Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Evelyn
A mansão dos Blackwood no topo de Westmount parecia um monumento esculpido em mármore e arrogância. O teto alto, as paredes de vidro com vista para toda a Montreal coberta de neve e o silêncio pesado faziam o lugar parecer mais um museu do que uma casa de verdade.
Assim que o motorista me deixou no hall de entrada, uma governanta de meia-idade me recebeu. O uniforme dela era impecável, mas o rosto exalava um desdém que ela nem tentava esconder. Ela me guiou rapidamente até a ala leste, fazendo questão de enfatizar que aquela era a minha área, bem longe dos aposentos principais de Damien.
O quarto de hóspedes era enorme, decorado em tons de cinza e branco. Luxuoso, sim, mas completamente sem vida. Tranquei a porta por dentro e me joguei na cama de casal, soltando um suspiro longo enquanto olhava para o teto.
Eu precisava calcular cada passo a partir de agora. O jogo com Damien no camarim tinha sido delicioso, mas perigoso. Se ele saísse do Le Mirage e chegasse em casa antes de mim, ou se notasse que eu sumia todas as noites, tudo estaria acabado. Eu precisava de uma logística impecável.
Peguei o celular e liguei direto para o Roman.
— Fala, Alaska — a voz grossa do meu segurança ecoou do outro lado.
— Roman, precisamos ajustar os horários a partir de hoje. O meu querido marido vai voltar à boate hoje à noite. Ele deixou bem claro o quanto está obcecado.
— E o que você quer que eu faça? O cara é um Blackwood, os seguranças dele andam colados.
— Não me importa — sorri, rolando na cama. — Toda vez que ele tiver um encontro privado comigo no camarim, você vai dar um jeito de atrasá-lo. Quando ele sair da minha sala, invente um problema com a conta VIP, diga que o gerente precisa confirmar a assinatura do cartão, ordene que os seguranças façam uma varredura no corredor por "questões de segurança" da casa... faça o que for preciso. Eu preciso de trinta minutos de vantagem. É o tempo exato para eu sair pelos fundos, pegar o meu carro discreto e estar deitada nesta cama, fingindo ser a esposa submissa, antes que ele passe pelos portões da mansão.
— Trinta minutos. Considera-se feito. Mais alguma coisa?
— Fique de olho na Sienna. Ela estava me rondando ontem à noite.
— Aquela lá está espumando de inveja porque você levou o bilionário para o camarim. Pode deixar, estou de olho.
Desliguei o celular, sentindo a adrenalina correr pelas minhas veias. O plano estava traçado.
Para passar o tempo, tirei o vestido de noiva simples e o guardei no closet vazio. Vesti uma calça de moletom cinza, um suéter de tricô folgado e prendi o meu cabelo loiro natural em um coque bagunçado. Eu precisava mapear o território.
Saí para explorar a mansão e caminhei pelos corredores silenciosos até encontrar a enorme estufa de vidro nos fundos da propriedade. Ao abrir a porta, o ar fresco e o cheiro de terra molhada me atingiram. No centro do espaço, cuidando de umas plantas, estava um homem de costas.
Ele não usava os uniformes formais dos outros funcionários. Vestia uma camisa de flanela xadrez com as mangas dobradas até os cotovelos, revelando braços grossos, musculosos e marcados por veias saltadas. Quando ouviu o barulho da porta, ele se virou devagar.
Ele era jovem, devia ter uns vinte e sete anos, e era absurdamente lindo. Tinha traços fortes, maxilar marcado, olhos verdes intensos e um cabelo castanho desalinhado que caía de leve pela testa. A postura dele era viril, imponente, nada parecida com a submissão dos outros empregados.
— Você deve ser a Evelyn — ele disse. A voz dele era grave e calma, sem nenhum tom de desdém. Ele limpou as mãos sujas de terra em um pano e deu um passo na minha direção. — Cuido do paisagismo e de toda a propriedade. Pode me chamar de Julian.
— Prazer, Julian — respondi, sustentando o olhar dele. Pela primeira vez naquele lugar, alguém me olhava nos olhos sem me julgar pela roupa simples.
— O clima aqui dentro costuma ser hostil, principalmente para quem vem de fora do círculo deles — Julian comentou, com um meio sorriso inteligente. Ele parecia notar muito mais do que aparentava. — Se precisar de um refúgio, a estufa está sempre aberta. E se precisar de qualquer coisa na mansão... qualquer coisa mesmo, pode falar comigo.
— Obrigada, Julian. É bom saber disso.
Sorri de verdade. Ter um aliado daquele porte, viril e observador, seria uma peça excelente no meu tabuleiro. Eu já conseguia até prever o ataque de possessividade de Damien se nos visse conversando.
***
POV Damien
Eu não conseguia focar em uma única linha do relatório de ações na tela do meu computador.
A imagem de Alaska se movendo no meu colo, o aperto firme que dei em suas coxas e o rastro daquele perfume misterioso pareciam colados na minha mente. Bufei, jogando a caneta de ouro na mesa de mogno e passando a mão pelo rosto. Eu estava ficando louco.
A porta da minha sala se abriu sem bater, quebrando o meu transe. Genevieve Beaumont, minha ex-noiva, entrou rebolando no seu vestido vermelho colado, exalando um perfume importado enjoativo.
— Damien, querido — ela cantarolou, caminhando até a minha mesa. Ela sentou na borda, cruzando as pernas e se inclinando para a frente, deixando o decote bem evidente. — Eu soube do casamento ridículo que o seu avô armou. Uma garota da periferia? Por favor. Nós dois sabemos que isso é só um contrato. Você não precisa passar as suas noites sozinho com aquela... coisa sem sal.
Ergui meus olhos, sentindo um tédio profundo. Olhei para a tentativa óbvia de sedução de Genevieve e percebi que mulher nenhuma me tocava mais. Nenhuma delas chegava aos pés da Rainha do Gelo do Le Mirage.
— Saia da minha mesa, Genevieve — minha voz saiu baixa, ameaçadora. — E saia da minha sala. O que eu faço com as minhas noites não é da sua conta.
— Você vai se cansar daquela mosca morta em uma semana, Damien — ela sibilou, irritada, levantando-se e ajeitando o vestido antes de sair batendo a porta.
Assim que fiquei sozinho, peguei o meu celular. O visor marcava quase sete da noite. O cansaço de um dia inteiro de trabalho parecia desaparecer quando eu pensava naquele clube subterrâneo. Eu precisava daquela mulher de novo.
Liguei direto para o meu motorista.
— Prepare o carro. Vamos para o Le Mirage.
Eu estava correndo de volta para os braços da stripper, sem ter a menor ideia de que a dona do meu desejo estava, naquele exato momento, tomando um chá na estufa da minha própria casa, rindo com o meu jardineiro. O jogo da noite estava prestes a começar.







