Mundo de ficçãoIniciar sessãoNarrador:
Camila não se lembrava em que momento se levantou do chão nem como saiu da alfaiataria. Só sabia que o mundo cheirava a pó, tecido rasgado e medo. O ataque havia deixado o local irreconhecível. O que antes era um refúgio agora parecia um cenário de guerra.
E lá estava ele, Antonio Montalbán, parado no meio do desastre, como se nada o incomodasse, como se a destruição não fosse nada mais do que parte do dia. Ele ordenava com o olhar. Controlava sem tocar. Dominava sem gritar.
Camila engoliu em seco. Seu coração não se acalmava.
Ainda ouvia ecoando em sua cabeça as mesmas palavras. “Noiva do mafioso”.
Ela se obrigou a falar, embora a voz não lhe obedecesse totalmente.
“Quero que você me diga o que aconteceu”, disse ela, mantendo a dignidade como podia. “Não vou sair daqui até que alguém me explique do que estão falando.”
Ele então a olhou de verdade. Não como uma vítima. Não como um problema. Ele a olhou como se estivesse avaliando até onde poderia lhe contar. Até onde deveria.
E isso a enfureceu.
— É a minha vida — acrescentou — E se o assunto envolve meu pai... também é da minha conta.
Antonio exalou lentamente. Deu uma olhada na bagunça, depois nos homens que acabavam de chegar, os seus, e finalmente voltou a atenção para ela.
— Você não pode ficar aqui — respondeu — Não é seguro.
— Não mude de assunto — ela replicou — Por que aqueles homens vieram e destruíram meu negócio? O que diabos eles estavam procurando? O que meu pai tem a ver com tudo isso? — ela fez uma pausa para respirar e continuou o interrogatório — O que foi isso de “noiva”? Por que eles disseram que ela ia se casar comigo?
Silêncio.
Um dos homens de Antonio falou pelo rádio. Outro fechou o que restava da porta. Camila percebeu que estava em uma situação que não conseguia controlar.
E a sensação de não controlar nada a deixava arrasada.
— Camila — disse Antonio, com uma calma que mais assustava do que tranquilizava — essas pessoas não vieram para roubar você. Não vieram para intimidá-la por acaso. Vieram porque acreditam que seu pai deixou algo escondido. E acreditam que você tem isso ou, pelo menos, sabe onde está.
Ela negou, desesperada.
— Meu pai não... meu pai costurava ternos.
— Seu pai fazia mais do que ternos — respondeu Antonio.
As palavras a magoaram como se fossem um golpe.
Porque ela sempre suspeitara de algo. Porque, desde o “acidente” dele, nada fazia sentido. Porque a polícia havia encerrado o caso muito rapidamente. Porque ninguém a ouvira quando ela disse que algo não estava certo.
Sua voz saiu mais quebrada do que ela queria.
— Meu pai não era um criminoso.
— Você não o conhecia — respondeu ele, firme, mas sem dureza — E, se não fosse por isso que eles estão procurando, continuaria assim, mas as coisas mudaram e, mais cedo ou mais tarde, você descobrirá quem ele realmente era.
Um peso frio caiu sobre seu estômago.
— O que eles estão procurando?
—Ainda não sei —admitiu Antonio.
Isso a deixou desconcertada.
E, ao mesmo tempo, deu-lhe um lampejo de alívio. Pelo menos ele não estava mentindo. Pelo menos não fingia saber tudo.
—Então me explique outra coisa —insistiu ela —Desde quando estou “noiva” de você? Porque, caso não tenha percebido, ninguém me avisou.
Um brilho de irritação passou por seus olhos, mas a irritação não era por ela. Era pela situação.
— Seu pai e eu tínhamos um acordo — disse ele — Não foi algo sentimental, foi um acordo. Ele me pediu algo, eu aceitei. E agora estou cumprindo.
Camila sentiu algo parecido com um tapa invisível.
—Meu pai o comprometeu comigo sem me dizer nada?
—Não exatamente.
Suas mãos se apertaram.
—Fale claro de uma vez.
Antonio baixou o olhar por um segundo, como se ponderasse as palavras. Mas quando voltou a levantá-lo, foi direto ao ponto.
—Seu pai salvou minha vida.
Eu não esperava por isso. Não estava preparada para isso.
—Há alguns anos —continuou ele —eu já estava neste mundo, mas ainda não tinha poder. Tinham colocado um preço na minha cabeça. Iam me matar. E o homem que me escondeu, que arriscou sua vida, sua tranquilidade para que eu pudesse respirar mais um dia... foi ele.
A imagem era absurda. Um alfaiate salvando um mafioso. Mas não era.
Antonio continuou falando.
—Eu o ajudei depois. Eu o protegi quando pude. Era uma dívida que nunca acabaria de pagar. Mas ele sempre disse que um dia precisaria de algo maior. E ele estava certo.
Camila sentiu um nó na garganta.
—O que ele pediu?
Antonio olhou fixamente para ela.
—Que eu te protegesse.
As palavras não acalmaram. Não tranquilizaram. Não foram doces.
Soaram como uma condenação.
