Mundo de ficçãoIniciar sessãoPOV: Ghost
O invasor se chamava Álvaro “Risco” Mendonça e fora declarado morto no incêndio que destruíra a sede dos Corvos de Ferro. Ghost tinha vinte e três anos naquela época e ainda acordava algumas noites sentindo o cheiro daquele fogo. Seu pai fora encontrado entre os escombros com dois tiros no peito, prova de que as chamas serviram para esconder uma execução.
Risco não sobrevivera ao disparo de Caio. No bolso, carregava uma fotografia de Aurora saindo da universidade dois anos antes e um cartão de acesso ao pátio dos Renegados.
Na mesa da capela, como chamavam a sala onde os membros votavam, Ghost colocou o cartão diante de Marco, Caio, Torque, Ledger e dos outros oficiais.
— Alguém abriu uma passagem interna — disse Ghost. — Até descobrirmos quem, nenhum membro sai sozinho e todo acesso será recodificado.
Ledger, o tesoureiro conhecido fora do clube como Enzo Bianchi, ajustou os óculos.
Ledger retomou a explicação:
— Rafael pode ter comprado o cartão de um funcionário.
— Funcionário não entra na ala residencial — respondeu Caio. — Este nível é de membro.
— Está sugerindo que um irmão vendeu o clube?
Caio entrou na conversa:
— Estou sugerindo que o cadáver no corredor não atravessou a parede.
Marco interveio antes que o tom se transformasse em desafio.
— Vamos auditar os registros e conversar com todos. Acusar sem prova divide a mesa, e quem fez isso está contando com a divisão.
Ghost autorizou a auditoria. Durante quinze anos, reconstruíra os Renegados sobre uma regra simples: nenhum irmão seria descartado para proteger o orgulho de outro. Agora teria de investigar os homens que chamava de família.
Encontrou Aurora na enfermaria, sentada enquanto Sofia limpava um corte em sua mão. Ela parecia furiosa por estar tremendo.
— Preciso falar com você — disse Ghost.
— Se veio perguntar outra vez se fui tocada, a resposta continua sendo que ele agarrou minha jaqueta e não conseguiu mais nada.
Ghost mediu as palavras antes de responder:
— Não vim interrogá-la.
Sofia fechou a caixa de curativos.
— Isso é inédito. Vou deixá-los a sós para documentarem o momento.
Quando a irmã saiu, Ghost permaneceu a uma distância que não parecesse ameaça.
— Risco participou da morte do meu pai — contou Ghost. — Os Corvos de Ferro tentaram dominar as rotas de Santa Augusta. A guerra terminou quando a sede deles queimou e os sobreviventes desapareceram. Eu acreditava que Risco estava entre os mortos.
Aurora estudou o rosto dele.
— Você o teria matado mesmo que Caio não tivesse atirado?
— Se ele representasse perigo imediato para você ou para o clube, sim.
Aurora ergueu o queixo e retomou a palavra:
— E se estivesse desarmado?
Ghost poderia ter oferecido uma mentira confortável. Não ofereceu.
Ghost deixou a resposta amadurecer por um instante:
— Quinze anos atrás, eu o teria matado pelo meu pai. Hoje, eu o manteria vivo para descobrir quem o enviou. Não sei se isso me torna melhor ou apenas mais estratégico.
— Talvez a diferença esteja em se importar com a resposta.
Ghost mediu as palavras antes de responder:
— Não tente me redimir, Aurora. Você ainda não sabe tudo o que fiz.
— Também não sabe tudo o que eu sobrevivi.
Ela contou que Rafael começara com pequenos empréstimos quando sua mãe adoeceu. Depois da morte dela, transformara luto em ambição. Aurora crescera ouvindo homens implorarem no escritório e aprendendo a reconhecer o som de uma mentira pela pausa anterior. Aos dezessete, escondera a família de um devedor num apartamento vazio até que fugissem da cidade. Rafael descobrira e passara meses sem falar com ela.
— Eu o amava — disse Aurora. — Essa é a parte humilhante. Eu conhecia a crueldade dele e ainda procurava o homem que fazia chocolate quente quando eu tinha febre.
Ghost puxou uma cadeira e se sentou diante dela.
— Amar alguém não é absolver tudo. Às vezes, é apenas carregar duas verdades que se recusam a caber na mesma mão.
— Você fala por experiência.
— Meu pai construiu este clube e também começou a guerra que o matou. Passei anos tentando honrá-lo sem repetir os erros dele.
Por um momento, o silêncio não foi hostil. Aurora tocou a cicatriz perto da própria palma e respirou com mais calma.
O alarme de incêndio disparou.
Ghost ouviu o primeiro grito no pátio e correu. Chamas subiam do galpão de documentos, alimentadas por combustível espalhado. Homens formaram uma linha com extintores enquanto Torque afastava os cilindros de gás da oficina. Aurora surgiu atrás de Sofia.
— Volte para dentro! — ordenou Ghost.
— Os arquivos financeiros estão naquele galpão — respondeu Aurora. — Se o fogo chegar à sala leste, perdemos os originais.
— Não vale a sua vida.
A resposta de Aurora veio firme:
— Talvez valha a de quem está tentando nos matar.
Antes que ele a detivesse, Aurora cobriu o rosto com uma jaqueta molhada e entrou com Sofia pela porta lateral. Ghost praguejou e foi atrás. Encontrou as duas arrastando uma caixa de metal, enquanto uma viga em chamas bloqueava a saída principal. Ele chutou uma janela baixa, retirou o vidro restante e ajudou Sofia a passar. Quando segurou Aurora pela cintura, o teto gemeu.
— Confie em mim — disse Ghost.
— Isso ainda está em negociação.
Ghost manteve a voz baixa e controlada:
— Negocie do lado de fora.
Ghost a ergueu pela janela e saltou logo depois. A explosão de uma prateleira de solventes lançou calor sobre suas costas. Aurora caiu sobre ele na grama, tossindo, o rosto a poucos centímetros do seu.
A vontade de beijá-la veio brutal e inadequada. Ghost segurou o quadril dela por um segundo além do necessário. Aurora percebeu; os olhos se fixaram na boca dele antes de voltarem ao incêndio.
Caio abriu a caixa resgatada. Dentro havia contratos, livros contábeis e uma pasta que não pertencera ao arquivo do clube. Na capa, Rafael escrevera: “Projeto Fênix”.
Ghost abriu a primeira página e encontrou uma lista de nomes. O seu estava no topo, ao lado de uma data marcada para dali a dez dias.
Ao lado da data havia uma única palavra: execução.







