Mundo de ficçãoIniciar sessãoO teto do heliporto do Edifício Callahan parecia o topo do mundo, mas para mim era apenas mais uma sala de reuniões a céu aberto. O vento frio de Nova York cortava o ar, fazendo as pontas do meu casaco de lã preto esvoaçarem enquanto o som abafado das hélices de um helicóptero recém-pousado ainda diminuía ao fundo.
Oito horas em ponto. Nem um segundo a mais, nem um segundo a menos.
Caminhei com passos firmes sobre o concreto, o som dos meus saltos estalando contra o chão com uma precisão matemática. Eu estava impecável. Um vestido tubinho azul-marinho de corte seco, maquiagem neutra, cabelos presos em um coque alinhado e o meu melhor semblante profissional. A armadura perfeita de quem não se deixa abalar por impérios bilionários.
E lá estava ele.
Saindo da área coberta do heliponto acompanhado por dois seguranças de porte atlético, Travis Callahan dominava o espaço com a mesma presença esmagadora da noite anterior. Terno sob medida em tom grafite, gravata perfeitamente ajustada, ombros largos e a postura de um homem acostumado a ver o mundo se curvar aos seus comandos.
Ele não me viu de imediato, concentrado em conferir algo no relógio de pulso.
— Você está quarenta segundos adiantada, senhorita Foster — a voz grave e rasgada ressoou antes mesmo que ele erguesse os olhos.
— Adiantada é o novo pontual, Callahan — respondi com um tom calmo, mantendo as mãos cruzadas à frente do corpo e um sorriso calmo e ligeiramente irônico nos lábios.
Quando Travis finalmente ergueu a cabeça e seus olhos cinzentos encontraram os meus, o tempo pareceu desacelerar por uma fração de segundo.
O reconhecimento foi instantâneo.
A mandíbula dele travou com tanta força que um músculo saltou visivelmente em sua bochecha. Os olhos, antes frios e calculistas, se estreitaram em uma mistura perigosa de choque, irritação e uma incredulidade profunda. As peças do quebra-cabeça se encaixaram na mente dele em tempo real: a mulher irônica da noite anterior no bar decadente era a mesma profissional impecável recomendada pela agência.
— Você... — ele deu um passo à frente, a voz caindo uma oitava, parecendo um rosnado contido.
— Eu — completei, mantendo meu melhor sorriso estilo Lucy, sem mover um único fio de cabelo. — Prazer em conhecê-lo formalmente, Sr. Callahan. Samantha Foster. A mulher que você não podia comprar e que, pelo visto, você não conseguiu esquecer.
Os dois seguranças atrás dele se entreolharam, claramente desacostumados a ver alguém falar com o chefe daquela forma. Travis levantou uma das mãos com um gesto seco, dispensando os homens sem tirar os olhos de mim.
— Fora. Os dois. Agora.
Os seguranças recuaram imediatamente, deixando-nos completamente sós sob o vento forte do heliponto.
Travis caminhou na minha direção. Não foi uma aproximação comum; foi a movimentação predatória de um homem que precisava retomar o controle do ambiente a todo custo. Ele parou a uma distância rigorosa de dois passos de mim, o espaço exato para não ser tocado, mas próximo o suficiente para que sua presença física me sombreasse por inteiro.
Ele exalava o mesmo perfume amadeirado da noite passada, misturado ao ar gélido da manhã.
— Isso foi um jogo? — ele perguntou, as palavras saindo como lâminas afiadas. — Você sabia quem eu era ontem à noite.
— É claro que eu sabia. Eu sou uma profissional, Callahan. Eu estudo o terreno antes de pisar — inclinei levemente a cabeça, olhando-o de baixo para cima com um divertimento transparente. — Mas admito que a oportunidade de ver o implacável CEO do Grupo Callahan desconfortável num bar de cerveja barata era tentadora demais para deixar passar.
— Você ultrapassou os limites.
— Eu nem comecei, querido — dei meio passo à frente, reduzindo ligeiramente a distância entre nós, notando como o olhar dele desceu por meio segundo para o meu movimento antes de voltar para meus olhos. — Ontem foi um teste drive. Hoje é o negócio real. E, se nós vamos trabalhar juntos durante trinta dias, é melhor você se acostumar com o fato de que eu não sou uma das suas funcionárias amedrontadas.
Travis sustentou meu olhar. A intensidade cinzenta dos olhos dele era sufocante, uma tempestade contida por uma força de vontade absurda.
— A agência me garantiu que você era a melhor — ele disse, a voz baixa, austera e dominadora. — Mas a sua atitude é um risco desnecessário.
— A minha atitude é o que faz a sua história de amor parecer real — contrapus, ajustando a lapela do meu casaco com tranquilidade. — Homens como você não se apaixonam por mulheres submissas e previsíveis. Se você quer que o seu avô e a imprensa acreditem que você finalmente encontrou alguém para casar, você precisa de uma mulher que não pise em ovos perto de você. Você precisa de mim.
Um silêncio denso se instalou entre nós, cortado apenas pelo barulho do vento. Travis me encarou por longos segundos, avaliando cada palavra, calculando os custos e os riscos com a frieza de quem fecha um acordo bilionário.
— Trinta dias — ele declarou, o tom inflexível. — Você seguirá o protocolo. Não haverá atrasos, não haverá improvisos não autorizados diante das câmeras e você estará nos eventos que eu determinar.
— Com três condições simples, Callahan — ergui três dedos, mantendo a postura ereta. — Primeira: nada de homens casados, o que não é o seu caso. Segunda: o anel volta para você no último segundo do contrato. E terceira, a mais importante...
Parei, olhando diretamente no fundo daqueles olhos cinzentos.
— Sem sexo. Sem contato íntimo desnecessário. O meu trabalho é a performance da paixão, não a sua vida pessoal.
Travis deu um sorriso mínimo, um mover de lábios frio e desprovido de qualquer calor humanitário.
— Não se preocupe com a terceira regra, senhorita Foster. Eu não tenho a menor intenção de tocar em você além do estritamente necessário para manter a farsa.
— Ótimo — sorri de volta, radiante. — Adoro quando chegamos a um consenso tão rápido. Onde eu assino?
Ele tirou uma caneta montblanc e uma pasta de couro do interior do paletó, estendendo-as para mim sem que seus dedos chegassem perto dos meus. Peguei os papéis, assinei meu nome na linha indicada com a fluidez de quem já fez aquilo sete vezes e devolvi o documento.
Ao guardar os papéis, Travis me encarou uma última vez antes de se virar em direção às portas do elevador executivo.
— O primeiro jantar com a minha família é na sexta-feira. Esteja pronta às dezenove horas. Meu motorista vai buscá-la.
— Estarei pronta, Callahan — disse para as costas dele, vendo-o caminhar com passos firmes. — Tente treinar um sorriso no espelho até lá. Vai ajudar bastante.
Ele não se virou, mas vi seus ombros se tencionarem por um milímetro antes que as portas metálicas do elevador se fechassem, separando-nos.
Olhei para a cidade de Nova York do alto daquela torre, ajustando minhas luvas. O primeiro passo estava dado. O dinheiro do sinal já devia estar a caminho da conta do investigador particular.
O jogo tinha começado.







