Mundo ficciónIniciar sesiónEmma levantou-se.
— Sr. Blackwood.
Richard olhou para ela como se avaliasse mobília.
— Srta. Collins.
Ele lembrava seu nome. Ou fingia lembrar.
— O Sr. Blackwood está em uma ligação, mas posso avisá-lo da sua chegada.
— Alexander sempre está em uma ligação. Avise assim mesmo.
Emma manteve o sorriso profissional.
— Naturalmente.
Ela ligou para o escritório.
— Sr. Blackwood, seu pai está aqui.
A resposta demorou um segundo a mais do que o normal.
— Mande entrar.
Richard não esperou que Emma dissesse. Apenas atravessou a porta, como se o prédio ainda fosse dele.
Talvez, em parte, fosse.
A porta se fechou.
Emma ficou olhando para a madeira escura.
Não queria ouvir.
Não tinha intenção de ouvir.
Mas, depois de alguns minutos, as vozes subiram o suficiente para escaparem pelas frestas do isolamento acústico.
— Você está repetindo velhos erros — disse Richard.
A resposta de Alexander veio mais baixa, difícil de distinguir.
Richard continuou:
— A MedCore não é apenas uma aquisição. É uma mensagem ao mercado. Sua insistência em esperar pode parecer medo.
— A empresa quase faliu quando o senhor confundiu pressa com coragem — disse Alexander, agora audível.
Emma congelou.
Do outro lado, houve silêncio.
Depois, Richard falou com uma voz mais dura:
— Cuidado, filho.
— Com o quê? A verdade?
— Com essa arrogância. Você acha que salvou sozinho o nome Blackwood.
— Eu não acho. Eu sei.
Emma sentiu o coração apertar.
Aquilo não era apenas uma discussão de negócios.
Era uma ferida antiga sendo aberta com precisão.
— Eu construí esse nome antes de você saber assinar o seu — disse Richard.
— E eu o impedi de virar nota de rodapé em um processo de falência.
A voz de Richard caiu para algo quase cruel.
— Você sempre foi bom com números, Alexander. Péssimo com pessoas.
Emma prendeu a respiração.
— Talvez porque aprendi com o melhor — respondeu Alexander.
Mais silêncio.
Então Richard disse:
— Sua mãe também pensava que podia viver de orgulho.
A sala ficou tão quieta que Emma quase não ouviu a própria respiração.
Quando Alexander respondeu, sua voz estava diferente.
Não mais cortante.
Gelada.
— Não fale dela.
— Falo do que quiser. Era minha esposa.
— Era uma mulher que o senhor quebrou.
Emma fechou os olhos por um segundo.
Agora entendia um pouco mais.
A mãe de Alexander.
Ela nunca aparecia em entrevistas. Nunca era mencionada em perfis. Havia apenas registros antigos: Eleanor Blackwood, falecida quando Alexander tinha vinte e poucos anos. Pouquíssimas informações.
Richard riu sem alegria.
— Você romantiza demais os mortos.
— E o senhor desumaniza os vivos.
A porta se abriu de repente.
Emma se afastou da mesa rápido demais, como se tivesse sido pega fazendo algo errado.
Richard saiu primeiro. Seu rosto estava fechado, mas controlado. Ao passar por Emma, parou.
— Meu filho exige muito de seus funcionários, Srta. Collins.
Ela sustentou o olhar.
— Sim, senhor.
— Não confunda exigência com apreço.
A frase foi dita com suavidade venenosa.
Emma sentiu o golpe, mas manteve a postura.
— Nunca faço confusões no trabalho.
Richard sorriu sem calor.
— Todos fazem, mais cedo ou mais tarde.
Ele caminhou até o elevador.
Emma permaneceu imóvel até as portas se fecharem.
Só então olhou para o escritório.
A porta estava aberta.
Alexander estava de costas, diante da janela, uma das mãos apoiada no vidro. A outra fechada ao lado do corpo.
Emma sabia que deveria voltar ao computador. Deveria fingir que não ouvira nada. Deveria preservar a linha invisível entre secretária e chefe, entre funcionário e homem, entre cuidado e risco.
Mas a imagem dele ali, tão rígido e sozinho, a atingiu antes que a prudência pudesse impedi-la.
Ela bateu de leve na porta.
— Sr. Blackwood?
— Não agora.
A voz dele foi áspera.
Emma deveria obedecer.
Não obedeceu.
Entrou um passo.
— Sua reunião com o senador começa em dez minutos.
— Cancele.
— Já cancelei uma vez.
— Então cancele de novo.
Ela respirou fundo.
— Alexander.
Ele virou.
O uso do primeiro nome foi um erro. Os dois perceberam ao mesmo tempo.
