Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV Alaska (Evelyn Laurent)
O cheiro de uísque caro, loção pós-barba importada e testosterona pura flutuava no ar do meu camarim, mesmo antes de ele colocar os pés aqui dentro.
Eu conseguia ouvir os abafados protestos de Damien Blackwood do outro lado da porta de madeira maciça. Ele estava insistindo. Aliás, insistindo era um termo muito educado para o tom de voz de um homem que estava acostumado a comprar o mundo com um estalar de dedos e que, pela primeira vez na vida, tinha encontrado uma porta fechada.
— Eu já disse que pago o triplo, o quádruplo, o que for — a voz dele ecoou, grossa, rouca e carregada daquela arrogância típica dos Blackwood. — Só quero cinco minutos com ela.
Olhei para o meu próprio reflexo no espelho cercado de lâmpadas embutidas. A peruca prateada caía em ondas perfeitas pelos meus ombros, contrastando com o espartilho de renda preta e a máscara veneziana que cobria metade do meu rosto. Por trás daqueles recortes de veludo, meus olhos castanhos — que amanhã pareceriam "doces e inocentes" no altar — brilhavam com um divertimento quase cruel.
Eu sabia exatamente quem ele era. Richard Blackwood, o avô dele, vinha planejando o nosso casamento há meses, usando a desculpa de honrar a memória do meu falecido avô para limpar a imagem da empresa na mídia. Damien achava que estava se casando com uma coitada, uma garota sem graça da periferia de Montreal que aceitaria qualquer migalha para salvar a família. Ele não tinha a menor ideia de que a neta "humilde" de Étienne Laurent pagava os estudos do irmão caçula e as contas médicas da família dançando no clube mais exclusivo da cidade.
E, pelo visto, o meu futuro marido era muito mais fácil de ler do que os relatórios financeiros que ele tanto controlava. Uma noite de despedida de solteiro e ele já estava rastejando atrás do fantasma de cabelos prateados.
Sorri, os lábios pintados de vermelho escuro se curvando. Dei dois toques leves no comunicador preso à minha coxa.
— Roman — chamei baixinho. — Deixe o príncipe entrar.
Lá fora, o burburinho cessou. Ouvi o suspiro pesado do meu segurança russo e, em seguida, a maçaneta girou.
Damien Blackwood praticamente invadiu o espaço. Ele era alto, consideravelmente mais alto do que eu, com ombros largos que pareciam preencher o camarim de luz baixa. O terno sob medida estava levemente desalinhado, o primeiro botão da camisa social aberto, e os olhos escuros, quase pretos, varreram o cômodo até travarem em mim. Ele estava respirando fundo, como um predador que finalmente tinha encurralado a presa.
Mas ele não sabia que, naquele território, a caçadora era eu.
— Até que enfim — ele disse, fechando a porta atrás de si com um baque firme. Ele deu dois passos na minha direção, as mãos enfiadas nos bolsos da calça, tentando recuperar a postura de CEO implacável. — Você é difícil de conseguir, Alaska. Sabia disso?
Mantive o silêncio. Um silêncio absoluto e pesado. Apenas continuei sentada na beirada da minha mesa de maquiagem, com as pernas cruzadas, observando-o. O som de um jazz lento, quase hipnótico, tocava ao fundo no sistema de som do camarim.
— Eu vi o seu show lá fora — ele continuou, a voz descendo um tom, ficando mais densa enquanto ele se aproximava. O olhar dele descia pelo meu pescoço, fixando-se no decote do espartilho. — Você parou a porcaria da boate inteira. Eu já vi muitas mulheres, mas nenhuma... nenhuma se move como você. Quanto você quer para sair daqui comigo hoje à noite? Nomeie o seu preço. Eu pago.
Ele achava que tudo se resolvia com um talão de cheques. Clássico Damien.
Ainda sem proferir uma única palavra, eu me levantei devagar. O salto agulha estalou no piso de madeira. Damien tencionou os ombros, os olhos acompanhando cada milímetro do meu movimento. Ele esperava uma resposta, uma negociação, talvez um flerte verbal.
Em vez disso, eu caminhei em sua direção com passos lentos, os quadris balançando no ritmo da música de fundo. Parei a poucos centímetros dele. O perfume dele — amadeirado, forte, caro — invadiu meus sentidos, mas não me curvei. Ergui a mão esquerda, tocando de leve o tecido firme do paletó dele, bem na altura do peito. Senti o coração dele. Estava acelerado, batendo forte contra as minhas falanges.
Com uma pressão firme, mas controlada, comecei a empurrá-lo para trás.
Damien franziu o cenho, confuso, mas não resistiu. Ele deu um passo para trás, depois outro, até que os calcanhares dele bateram na estrutura da poltrona de couro gasto que ficava no canto mais escuro do camarim, onde a luz vermelha quase não alcançava. Eu dei um último empurrão no seu peito, e ele caiu sentado, os braços apoiados nos descansos laterais, olhando para mim de baixo para cima com uma mistura de choque e puro desejo.
Prendi o olhar dele ao meu por trás da máscara. E o show começou.
