Capítulo 2 — O Presidente

POV: Ghost

Ghost não acreditava em coincidências, e a bala disparada contra a casa de Aurora tinha chegado cedo demais para ser uma resposta improvisada. Alguém acompanhava Rafael, conhecia os movimentos dos Renegados e queria impedir que a filha dele falasse. O problema era que Aurora não parecia uma cúmplice. Parecia uma mulher furiosa por ter sido transformada em garantia de uma dívida que desconhecia.

No caminho para o clube, ela viajou na caminhonete de Marco, porque Ghost se recusou a colocá-la na garupa em meio a uma possível perseguição. Ele seguiu de moto, conferindo os retrovisores, até os portões de aço do complexo se fecharem atrás do comboio.

A sede dos Renegados ocupava uma antiga fábrica de peças automotivas nos limites de Santa Augusta. Do lado de fora, parecia um galpão cercado por oficinas e pátios de carga. Por dentro, reunia o salão do clube, a sala de reuniões, dormitórios, cozinha industrial, enfermaria e escritórios. Quase oitenta pessoas dependiam diretamente dali, sem contar famílias e funcionários das empresas.

Marco entrou na sala de guerra enquanto Ghost observava, por uma câmera interna, Sofia conduzir Aurora ao quarto de hóspedes.

— Você está olhando há cinco minutos — comentou o vice-presidente. — Se procura chifres ou um rabo, acho que ela escondeu na mala.

— Ela controlou o medo diante de cinco coletes e percebeu o segundo atirador antes de Caio confirmar a rota do carro. Rafael ensinou alguma coisa à filha.

— Talvez tenha ensinado apenas a sobreviver a ele.

Ghost virou-se para o painel com fotografias, extratos e rotas. Marco era seu melhor amigo havia dezoito anos, o único homem que podia questioná-lo sem transformar discordância em desafio.

— O dinheiro saiu por três empresas de fachada — explicou Ghost. — Uma delas foi registrada com documentos ligados a Aurora.

— Ela pode não saber.

Ghost retomou o ponto com objetividade:

— Ignorância não apaga assinatura.

— Não, mas muda a forma como fazemos a pergunta. Se a pressionar como pressionaria Rafael, ela fechará a porta apenas para provar que ainda consegue escolher alguma coisa.

Ghost apoiou as mãos na mesa.

— Desde quando você distribui conselhos sentimentais?

— Desde que meu presidente começou a assistir à câmera de um corredor como se fosse uma novela ruim.

Antes que Ghost respondesse, Caio entrou com um saco plástico. Dentro havia um estojo de munição encontrado perto da casa e uma fotografia arrancada de uma câmera de trânsito.

— O carro foi roubado ontem — informou Caio. — Dois homens, rostos cobertos. A munição é a mesma usada pelos Abutres em três ataques do ano passado. Posso visitar Silas Rocha e perguntar com delicadeza.

— Sua delicadeza exige ambulância — disse Marco.

— Apenas quando a conversa rende pouco.

Ghost negou com a cabeça.

— Ninguém cruza a cidade esta noite. Silas pode querer que culpemos os Abutres. Quero placas, pedágios, câmeras e o registro completo das empresas. Chame Ledger para conferir os extratos.

Caio hesitou por uma fração de segundo ao ouvir o nome do tesoureiro, mas assentiu e saiu. Ghost registrou a hesitação.

Aurora apareceu à porta dez minutos depois, acompanhada por Sofia. A irmã de Ghost administrava o bar e a contabilidade das empresas legais, e jamais pedira licença para entrar em lugar algum.

— Sua convidada quer estabelecer os termos do cárcere — anunciou Sofia. — Eu gostei dela, então sugiro que não seja insuportável.

— Obrigado pela neutralidade familiar.

Aurora colocou o telefone sobre a mesa.

— Minha advogada está vindo pela manhã. Também quero ver o documento que supostamente contém minha assinatura.

Ghost abriu uma pasta e empurrou a cópia de um contrato. Ela leu em silêncio, cada vez mais pálida.

— A assinatura parece minha, mas eu nunca vi isto — declarou Aurora. — Esta data coincide com a abertura da consultoria que meu pai me deu como presente de formatura. Disse que seria uma empresa de planejamento financeiro e pediu procuração para cuidar da burocracia enquanto eu fazia entrevistas.

— Você assinou uma procuração ampla sem ler? — perguntou Ghost.

— Eu li. Ela autorizava atos administrativos, não empréstimos, transferências internacionais ou empresas de fachada. Meu pai trocou uma página ou falsificou o reconhecimento. Posso provar pela numeração do cartório.

Ghost puxou uma cadeira.

— Sente-se e prove.

Aurora não sentou.

— Primeiro, explique por que um motoclube tinha oito milhões circulando por uma conta informal.

Sofia cruzou os braços, interessada. Marco tentou esconder um sorriso.

Ghost respondeu depois de medir as palavras:

— Os Renegados não são santos. Protegemos cargas em rotas onde a polícia chega depois dos ladrões. Cobramos dívidas que tribunais levam anos para reconhecer. Alguns membros já transportaram mercadoria que eu não aceitaria hoje. Contudo, o dinheiro roubado era de um fundo criado para comprar a transportadora Vértice e retirar vinte irmãos de trabalhos ilegais. Seu pai intermediou a aquisição porque conhecia o proprietário.

— Então ele não roubou somente criminosos. Roubou uma saída.

Ghost retomou a palavra sem elevar o tom:

— Exatamente.

Ela finalmente se sentou.

Aurora respirou fundo antes de se manifestar:

— Nesse caso, temos o mesmo inimigo. Meu pai usou meu nome, deixou alguém atirar contra minha casa e escreveu um bilhete dizendo para eu não confiar em quem usa o corvo.

Ghost ficou imóvel.

— Onde está o bilhete?

Aurora tirou-o do bolso, mas não entregou.

— Eu o mostrarei quando você me garantir que não vai me trancar aqui depois que minha advogada chegar.

— Não ofereço garantias sem saber o que estou comprando.

Aurora deixou uma pausa breve antes de prosseguir:

— E eu não entrego a única coisa que meu pai deixou sem saber se serei enterrada com o segredo.

O silêncio entre eles ganhou densidade. Ghost reconheceu a estratégia: ela não implorava, criava valor. Havia inteligência por trás do medo, e aquilo era mais atraente do que deveria.

— Você ficará no clube por sete dias — decidiu Ghost. — Circulará pelas áreas comuns, falará com sua advogada e terá acesso aos documentos relacionados ao seu nome. Em troca, entrega o bilhete, ajuda Sofia a rastrear a procuração e não tenta fugir. Se descobrirmos que mentiu, os termos acabam.

— Se eu descobrir que você mentiu, também acabam.

Ghost retomou a palavra sem elevar o tom:

— Você não está em posição de impor reciprocidade.

Aurora inclinou-se sobre a mesa.

— Toda relação em que apenas um lado define as regras termina em rebelião, Ghost. Imaginei que um Renegado soubesse disso.

Marco tossiu para disfarçar o riso. Sofia nem tentou.

Ghost estendeu a mão. Aurora colocou o bilhete em sua palma, e os dedos dos dois se tocaram. O contato foi breve, mas produziu uma consciência imediata do corpo dela, de seu perfume discreto e da coragem teimosa em seus olhos.

Ele leu as duas linhas. O corvo era o emblema dos Corvos de Ferro, um clube extinto depois de uma guerra que matara o pai de Ghost quinze anos antes.

Rafael não estava apenas roubando dinheiro. Estava desenterrando mortos.

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