O rosto dele estava fechado, mas havia algo nos olhos que Emma nunca tinha visto de tão perto. Não tristeza aberta. Não fragilidade simples. Era pior. Era uma espécie de exaustão antiga, enterrada sob anos de controle.
— Não faça isso — disse ele.
— Isso o quê?
— Aja como se tivesse direito de entrar aqui porque ouviu algo que não deveria.
Emma sentiu o rosto empalidecer.
— Eu não queria ouvir.
— Mas ouviu.
— Sim.
— Então esqueça.
— Não é assim que funciona.
— Para mim, é.
Ela ficou calada.
Alexander caminhou até a mesa, recolhendo papéis com movimentos secos.
— Remarque o senador para amanhã. Confirme Chicago. E não interrompa minha próxima hora.
Aquilo era uma demissão emocional. Clara. Fria. E talvez merecida.
Emma assentiu.
— Sim, senhor.
Virou-se para sair.
Mas antes que passasse pela porta, ouviu a voz dele novamente:
— Emma.
Ela parou.
— Sim?
Alexander parecia irritado consigo mesmo antes mesmo de falar.
— Minha mãe morreu há oito anos.
Emma não se moveu.
Ele olhava para os papéis sobre a mesa, não para ela.
— Ela passou os últimos anos da vida tentando amar um homem que só entendia controle. E depois tentando salvar um filho que achava que não precisava ser salvo.
A voz dele era baixa. Sem emoção aparente. Talvez justamente por isso tão dolorosa.
Emma virou-se devagar.
— Sinto muito.
— Não quero pena.
— Não foi pena.
Ele ergueu os olhos.
— Então foi o quê?
Emma poderia ter dito respeito. Compaixão. Educação. Qualquer palavra segura.
Mas nenhuma parecia verdadeira o suficiente.
— Foi tristeza por você ter aprendido tão cedo que amar alguém podia destruir uma pessoa.
Algo passou pelo rosto dele.
Rápido.
Brutal.
Alexander desviou o olhar primeiro.
— Você não sabe o que eu aprendi.
— Não. Mas sei o que isso fez com você.
A sala ficou imóvel.
Por um segundo, Emma teve certeza de que ele explodiria. Que a colocaria de volta em seu lugar com uma frase gelada. Que destruiria aquele momento antes que ele se tornasse real.
Mas Alexander apenas disse:
— Saia, Emma.
Dessa vez, ela obedeceu.
Quando fechou a porta atrás de si, suas mãos estavam frias.
O resto do dia se arrastou de maneira estranha.
Alexander não saiu para almoçar. Não chamou Emma. Não pediu café. Não fez comentários secos pelo telefone. Trabalhou em silêncio absoluto até o fim da tarde, como se tivesse enterrado a conversa sob camadas de contratos e números.
Emma também trabalhou. Confirmou Chicago. Ajustou reuniões. Enviou relatórios. Respondeu e-mails. Mas alguma coisa havia mudado.
Não entre eles.
Dentro dela.
Agora, a frieza de Alexander tinha uma origem mais nítida. Não justificava sua dureza. Emma não era ingênua a ponto de confundir ferida com permissão para ferir. Mas explicava a arquitetura dele. A forma como transformara controle em sobrevivência. O modo como tratava afeto como risco.
Às dezoito e quarenta, o telefone tocou.
— Sim, Sr. Blackwood?
— Entre.
Ela entrou com o bloco nas mãos, pronta para uma lista de tarefas.
Alexander estava sentado, sem paletó, mangas da camisa dobradas até os antebraços. O nó invisível de tensão em sua postura ainda estava lá, mas menor.
Sobre a mesa havia dois convites impressos para o jantar beneficente de Chicago.
— Vamos comparecer ao jantar — disse ele.
Emma piscou.
— Achei que tivesse decidido cancelar.
— Você estava certa.
Essa frase, vinda de Alexander, soava quase como um acontecimento histórico.
— Sobre parecer uma reação? — perguntou ela.
— Sobre escolher em qual mesa vencer.
Emma tentou não sorrir.
— Vou confirmar presença.
— Vanessa estará lá.
— Sim.
— Nathan Cole talvez também.
Emma ergueu os olhos.
— Isso é um problema?
Alexander a observou por um tempo.
Por um instante, ela pensou que ele contaria. Que explicaria quem era Nathan, o que tinha acontecido, por que Ryan ficara preocupado.
Mas a porta dentro dele se fechou antes.
— Pode ser uma distração.
Emma sentiu uma decepção discreta. Irracional, talvez. Mas real.
— Entendi.
— Não, não entendeu.
A frase foi dita sem crueldade. Apenas como fato.
Emma segurou o convite.
— Então me ajude a entender.







