Mundo de ficçãoIniciar sessãoA sala ficou para trás com um clique seco da porta.
O corredor era silencioso, amplo demais, como se tivesse sido projetado para intimidar. O som dos passos de Lívia ecoava baixo no piso polido, misturando-se ao ritmo firme dos passos de Dante à frente.
Ele não disse nada.
Não tentou conduzi-la com a mão. Não olhou para trás. Apenas caminhou com a segurança de quem sabia exatamente onde estava — e onde queria chegar.
Lívia percebeu isso.
Percebeu também que, desde que ele entrara na sala do conselho, o ar parecia diferente. Não mais hostil de forma caótica, mas perigoso de forma organizada.
Dante abriu uma porta lateral e indicou a entrada com um gesto discreto.
— Aqui.
O ambiente era menor. Um escritório reservado, com paredes de vidro fosco, uma mesa de madeira escura e uma janela ampla que dava para a cidade. Não havia ostentação excessiva. Tudo ali era funcional. Controlado.
Como ele.
Dante fechou a porta atrás deles.
— Pode se sentar — disse, apontando para a cadeira em frente à mesa.
Lívia sentou, cruzando as mãos no colo. Só então percebeu que os dedos estavam gelados.
Dante retirou o paletó com um movimento preciso e o colocou sobre a cadeira ao lado. Arregaçou levemente as mangas da camisa. Não parecia cansado. Parecia… focado.
— Antes de qualquer coisa — ele começou — preciso ser claro.
Ela levantou o olhar.
— Por favor.
— Eu não estou aqui para ser gentil com você. — A voz dele era calma, quase neutra. — Nem para proteger seus sentimentos.
Lívia assentiu lentamente.
— Ótimo. — respondeu. — Eu também não tenho energia pra delicadezas hoje.
Um canto quase imperceptível da boca de Dante se moveu. Não chegou a ser um sorriso.
— Bom. — Ele se sentou à frente dela. — Então vamos direto ao ponto.
Ele abriu a pasta novamente, espalhando alguns documentos sobre a mesa, mas sem empurrá-los na direção dela ainda.
— Você herdou poder real, Lívia Azevedo. — disse, usando o nome completo dela com intenção. — Não simbólico. Não honorário. Real.
Ela respirou fundo.
— Eu não pedi isso.
— Eu sei. — Ele respondeu sem hesitar. — E isso, curiosamente, j**a a seu favor.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
Dante apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos.
— Pessoas que desejam poder cometem erros por ambição. — explicou. — Pessoas que caem nele… costumam ser mais cautelosas. Observam mais.
Lívia desviou o olhar por um instante, absorvendo aquilo.
— Você acredita em mim? — perguntou, sem rodeios.
Dante a encarou por alguns segundos longos demais para serem confortáveis.
— Eu acredito nos fatos. — respondeu. — E os fatos dizem que Eduardo alterou o testamento sem coação formal.
— Formal? — ela repetiu.
— Pressão emocional não deixa provas jurídicas. — Ele foi honesto. — Mas se houvesse qualquer indício de manipulação, eu não estaria sentado aqui com você. Estaria do outro lado daquela mesa.
O estômago de Lívia se revirou.
— Então você não confia em mim.
— Ainda não. — Ele respondeu. — Mas também não desconfio.
Ela soltou uma risada curta, nervosa.
— Que reconfortante.
Dante inclinou levemente a cabeça.
— É o máximo que posso oferecer agora.
O silêncio se instalou entre eles, denso, mas não vazio.
— Eles vão tentar me derrubar — Lívia disse, mais como constatação do que pergunta.
— Sim. — Dante respondeu imediatamente. — De todas as formas possíveis.
— Jurídicas?
— Primeiro.
— E depois?
Ele a encarou com mais intensidade.
— Reputacionais. Emocionais. Estratégicas. — fez uma pausa. — E, se necessário, pessoais.
Lívia sentiu um frio percorrer a espinha.
— Você tá dizendo que eles vão me atacar.
— Estou dizendo que eles nunca aceitaram você viva naquele espaço. — respondeu. — Agora, aceitar menos ainda.
Ela respirou fundo, sentindo o peso real daquilo tudo finalmente pousar.
— Então por que você está do meu lado? — perguntou, encarando-o diretamente. — Se eles são sua família profissional há anos.
Dante não respondeu de imediato.
Levantou-se, caminhou até a janela e observou a cidade por alguns segundos.
— Porque eu trabalho com contratos. — disse, de costas. — E Eduardo me contratou para garantir que a vontade dele fosse cumprida. Até o fim.
Ele virou-se.
— E porque, se eu falhar nisso, nada do que construí profissionalmente importa.
Lívia o observou com atenção agora.
Não havia heroísmo ali.
Havia ética. Fria. Inflexível.
— O que você espera de mim? — ela perguntou.
Dante voltou a se sentar.
— Disciplina. — respondeu. — Silêncio estratégico. E que você não confunda poder com impulso.
Ela assentiu.
— E o que eu posso esperar de você?
Ele sustentou o olhar dela.
— Verdade. Mesmo quando doer.
O silêncio voltou a se estender.
Lívia sentiu algo diferente se formando no peito. Não era confiança plena. Nem atração declarada.
Era respeito cauteloso.
— Eu não sei se vou aguentar isso — ela confessou, a voz mais baixa. — Ontem eu era só… uma mulher tentando casar.
Dante observou o rosto dela com atenção.
— E hoje? — perguntou.
Lívia respirou fundo.
— Hoje eu não sei quem sou.
Ele fechou a pasta e empurrou um documento na direção dela.
— Então descubra. — disse. — Porque o mundo não vai esperar você decidir.
Ela olhou para o papel. Depois, para ele.
— E se eu cair?
Dante se levantou novamente, aproximando-se um passo. Não invadiu o espaço dela. Mas a presença dele era inegável.
— Então caia de pé. — respondeu. — Porque, a partir de agora, cada movimento seu será observado.
Lívia sentiu o coração acelerar.
Ele deu um passo para trás.
— Pense no que quer fazer. — completou. — Mas saiba: o jogo já começou.
Quando Dante abriu a porta para que ela saísse, Lívia entendeu algo com clareza incômoda.
Aquele homem não seria seu salvador.
Mas também não seria seu inimigo.
Ele seria o limite entre o caos…
e o controle.E, ao atravessar o corredor novamente, Lívia percebeu que não era mais a mesma mulher que entrara ali.
Algo dentro dela havia despertado.
E não pretendia dormir novamente.







