Mundo de ficçãoIniciar sessãoSe existe um lugar no mundo onde os problemas podem ser temporariamente suspensos para dar lugar ao álcool barato e à catarse coletiva, esse lugar é o The Rusty Nail.
Longe das luzes indiretas dos restaurantes com estrelas Michelin e das taças de cristal da alta sociedade, o bar de penumbra baixa e cheiro de cevada no coração do Lower East Side era o meu santuário.
— Deixa eu ver se eu entendi direito — Chloe disse, virando o segundo shot de tequila e batendo o copinho na mesa de madeira gasta com um estalo seco. — Você acabou de encerrar um contrato de oitenta mil dólares com um herdeiro de hospitais e, em vez de tirar férias em Cabo como uma pessoa normal, você aceitou um trabalho com o Travis Callahan?
— Três vezes o meu cachê habitual, Chlo — corrigi, girando o gelo no meu copo de negroni. — Isso paga mais um ano de investigadores em tempo integral atrás da Olivia. Eu aceitaria fingir ser noiva do próprio diabo por esse valor.
Chloe me encarou com os olhos levemente cerrados por causa do álcool. Ela era minha melhor amiga desde a época em que eu nem sonhava em ser uma noiva de aluguel. Conhecia cada cicatriz da minha história, sabia o nome de cada policial que arquivou o caso de Olivia e era a única pessoa no mundo diante de quem eu não precisava performar nada.
— O problema, Sam, é que o Travis Callahan é praticamente o diabo — ela argumentou, inclinando-se sobre a mesa. — Eu li a matéria da Forbes sobre ele no mês passado. O homem demitiu a própria diretora de operações porque ela se atrasou quatro minutos para uma reunião de fusão. Ele é um psicopata de terno sob medida!
— Ele é só mais um homem rico com mania de grandeza e problemas de controle — dei de ombros, dando um gole demorado no meu drink. — Eu passei quatro anos lidando com homens assim. Eles acham que dinheiro compra tudo, inclusive a realidade. A diferença é que amanhã de manhã, às oito horas, no heliponto da torre dele, ele vai descobrir que comigo a banda toca diferente.
— Você devia relaxar essa noite. Parar de pensar como profissional por pelo menos duas horas.
— Eu estou relaxada. — Sorri, apontando para o meu copo. — Olha o meu tinto em perfeita harmonia com o meu estado mental.
Chloe deu uma risada alta, balançando a cabeça.
— Vou ao banheiro antes que a tequila decida fazer um golpe de estado no meu estômago. Não vá embora sem mim.
Fiquei sozinha na mesa por alguns minutos, observando o movimento do bar. As pessoas dançavam ao som de um rock indie tocando ao fundo, casais se agarravam em cantos escuros e o balcão estava lotado. Decidi me levantar para pedir mais uma rodada antes que Chloe voltasse.
Ajustei meu vestido justo de malha preta simples, mas que desenhava o corpo com uma precisão cirúrgica e caminhei em direção ao balcão. O ambiente estava apertado, um fluxo contínuo de pessoas se esbarrando na penumbra.
Fiz o sinal para o barman, inclinando o corpo para frente, quando um homem que passava atrás de mim foi empurrado por um sujeito visivelmente embriagado. O impacto me fez dar um passo em falso para trás.
Minhas costas colidiram diretamente contra um peitoral largo e rígido como uma parede de concreto.
— Olhe por onde anda — uma voz grave, profunda e perigosamente fria ressoou logo acima da minha cabeça.
O tom era tão cortante que quase fez o ar do bar esfriar alguns graus. Mas foi a reação física do homem que me fez congelar por meio segundo.
No instante em que meu ombro encostou no peito dele, senti uma rigidez absurda tomar conta do corpo do estranho. Não foi uma esquivada comum; foi o sobressalto de alguém cujo espaço vital havia sido violado. A tensão emanava dele como uma onda de choque.
Virei-me devagar, pronta para soltar uma resposta afiada, mas as palavras travaram na minha garganta quando meus olhos subiram.
Ombros largos. Terno escuro sem gravata, com os primeiros botões da camisa social abertos. Cabelos escuros perfeitamente cortados. E um par de olhos cinzentos que pareciam tempestades contidas em gelo.
Travis Callahan.
Ele estava ali. No meio de um bar decadente no Lower East Side, completamente fora de seu habitat natural de coberturas e salas de conselho. E, pelo olhar de puro desgosto que ele lançava para o ambiente ao redor, claramente contra a sua vontade — provavelmente arrastado por algum sócio ou esperando por uma reunião informal.
Mas o mais importante de tudo: ele olhou para mim e não viu Samantha Foster, a noiva de aluguel contratada pela agência. Ele viu apenas uma mulher que acabou de esbarrar nele num bar lotado.
Ele ainda não sabia quem eu era.
Uma faísca de pura adrenalina e divertimento acendeu no meu peito. Eu tinha doze horas antes da nossa reunião oficial. Doze horas para entender o terreno onde pisaria durante o próximo ano.
— Você devia avisar antes de parar como uma coluna de concreto no meio do caminho — soltei, cruzando os braços e encarando-o de baixo para cima com um meio-sorriso provocante.
Travis franziu o cenho. O músculo de sua bochecha saltou, travado de irritação. Ele deu meio passo para trás, restabelecendo uma distância de segurança matemática entre nós.
— Foi você quem recuou sem olhar, senhorita — ele disse, a voz como um chicote rasgado, baixa e dominadora. — E este lugar é um caos insustentável.
— Ah, a alta sociedade não gosta de um pouco de povo e cerveja barata? — Inclinei a cabeça, medindo-o com um olhar divertido. — Você tem cara de quem bebe uísque de dois mil dólares e processa pessoas por olhar torto para o seu terno.
Travis me encarou por longos segundos. A intensidade daquele olhar cinzento era quase física, uma pressão que faria qualquer pessoa normal dar um passo para trás e pedir desculpas. Mas eu apenas mantive meu sorriso calmo, sustentando a postura.
— Você fala demais — ele declarou, a voz caindo uma oitava, tornando-se ainda mais perigosa.
— E você fala de menos, Callahan — soltei sem querer o sobrenome dele, mas corrigi com a rapidez de um raio: — Quer dizer, você tem cara de ter um sobrenome pomposo. Qual é? Worthington? Sterling?
Um brilho de desconfiança calculada passou pelos olhos dele. Ele deu mais um passo na minha direção, encurtando o espaço, embora mantivesse as mãos cravadas nos bolsos do paletó para evitar qualquer toque. A presença dele era sufocante.
— Quem é você? — ele perguntou, o tom exigente, como se estivesse acostumado a ter respostas imediatas de qualquer ser humano no planeta.
Aproximei-me só um milímetro a mais, o suficiente para ver as pupilas dele dilatarem levemente. Fiquei nas pontas dos pés e sussurrei perto do ouvido dele, sentindo o calor da pele da sua mandíbula:
— Uma mulher que você não pode comprar, misterioso. E que você definitivamente não vai esquecer.
Antes que ele pudesse redefinir o controle ou disparar mais uma ordem fria, dei dois passos para trás, pisquei para ele com uma leveza irônica e me mudei de volta para a multidão, exatamente no momento em que Chloe saía do banheiro.
Olhei por cima do ombro uma última vez.
Travis Callahan continuava no mesmo lugar, a figura imponente destacada na penumbra do bar, com os olhos cinzentos cravados em mim, tentando decifrar o furacão que acabou de passar por ele.
Sorri para mim mesma, dando um gole no meu drink.
Amanhã às 08:00 vai ser muito divertido.