— E estou cumprindo — acrescentou — com todas as consequências.
Camila não sabia o que sentir.
Seu pai a havia protegido mesmo depois de morto. Mas ele havia feito isso à custa de algo que nunca perguntou se ela queria. À custa de decidir por ela. À custa de entregá-la a um homem como Antonio Montalbán.
— E o noivado? — perguntou em voz baixa — Também foi ideia sua?
— Foi uma forma de torná-la intocável — explicou — Neste mundo, as esposas não são tocadas. As mulheres “de alguém” não são usadas como peças. Seu pai sabia disso. Eu sabia disso. Por isso, a versão que circula é que você é minha noiva.
Ele não romantizou nada, não suavizou, não disfarçou. Foi cru, mas foi honesto.
Camila cerrou os dentes.
—Então sou uma espécie de elemento que precisa ser protegido. Um objeto incômodo, mas necessário.
—Não —respondeu ele, sem pestanejar—, você é a filha de Vittorio Romano. E isso já a colocava no meio, mesmo antes de mim.
Ele a olhou por mais um segundo. E então aquele homem que não demonstrava nada deixou escapar uma frase que pesava mais do que qualquer ameaça.
— Não pretendo perder a única coisa que ele me pediu para cuidar.
Camila sentiu os olhos se encherem de lágrimas, mas não chorou.
Não na frente dele. Ela se forçou a recuperar o fôlego.
— Não vou ficar parada — disse ela — Não vou ser apenas “a gorda protegida”. Não vou esperar que outros resolvam a história da minha vida. Se meu pai morreu por alguma razão, se vocês acreditam que ele deixou algo... eu vou descobrir o que é.
Pela primeira vez desde o início da noite, Antonio deixou de vê-la como uma variável e a viu como uma decisão.
E isso o surpreendeu.
— Então você terá que fazer isso comigo — respondeu ele — Porque, a partir de agora, você não estará sozinha. Nem por um segundo.
Não era uma oferta. Era uma sentença. De repente, Camila percebeu algo mais simples, mais imediato, mais duro.
— E agora o que vai acontecer comigo? Eles deixaram tudo destruído.
A resposta foi tão direta que não deixou espaço para interpretações.
—Você vem comigo.
Ela arregalou os olhos.
—Não.
—Sim.
—Eu não vou...
—Camila...
Seu nome na voz dele soou como uma fechadura.
—Se você ficar aqui, vão sequestrá-la. Se for para outro lugar sozinha, vão segui-la. E se pretender fingir que nada aconteceu, vão obrigá-la a entender da pior maneira possível.
Não vou permitir nenhuma dessas opções.
— Não é suposto que as mulheres dos mafiosos não sejam tocadas?
— É o código, mas os códigos também se quebram.
Camila olhou para a sua alfaiataria devastada.
Tudo o que era seu estava partido.
Tudo o que a definia tinha ficado sem forma.
Talvez não tivesse escolha. Talvez tivesse... mas não era segura.
Ela respirou fundo.
— Não confio em você — advertiu.
— Não estou pedindo confiança — respondeu ele — Estou dizendo que, até sabermos quem fez isso, o que eles estão procurando e o que isso tem a ver com você... você vem para minha casa.
Isso soou pior do que deveria. A casa dele. O mundo dele.
Lá fora, ouviram-se motores. Seus homens já estavam protegendo o perímetro. A polícia não iria aparecer. Ninguém iria denunciar nada. Naquele mundo, as coisas eram resolvidas longe dos uniformes.
Camila compreendeu que continuar discutindo era desgastante.
Mas ela prometeu uma coisa a si mesma. Ela não seria arrastada. Ela entraria andando. Por decisão própria, para descobrir, para entender, para defender seu pai, para se defender.
Antonio se aproximou um pouco.
— Prometo uma coisa — disse ele — Não vou mentir para você. Não vou usar sua ignorância contra você. Mas você precisa saber que, a partir de agora, o que você fizer... importa.
Ela sustentou seu olhar.
— A partir de agora, eu também importo — respondeu.
Isso, por alguma razão, fez com que ele inclinasse levemente a cabeça, reconhecendo algo que não disse.
Minutos depois, quando saiu da alfaiataria acompanhada pelos homens de Antonio, Camila sentiu que estava deixando para trás mais do que tecidos. Ela estava deixando para trás a versão antiga de si mesma. Aquela que vivia escondida no trabalho, que fingia que a dor não doía, que aceitava o que os outros decidiam.
Ela entrou no carro.
A cidade parecia maior, mais perigosa, mais real.
Antonio entrou atrás dela.
Eles nem tinham arrancado quando ele acrescentou algo que ela não pediu, mas que deixou claro o tamanho da tempestade em que ela estava entrando.
—Essas pessoas não param —disse ele—. E você não é apenas um nome na lista deles. Você é o centro.
Camila fechou os olhos por um segundo. Não porque estivesse com medo. Porque estava processando. E quando os reabriu, já não era apenas a filha do alfaiate. Era a mulher que iria descobrir no que a tinham transformado.
O carro arrancou. A cidade ficou para trás. E o caos... estava apenas começando.







