Mundo de ficçãoIniciar sessão
POV Damien Blackwood
A neve caía sem trégua nas ruas de Montreal, cobrindo os prédios históricos com uma camada branca e grossa. Do lado de fora, o termômetro marcava dezoito graus negativos, mas dentro do Le Mirage, o clima era completamente diferente. O som dos graves fazia o chão de vidro vibrar sob os meus pés, misturando o calor sufocante das luzes neon com o cheiro de bebida cara.
Eu estava sentado no camarote VIP mais caro da boate, girando o uísque no meu copo de cristal com a pior cara possível. Meus olhos estavam fixos nas pedras de gelo que derretiam devagar. Eu só queria ir embora. Ignorei os meus amigos e as três mulheres deslumbrantes que tentavam chamar minha atenção a todo custo desde que cheguei.
— Vamos lá, Damien! É a sua despedida de solteiro — Adrian, meu primo, se inclinou para falar mais alto por causa da música, batendo no meu ombro. — Pelo menos finge que não está indo para um funeral amanhã.
— E qual é a diferença? — minha voz saiu grossa, cortante. Eu não fazia questão nenhuma de esconder o meu mau humor. — Amanhã meu avô me amarra por contrato a uma garota que eu nem conheço. Uma menina comum, da periferia, só para a imprensa achar que os Blackwood são humildes e se importam com o povo. É pura fachada para fazer as ações subirem.
— Evelyn Laurent, né? — Adrian deu de ombros, virando o seu drinque de uma vez. — O velho Richard era amigo de infância do avô dela. Ela deve ser uma coitada sem um tostão. Pensa pelo lado positivo, cara: vai ser discreta. Você dá um apartamento bem longe da sua mansão, uma boa mesada e continua vivendo a sua vida.
Não respondi. Fiquei com o maxilar travado de tanta irritação. Aos trinta e dois anos, comandando um império bilionário, eu odiava ter que me submeter ao capricho do meu avô. Mas eu precisava daquele casamento para garantir a presidência absoluta da empresa, sem interferência do conselho. Eu daria o meu sobrenome para a neta do falecido amigo de Richard e, em troca, ela sumiria da minha vida. Simples assim.
De repente, a música parou de uma vez.
As luzes roxas e vermelhas da boate se apagaram, deixando o lugar num breu total por alguns segundos. O falatório na área VIP sumiu na hora. Até os caras mais bêbados ao meu redor prenderam a respiração. Todo mundo ali sabia o que aquilo significava.
Uma única luz fria e prateada acendeu bem no centro do palco. Uma fumaça baixa começou a se espalhar e, no meio dela, ela apareceu.
Eu, que tinha passado a noite inteira olhando para o meu próprio copo, erguia a cabeça. E parei no mesmo instante.
A mulher no palco parecia desenhada para testar o autocontrole de qualquer homem.
Uma peruca de fios prateados descia em ondas perfeitas até a cintura dela, brilhando intensamente sob o refletor. O rosto estava escondido por uma máscara veneziana preta, deixando à mostra só os lábios pintados com um batom vermelho bem escuro e provocante, além de um olhar que parecia enxergar o fundo da alma de todo mundo ali dentro.
Uma música lenta e cheia de mistério começou a ecoar pelas caixas de som.
— Alaska... — Adrian murmurou do meu lado, perdendo toda a pose de deboche e olhando hipnotizado. — A intocada da casa. Nenhum homem aqui tem dinheiro suficiente para chegar perto dela.
Eu nem ouvi o que o meu primo disse. Meus olhos estavam travados nos movimentos daquela mulher. Alaska não dançava como as outras; ela comandava o lugar. Movia o corpo com uma facilidade magnética, provocando a mente de cada um que assistia. Era como se o inverno de Montreal estivesse pegando fogo ali dentro.
A música foi ficando mais intensa, e ela caminhou devagar pela passarela elevada, que passava bem na altura do camarote onde eu estava.
Por um segundo que pareceu durar horas, os olhos de Alaska, por trás da máscara, cruzaram direto com os meus.
Senti o meu sangue ferver nas veias, uma sensação que eu não tinha há muito tempo. Vi o canto dos lábios vermelhos dela se curvar num sorriso rápido — um deboche puro, como se ela soubesse exatamente o efeito devastador que estava causando em mim. O terno sob medida que eu usava pareceu apertado demais. Larguei o copo na mesa, segurei firme no corrimão de ferro e me inclinei para frente, completamente incapaz de desviar o olhar daquela miragem prateada.
Quando a dança acabou, debaixo de palmas barulhentas, Alaska deu um passo para trás e sumiu no meio da fumaça, sem deixar rastros.
Dei um passo à frente, no impulso idiota de ir atrás dela, mas a figura enorme de Roman, o segurança pessoal dela, já estava postada na entrada do corredor dos camarins. A mensagem dele foi clara só com o olhar. Com Alaska, ninguém mexia.
— Esquece, primo — Adrian riu, pegando outro copo e tentando quebrar o meu transe. — Ela é um fantasma. Ninguém sabe onde mora, ninguém sabe o nome de verdade.
Respirei fundo, sentindo o rastro de um perfume doce e misterioso que tinha ficado impregnado no ar do camarote. Voltei a sentar, mas continuei olhando para o palco vazio.
Amanhã de manhã, eu estaria na igreja, assinando um contrato de casamento com uma garota sem graça chamada Evelyn Laurent. Mas, naquela noite, enquanto a neve caía lá fora, a minha mente e o meu desejo tinham sido completamente roubados por Alaska.







