Mundo de ficçãoIniciar sessão— Se você disser mais uma vez que eu estou me mudando para a caverna do Batman, eu juro que jogo esse par de saltos na sua cabeça — ameacei, dobrando uma calça de alfaiataria preta e acomodando-a com precisão dentro da mala aberta sobre a minha cama.
Chloe estava jogada de bruços no meu colchão, abraçada a um travesseiro, me observando com uma mistura de fascínio e terror absoluto.
— Mas ele é o Batman, Sam! Só que em vez de combater o crime, ele compra empresas e demite pessoas no café da manhã — ela rebateu, ajeitando o corpo para me encarar. — Você tem noção de que vai morar na mesma cobertura que o Travis Callahan? Sob o mesmo teto? Tipo... dividindo a mesma geladeira?
— Suítes separadas, asas separadas da cobertura, privacidade absoluta — recitei as palavras dele, soltando um suspiro e fechando o zíper de uma das bolsas de maquiagem. — O homem tem fobia de pessoas invadindo o espaço dele. Duvido que a gente se cruze fora do corredor principal.
— Sei... — Chloe semicerrou os olhos, a voz carregada de intenções ocultas. — E você já pensou na historinha que vocês vão contar para a família dele no jantar de sexta-feira? Porque se o avô dele é o patriarca do império, ele não vai engolir um "nos conhecemos num aplicativo e nos apaixonamos".
Parei por um segundo, encarando o espelho da penteadeira. A pergunta de Chloe tocava no coração do meu trabalho.
— Eu já montei a narrativa — respondi, voltando ao meu tom analítico, o mesmo que usava para estruturar cada contrato. — Para um homem como o Travis, a história precisa ser impecável e coerente com a personalidade fria dele. Nós não fomos um amor à primeira vista arrebatador; isso seria falso demais para quem conhece o Callahan. Nós fomos uma colisão inevitável.
— Desenvolva, por favor. Estou pegando a pipoca — Chloe se sentou com as pernas cruzadas.
— Nós nos conhecemos há seis meses numa galeria de arte discreta em SoHo. Ele estava analisando uma escultura moderna e calculando o valor de mercado, e eu fiz um comentário irônico sobre a falta de alma da peça. Ele tentou me peitar com aquele tom autoritário de sempre, mas eu sustentei o olhar. A partir dali, virou um jogo de gato e rato. Ele tentou me afastar porque não conseguia me controlar, e quanto mais ele tentava manter o controle, mais cedia.
Chloe soltou um assobio baixo.
— Genial. É crível porque vende a ideia de que você é a única mulher no mundo que não abaixa a cabeça para ele.
— Exatamente. O amor deles não é melaço; é tensão reprimida. É o tipo de relacionamento onde todo mundo na sala percebe que eles querem se matar ou se agarrar a qualquer momento.
— O que nos leva ao ponto principal... — Chloe abaixou a voz, inclinando-se na minha direção com um brilho conspiratório nos olhos. — Como é que você vai fingir toda essa química de mulher experiente se, na vida real, você nunca deixou ninguém passar da superfície? Sam, você é literalmente virgem.
Olhei para o teto, soltando um riso abafado.
— Eu sei fingir que amo, que odeio e que estou apaixonada. Fazer a linha femme fatale experiente é a parte mais fácil da performance. O mercado só precisa acreditar que eu sei o que estou fazendo.
— Mas e os boatos sobre ele? — Chloe pegou o celular, deslizando a tela rapidamente antes de me mostrar. — Olha isso. Fóruns de fofocas corporativas, blogs de bastidores de Nova York... Há anos dizem que a única razão para nenhuma mulher parar ao lado do Travis Callahan é porque ele é um sadico. Dizem que ele pratica BDSM pesado em segredo e exige um controle bizarro entre quatro paredes.
Olhei para a tela do celular por dois segundos antes de empurrar o aparelho de volta para ela, totalmente inabalável.
— Fofocas de internet alimentadas por pessoas que foram rejeitadas por ele, Chlo. O mercado odeia homens que não consegue manipular.
— Mas e se for verdade? E se o motivo de ele ser tão obcecado por regras e limites for porque ele precisa dominar tudo até na cama? Você é virgem, Sam! Nunca esteve numa dinâmica dessas.
Parei, lembrando do momento em que esbarrei nele no bar na noite passada. A forma como o corpo dele enrijeceu. O jeito como ele travou a mandíbula, contando os segundos para reestabelecer o espaço. Não era sadismo brutal; era proteção. Era a necessidade desesperada de um homem que precisava prever cada movimento para não se sentir vulnerável.
— Se for verdade — disse suavemente, ajeitando a lapela do meu casaco —, então ele vai descobrir que eu sou a única pessoa que entende de limites melhor do que ele. No BDSM, na minha vida pessoal ou no mercado corporativo, o poder só existe quando é negociado. Ele tem os limites dele para não se expor, e eu tenho os meus.
Chloe me encarou por alguns instantes em silêncio, antes de soltar uma risada resignada e balançar a cabeça.
— Você é inacreditável, Samantha. Qualquer outra mulher virgem estaria morrendo de medo de entrar na casa de um bilionário misterioso com fama de dominador sadico, e você está tratando isso como um seminário de negociação.
— Eu sou uma profissional, querida. E o meu foco é o cheque de seis dígitos que vai colocar o detetive na pista da Olivia até o final do ano.
Conferi as horas no relógio de pulso. Dezessete e quarenta.
Ajustei as duas malas grandes no centro do quarto. Eu estava vestindo uma calça jeans preta de corte reto, botas de cano curto e uma blusa de gola alta creme sob um sobretudo escuro. Nada extravagante, mas com a elegância sem esforço que fazia parte da minha marca registrada.
— O motorista dele deve estar lá embaixo — disse, pegando minha bolsa de mão.
Chloe se levantou e me deu um abraço apertado, segurando meus ombros e me encarando com seriedade.
— Promete que me liga todo dia? Se ele tentar te trancar num quarto secreto de punição sem o seu consentimento, eu chamo a polícia e a imprensa na mesma hora.
— Prometido — sorri, dando um beijo na bochecha dela. — Mas relaxa. O Travis Callahan pode ser o predador mais temido de Wall Street, mas ele ainda não sabe o que fazer quando a presa não corre.
Peguei minhas malas e desci pelo elevador do meu prédio. Como esperado, um SUV preto com vidros filmados e um motorista de terno escuro já me aguardava na calçada. O homem se adiantou imediatamente, pegando a bagagem das minhas mãos sem dar uma única palavra, abrindo a porta traseira para mim.
Entrei no veículo, sentindo o cheiro de couro novo e ar-condicionado.
Enquanto o carro avançava pelas ruas movimentadas de Nova York em direção à cobertura de Travis, peguei meu celular e enviei uma mensagem rápida para o número privado dele:
As malas estão no carro. Espero que a sua suíte de hóspedes esteja à altura das minhas exigências, Callahan. Te vejo em dez minutos.
A resposta dele veio trinta segundos depois, curta, fria e cirúrgica:
As chaves estão na portaria. Não se atrase para o jantar de sexta.
Olhei para a tela, soltando um meio-sorriso provocante. A convivência sob o mesmo teto nem tinha começado e o ar já estava carregado de eletricidade.
Trinta dias. Aquela cobertura seria o nosso campo de batalha.







