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Capítulo 3 — Refém ou Convidada

POV: Aurora

À luz da manhã, o clube parecia menos uma fortaleza criminosa e mais uma pequena cidade construída ao redor de motores. Mecânicos atravessavam o pátio com uniformes da oficina, duas crianças esperavam o transporte escolar junto ao portão e uma cozinheira discutia o preço de tomates com um homem tatuado que a tratava por dona Lúcia. Aurora desconfiou da normalidade. Lugares perigosos raramente anunciavam o perigo o tempo todo; sobreviver dependia de saber quando escondê-lo.

Sofia Moretti entregou-lhe uma caneca de café e a conduziu pelo complexo.

— A faixa superior do colete mostra o nome do clube, a inferior mostra o território — explicou Sofia. — O emblema completo é conquistado. Os novatos usam apenas “prospect” e fazem o trabalho que ninguém quer. Presidente e vice conduzem o clube, o sargento de armas cuida da segurança, o road captain organiza as viagens. Decisões grandes passam pela mesa e pelos membros com direito a voto.

— Ghost manda em tudo, mas precisa que votem?

Sofia retomou a conversa:

— Ele manda porque o respeitam, não porque herdou uma coroa. Se confundir as duas coisas, perde a cadeira.

— E você ocupa qual cargo?

Sofia sorriu.

— O cargo de lembrar aos homens que a vida não cabe nos estatutos deles. Cuido do bar, dos contratos legais e da fundação que ajuda as famílias. Não uso colete, mas ninguém é idiota o bastante para me chamar de decoração.

Na cozinha, Aurora conheceu Nina, companheira de Marco, que preparava sanduíches para uma reunião; Beto “Torque”, chefe da oficina; e Davi, um prospect de dezenove anos que derrubou uma bandeja ao reconhecê-la como “a filha do ladrão”. Caio apareceu antes que o constrangimento se espalhasse.

— Pegue outra bandeja e peça desculpas — ordenou Caio ao rapaz. — Aqui, culpa não passa por sangue sem prova.

Davi obedeceu, vermelho. Aurora fitou Caio.

— Não esperava justiça do homem que sugeriu métodos criativos para me convencer.

— Não confunda justiça com gentileza — respondeu Caio. — Eu não gosto de você, mas gosto ainda menos de preguiça mental.

— É um começo comovente.

Ele quase sorriu, depois deixou sobre a mesa uma fotografia do carro usado no ataque.

Caio entrou na conversa:

— Sua advogada chegou. Também descobrimos que alguém tentou entrar no apartamento dela durante a madrugada.

Isadora Nunes entrou como uma tempestade de salto baixo e pasta vermelha. Abraçou Aurora, verificou seu rosto e se virou para Ghost, que vinha logo atrás.

— Se minha cliente está detida, quero a autoridade responsável e o fundamento legal — disse Isadora. — Se não está, ela vai embora comigo.

— Sua cliente pode sair — respondeu Ghost. — Contudo, dois homens armados atacaram a casa dela, e alguém invadiu o seu apartamento. Tenho seis pessoas procurando a rota de fuga. Quantas você tem?

Isadora sustentou o olhar.

— Tenho a lei.

— Ligue para ela e pergunte em quanto tempo chega.

Aurora colocou-se entre os dois.

— Eu concordei em ficar sete dias. Preciso saber como meu nome foi usado e por que meu pai citou os Corvos de Ferro.

Isadora virou-se para ela.

— Você tem certeza de que não está concordando porque ele a intimidou?

— Ele intimidou, eu negociei e nenhum de nós gostou do resultado. Isso significa que provavelmente é um acordo razoável.

Na sala de reuniões, Sofia apresentou os documentos. Isadora identificou uma autenticação feita num cartório fechado havia dois anos e um selo incompatível com a data. Aurora analisou as planilhas e percebeu que as transferências seguiam valores ligeiramente abaixo dos limites de verificação automática.

— Meu pai não montou isto sozinho — concluiu Aurora. — Ele entendia pessoas, garantias e pressão, mas detestava sistemas. Alguém com acesso ao financeiro dos Renegados criou o calendário das transferências.

Ghost, à cabeceira, perguntou:

— Está acusando um membro do meu clube?

— Estou dizendo que um intermediário externo não saberia exatamente em quais dias o caixa teria saldo suficiente para esconder saídas. Se deseja defender todos por lealdade, faça isso. Se deseja encontrar o dinheiro, procure quem tinha acesso.

Marco apoiou os cotovelos na mesa.

— Sofia, Ledger e eu recebíamos os relatórios completos. Ghost recebia o consolidado. Mais alguém?

— Rafael recebia projeções durante a negociação da Vértice — respondeu Sofia. — Mas Aurora tem razão sobre os dias. Há precisão demais.

Ghost não gostou da conclusão, porém não a rejeitou. Aurora percebeu que sua lealdade não era cegueira; era uma ferida que ele protegia.

Depois da reunião, Isadora puxou-a para o corredor.

— Preciso que me diga toda a verdade — afirmou a advogada. — Você está com medo dele?

— Estou com medo do que ele pode fazer, mas não acho que Ghost tenha ordenado os tiros. Ele poderia ter me levado sem quebrar a própria janela.

Isadora voltou a se manifestar:

— E existe outra coisa.

Aurora desviou o rosto.

— Existe uma tensão que seria mais fácil ignorar se ele fosse apenas um monstro.

— Homens perigosos raramente são apenas monstros. É assim que conseguem abrir portas antes de arrombá-las. Não confunda proteção com posse.

Aurora deixou uma pausa breve antes de prosseguir:

— Não vou confundir.

— Você já está dizendo isso como quem espera precisar lembrar.

À tarde, Aurora começou a revisar os arquivos no escritório de Sofia. Encontrou uma sequência de pagamentos identificados pelas letras C.F. e uma anotação repetida: “cinzas pagam aço”. Quando abriu o registro societário da empresa destinatária, o endereço correspondia a um depósito abandonado na zona norte.

Ela mal teve tempo de chamar Sofia. As luzes se apagaram, o alarme soou e uma mão cobriu sua boca por trás.

Aurora atingiu o agressor com o cotovelo, ouviu um palavrão e tentou alcançar a porta. O homem agarrou sua jaqueta. Antes que ele a puxasse, um disparo abafado ecoou no corredor e o corpo caiu.

Ghost surgiu na penumbra, arma em punho, os olhos mais frios do que ela já vira.

— Ele tocou em você? — perguntou Ghost.

Aurora encarou o sangue espalhando-se pelo chão.

— Quem era ele?

Ghost se agachou, virou o agressor e arrancou a manga de sua camisa. Um corvo de ferro estava tatuado no antebraço.

— Um homem que deveria estar morto — respondeu Ghost.

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