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Melchakli Vinkis ⚔️
O vento rugia sobre os muros de pedra do clã Valheris, um lamento vindo dos confins do norte. As tochas tremulavam, lançando sombras que dançavam como espectros sobre as tapeçarias desbotadas e os elmos pendurados nos pilares do grande salão. Lá fora, a tempestade desabava com fúria, e parecia que os próprios céus choravam pelo fim de uma era. No leito coberto de peles e veludos, Senhor Valheris jazia imóvel. O rosto outrora altivo agora era pálido como marfim, e os olhos, outrora tão firmes diante de batalhas e conselhos de guerra, vagavam entre o mundo dos vivos e o das memórias. O velho guerreiro sentia o frio das pedras subindo pelos ossos, o peso do tempo cobrando-lhe a alma. Sabia que estava diante da última fronteira. A morte caminhava pelos corredores do castelo, e até as chamas pareciam se curvar diante dela. A seu lado permanecia Laird Dravharn, o amigo de infância, o irmão de armas — o homem cuja vida ele salvara há muitos invernos, quando o sangue cobria os campos e os corvos cantavam vitória sobre os corpos caídos. Agora, aquele mesmo amigo estava ali, observando o fim daquele que fora seu igual e companheiro em tantas guerras. E, aos pés da cama, sentada imóvel, estava a pequena Alarë, seus os olhos grandes estavam úmidos, a inocência sentia a marca da dor precoce. A menina segurava um colar de prata que a mãe lhe deixara antes de morrer e o apertava entre os dedos, certamente buscando coragem. — Pela chama dos antigos… — murmurou Valheris, a voz trêmula, exatamente como uma folha levada ao vento. — Jure-me, velho amigo, que não deixará minha filha sozinha neste mundo de lobos. Dravharn sentiu o peso daquelas palavras atravessar-lhe o peito como uma lâmina afiada. Olhou para a menina, tão pequena e tão frágil, e algo nele se quebrou — talvez a parte que ainda acreditava que seu amigo poderia escapar do destino. Com um gesto solene, colocou a mão sobre o peito e respondeu: — Juro-te, pela minha honra e pelo nome de meus ancestrais. Que teu sangue e o meu se unam, e que jamais se quebre o elo forjado nesta noite. O moribundo sorriu, um sorriso cansado, mas verdadeiro. — Então… quando eu partir, o destino de Alarë será o destino de Tarok, teu filho. Que eles unam os dois clãs, e que a paz continue a reinar entre os dois povos. E se, no futuro, essa promessa for quebrada, que o sangue regue a terra. Sele nossa vontade perante o rei. Um trovão estrondou, fazendo a madeira da janela tremer. O vento uivou entre as fendas das muralhas, como se o próprio norte tivesse ouvido o pacto. Dravharn abaixou a cabeça em sinal de respeito. Sabia que aquele juramento não era leve — era um fardo selado pelos deuses, um elo de ferro entre seus descendentes. Seu filho ainda era apenas um garoto, mas o futuro já lhe era imposto antes mesmo de saber empunhar uma espada. — Que assim seja, em nome dos antigos e sob os olhos do Falcão e do Lobo — respondeu Dravharn. — Juro, nem a morte, nem o tempo ou os ventos traiçoeiros separarão o que prometemos. Se o sangue tocar a terra por deslealdade, que eu seja o primeiro a pagar por isso, mas que a aliança se mantenha intacta. Valheris respirou fundo, os olhos marejados, e estendeu a mão trêmula, pousando-a sobre a de Alarë. — Que as águas do Vale do norte e as neves do sul se encontrem, e que jamais o esquecimento alcance nossos nomes. Tu farás nosso clã próspero, minha Alarë. Tua união com Tarok conservará a paz em nossas terras, e teus filhos carregarão um legado forte e duradouro. A menina nada respondeu — apenas deixou que as lágrimas lhe escapassem, como as gotas de chuva que caiam lá fora. Por um instante, o vento cessou. O fogo da lareira curvou-se reverenciando o momento. O tempo pareceu prender a respiração. — Que os deuses te protejam, minha pequena Alarë… — sussurrou o homem. — Que os deuses te protejam. E quando o último suspiro do Senhor Valheris se perdeu no silêncio do quarto, uma estrela cadente cruzou o céu sobre o clã. Os guardas nas torres juraram ter ouvido um cântico no vento — um coro distante, como vozes de ancestrais ecoando entre as montanhas. Diz-se que, naquela noite, os deuses ouviram o juramento dos homens. E, entre o trovão e o vento forte, selaram o destino de Tarok Dravharn e Alarë Valheris. O destino que, nas línguas antigas, chamava-se Melchakli Vinkis — a união que nasce da morte.






