que restava da dignidade da família.
— Evie? — a voz sonolenta do meu irmão caçula veio junto com uma batida fraca na porta. Noah abriu uma fresta, coçando os olhos. — Você já acordou? O carro que o velho ricaço mandou já está lá embaixo.
— Já vou, Noah. Só vou tomar um banho rápido — respondi, forçando um sorriso para acalmá-lo.
Noah tinha apenas dezessete anos e uma vaga garantida na melhor faculdade de medicina de Toronto para o próximo semestre. Ele achava que o casamento era uma bênção, uma ajuda de custo legítima que o amigo de infância do nosso avô estava nos dando por pura bondade. Ele não tinha ideia de que as ações da Blackwood Enterprises iam disparar assim que as fotos do "CEO humilde casado com a moça do povo" chegassem aos tabloides. E muito menos sabia que o dinheiro que pagava seus livros vinha das gorjetas em dólares do Le Mirage.
Quarenta minutos depois, eu estava pronta. Olhei-me no espelho do banheiro e quase ri do contraste. Prendi o meu cabelo loiro natural em um coque baixo e comportado, sem um fio fora do lugar. Usei o mínimo de maquiagem — apenas um corretivo para esconder as olheiras da noite em claro e um brilho labial incolor. O vestido de noiva era simples, de mangas longas e renda barata, comprado em uma loja de departamento comum. Eu precisava parecer exatamente o que o avô de Damien queria: uma jovem necessitada, pura e inofensiva.
Quando o sedã preto blindado nos deixou nos fundos da pequena capela de pedra nos arredores de Montreal, o clima era de puro profissionalismo. Não havia convidados, flores luxuosas ou música de violino. Apenas um juiz de paz, Richard Blackwood com sua postura imponente e o olhar de quem estava prestes a fechar o negócio do ano, e ele.
Damien estava de pé perto do altar improvisado.
Ele usava um terno cinza escuro, impecável, mas o seu semblante era a definição do inverno canadense: frio, rígido e completamente distante. Ele mantinha as mãos enfiadas nos bolsos e os olhos fixos na parede de pedra, como se estar ali fosse a maior tortura da sua vida. Quando os meus passos ecoaram pelo piso de madeira, ele finalmente se virou para me olhar.
A expressão dele mudou de tédio para um desdém quase palpável.
Damien varreu o meu corpo com os olhos escuros, os mesmos olhos que, poucas horas atrás, estavam injetados de luxúria enquanto ele apertava as minhas coxas no camarim. Agora, aquele olhar estava gelado. Ele viu o vestido simples, o meu cabelo loiro sem graça, a falta de joias e a minha postura encolhida, que eu fazia questão de simular.
Para Damien, eu era um estorvo. Uma garota sem sal que ele teria que aguentar por um ano para colocar as mãos na presidência definitiva do império da família.
A cerimônia não durou dez minutos. O juiz de paz leu as palavras protocolares, e nós assinamos os papéis do casamento e, logo em seguida, o contrato de gaveta que ditava as regras da nossa farsa. Quando chegou a hora do "pode beijar a noiva", Damien hesitou. Ele se inclinou na minha direção, exalando o mesmo perfume amadeirado da noite anterior, e roçou os lábios secos de leve na minha bochecha. Foi um toque rápido, quase higiênico. Como se estivesse com medo de se contaminar com a minha pobreza.
— Parabéns aos noivos — Richard Blackwood disse, batendo palmas solitárias e exibindo um sorriso de satisfação corporativa. — As fotos de vocês saindo juntos já foram enviadas para os principais portais de notícias. As ações abriram em alta de quatro por cento. Excelente trabalho.
Damien soltou uma risada nasalada, cheia de escárnio. Ele ajeitou as abotoaduras do terno e finalmente se dirigiu a mim, usando a voz grossa que fez os meus pelos da nuca se arrepiarem, embora eu não tenha demonstrado.
— O motorista vai levar seu irmão para o aeroporto e depois vai deixar você na mansão — Damien disse, o tom de voz frio e impessoal, como se estivesse dando ordens a uma secretária nova. — Eu tenho uma reunião de conselho agora. Não me espere para o jantar. Aliás, não me espere para nada.
— Tudo bem, Damien — respondi com a voz mais mansa e tímida que consegui fingir, baixando os olhos para parecer submissa. — Eu não vou atrapalhar você.
— Ótimo. Suas coisas já foram levadas para o quarto de hóspedes na ala leste. Meu quarto fica na ala oeste. Acho que o meu avô deixou claro que não precisamos fingir nada quando estivermos entre quatro paredes. Mantenha-se discreta e nós não teremos problemas, Evelyn.
— Sim, senhor... quer dizer, Damien — gaguejei de propósito, vendo o canto da boca dele se torcer em um esgar de superioridade.
Ele achava que tinha o controle absoluto de tudo. Virou as costas sem se despedir e caminhou a passos largos em direção à saída, acompanhado por Richard e por assessores que já mostravam gráficos no tablet.
Fiquei parada ali por um momento, vendo as portas pesadas da capela se fecharem atrás do meu agora marido. Noah se aproximou de mim, parecendo um pouco preocupado com a frieza do homem, mas eu apenas apertei a mão dele e dei um sorriso genuíno.
— Vai dar tudo certo, Noah. Foca nos seus estudos em Toronto — sussurrei.
Ah, Damien Blackwood. Você realmente não sabe de nada.
Enquanto caminhava em direção ao carro que me levaria para a minha nova prisão de luxo, o brilho labial incolor nos meus lábios se transformou no mesmo sorriso de canto que Alaska usava no palco.
Damien achava que tinha se livrado de uma esposa sem sal para passar o resto do dia pensando na stripper prateada que o deixou de joelhos. Ele ia passar o dia inteiro na empresa focado em me esquecer, desejando o momento de voltar ao Le Mirage para implorar pelos favores de Alaska.
Mal podia esperar pela noite. O terno dele podia ser caro, mas o preço que eu ia cobrar para brincar com a mente do meu marido ia custar muito mais do que ele imaginava.