Girei de costas, deixando que ele visse a curva da minha cintura e o caimento dos fios prateados antes de começar a me mover de acordo com o jazz lento. Minhas mãos deslizaram pelo meu próprio corpo, descendo pelas costelas até os quadris, enquanto eu arqueava as costas devagar. Pelo espelho, vi o maxilar de Damien travar. A respiração dele, que já estava curta, ficou visivelmente pesada.
Aproximei-me da poltrona novamente. Dessa vez, não recuei. Passei uma perna por cima das coxas dele, jogando o meu peso sobre o seu colo. Senti o corpo dele enrijecer no mesmo milésimo de segundo. Damien prendeu o fôlego quando o meu quadril encontrou o dele, movendo-se em círculos lentos e torturantes.
Minhas mãos subiram pelos ombros dele, subindo pelo pescoço até os cabelos escuros e curtos, puxando levemente os fios. Damien soltou um gemido baixo, rústico, que vibrou direto contra o meu peito. Ele tentou erguer as mãos para agarrar a minha cintura, mas eu segurei os seus pulsos com firmeza, balançando a cabeça num sinal negativo.
Não. As regras aqui eram minhas.
Ele entendeu o recado, engolindo em seco, os olhos vidrados nos meus lábios vermelhos. Eu continuei a dança no colo dele, cada movimento calculado para destruir qualquer resquício de sanidade que o grande Damien Blackwood julgava ter. Rocei meus lábios perto da orelha dele, deixando que ele sentisse o calor da minha respiração, mas sem beijá-lo. Desci os beijos falsos pelo maxilar dele, parando a milímetros da sua boca, apenas atiçando o fogo.
— Puta que pariu, Alaska... — ele sussurrou, a voz completamente rouca, os olhos injetados. Ele estava lutando contra si mesmo para não quebrar a regra e me prensar contra aquela parede. — Você vai me enlouquecer.
Vendo o desespero dele, decidi dar uma pequena concessão. Afinal, um bom pescador sabe a hora de soltar a linha antes de puxar o peixe. Soltei os pulsos dele e guiei suas mãos grandes e quentes até as minhas coxas.
A pele dele estava queimando. No momento em que os dedos de Damien apertaram a minha carne, subindo lentamente pela renda da minha meia-calça, um arrepio real subiu pela minha espinha. Ele apertou com força, uma possessividade primitiva ditando o aperto. Damien tentou puxar o meu corpo ainda mais contra o dele, e foi aí que eu senti.
Ali, sob o tecido do terno caro, ele estava completamente duro. Rígido. Pronto para explodir. O grande CEO de Montreal estava prestes a perder o controle por causa de uma stripper em um camarim de boate.
Era o bastante por hoje. O ápice tinha sido atingido.
Antes que ele pudesse deslizar as mãos para debaixo do meu espartilho, eu segurei seus pulsos novamente e, num movimento rápido e fluido, levantei-me do colo dele. A súbita ausência do meu corpo fez Damien soltar um suspiro frustrado, quase um rosnado. Ele piscou algumas vezes, tentando processar o que tinha acabado de acontecer, o corpo ainda tenso e os olhos nublados pelo desejo.
Caminhei até a porta do camarim sem olhar para trás. Segurei a maçaneta, girei e abri a porta por completo, deixando que a luz do corredor iluminasse o ambiente privado. Fiquei parada ao lado do vão, com uma das mãos na cintura, apontando com o queixo para a saída.
A mensagem estava dada. O tempo dele tinha acabado.
Damien continuou sentado por alguns segundos, tentando acalmar a respiração e ajeitar o terno que agora parecia marcadamente desconfortável na região da braguilha. Ele passou a mão pelo rosto, soltando uma risada curta, desacreditada de si mesmo. Ele tinha sido dominado, e sabia disso.
Ele se levantou devagar, a rigidez ainda evidente em sua postura, e caminhou até a porta. Quando chegou bem na minha frente, ele parou. A diferença de altura me fez inclinar a cabeça para trás. Damien se inclinou um pouco, o olhar fixo na minha máscara.
— Você acha que venceu esse jogo, não é? — ele murmurou, a voz baixa, perigosa e incrivelmente atraente. — Isso não vai ficar assim. Eu vou voltar, Alaska. E na próxima vez, você não vai me expulsar desse quarto.
Apenas sustentei o olhar dele, mantendo o meu rosto impassível, a personificação do gelo que combinava com o meu nome artístico.
Damien deu as costas e saiu pelo corredor, os passos firmes ecoando até desaparecerem na direção da área VIP.
Assim que ele sumiu de vista, fechei a porta e encostei as costas na madeira, soltando o ar que nem percebi que estava segurando. Meu coração também estava acelerado. Levei as mãos até a máscara, sentindo o calor do meu próprio rosto.
— Vá em frente, Damien... — sussurrei para o quarto vazio, permitindo-me rir alto pela primeira vez na noite. — Volte quantas vezes quiser.
Afinal, em menos de doze horas, ele estaria preso a mim por um contrato de casamento de papel passado. Mal podia esperar para ver a cara do meu querido marido quando ele descobrisse que a mulher que ele negligenciaria em casa era a mesma que o faria gastar fortunas para ver de joelhos. O jogo estava apenas começando, e Damien Blackwood já tinha perdido sem nem saber que estava jogando.







