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CAPÍTULO 5 — ENTRE LINHAS

A sala ficou para trás com um clique seco da porta.

O corredor era silencioso, amplo demais, como se tivesse sido projetado para intimidar. O som dos passos de Lívia ecoava baixo no piso polido, misturando-se ao ritmo firme dos passos de Dante à frente.

Ele não disse nada.

Não tentou conduzi-la com a mão. Não olhou para trás. Apenas caminhou com a segurança de quem sabia exatamente onde estava — e onde queria chegar.

Lívia percebeu isso.

Percebeu também que, desde que ele entrara na sala do conselho, o ar parecia diferente. Não mais hostil de forma caótica, mas perigoso de forma organizada.

Dante abriu uma porta lateral e indicou a entrada com um gesto discreto.

— Aqui.

O ambiente era menor. Um escritório reservado, com paredes de vidro fosco, uma mesa de madeira escura e uma janela ampla que dava para a cidade. Não havia ostentação excessiva. Tudo ali era funcional. Controlado.

Como ele.

Dante fechou a porta atrás deles.

— Pode se sentar — disse, apontando para a cadeira em frente à mesa.

Lívia sentou, cruzando as mãos no colo. Só então percebeu que os dedos estavam gelados.

Dante retirou o paletó com um movimento preciso e o colocou sobre a cadeira ao lado. Arregaçou levemente as mangas da camisa. Não parecia cansado. Parecia… focado.

— Antes de qualquer coisa — ele começou — preciso ser claro.

Ela levantou o olhar.

— Por favor.

— Eu não estou aqui para ser gentil com você. — A voz dele era calma, quase neutra. — Nem para proteger seus sentimentos.

Lívia assentiu lentamente.

— Ótimo. — respondeu. — Eu também não tenho energia pra delicadezas hoje.

Um canto quase imperceptível da boca de Dante se moveu. Não chegou a ser um sorriso.

— Bom. — Ele se sentou à frente dela. — Então vamos direto ao ponto.

Ele abriu a pasta novamente, espalhando alguns documentos sobre a mesa, mas sem empurrá-los na direção dela ainda.

— Você herdou poder real, Lívia Azevedo. — disse, usando o nome completo dela com intenção. — Não simbólico. Não honorário. Real.

Ela respirou fundo.

— Eu não pedi isso.

— Eu sei. — Ele respondeu sem hesitar. — E isso, curiosamente, j**a a seu favor.

Ela franziu a testa.

— Como assim?

Dante apoiou os cotovelos na mesa, entrelaçando os dedos.

— Pessoas que desejam poder cometem erros por ambição. — explicou. — Pessoas que caem nele… costumam ser mais cautelosas. Observam mais.

Lívia desviou o olhar por um instante, absorvendo aquilo.

— Você acredita em mim? — perguntou, sem rodeios.

Dante a encarou por alguns segundos longos demais para serem confortáveis.

— Eu acredito nos fatos. — respondeu. — E os fatos dizem que Eduardo alterou o testamento sem coação formal.

— Formal? — ela repetiu.

— Pressão emocional não deixa provas jurídicas. — Ele foi honesto. — Mas se houvesse qualquer indício de manipulação, eu não estaria sentado aqui com você. Estaria do outro lado daquela mesa.

O estômago de Lívia se revirou.

— Então você não confia em mim.

— Ainda não. — Ele respondeu. — Mas também não desconfio.

Ela soltou uma risada curta, nervosa.

— Que reconfortante.

Dante inclinou levemente a cabeça.

— É o máximo que posso oferecer agora.

O silêncio se instalou entre eles, denso, mas não vazio.

— Eles vão tentar me derrubar — Lívia disse, mais como constatação do que pergunta.

— Sim. — Dante respondeu imediatamente. — De todas as formas possíveis.

— Jurídicas?

— Primeiro.

— E depois?

Ele a encarou com mais intensidade.

— Reputacionais. Emocionais. Estratégicas. — fez uma pausa. — E, se necessário, pessoais.

Lívia sentiu um frio percorrer a espinha.

— Você tá dizendo que eles vão me atacar.

— Estou dizendo que eles nunca aceitaram você viva naquele espaço. — respondeu. — Agora, aceitar menos ainda.

Ela respirou fundo, sentindo o peso real daquilo tudo finalmente pousar.

— Então por que você está do meu lado? — perguntou, encarando-o diretamente. — Se eles são sua família profissional há anos.

Dante não respondeu de imediato.

Levantou-se, caminhou até a janela e observou a cidade por alguns segundos.

— Porque eu trabalho com contratos. — disse, de costas. — E Eduardo me contratou para garantir que a vontade dele fosse cumprida. Até o fim.

Ele virou-se.

— E porque, se eu falhar nisso, nada do que construí profissionalmente importa.

Lívia o observou com atenção agora.

Não havia heroísmo ali.

Havia ética. Fria. Inflexível.

— O que você espera de mim? — ela perguntou.

Dante voltou a se sentar.

— Disciplina. — respondeu. — Silêncio estratégico. E que você não confunda poder com impulso.

Ela assentiu.

— E o que eu posso esperar de você?

Ele sustentou o olhar dela.

— Verdade. Mesmo quando doer.

O silêncio voltou a se estender.

Lívia sentiu algo diferente se formando no peito. Não era confiança plena. Nem atração declarada.

Era respeito cauteloso.

— Eu não sei se vou aguentar isso — ela confessou, a voz mais baixa. — Ontem eu era só… uma mulher tentando casar.

Dante observou o rosto dela com atenção.

— E hoje? — perguntou.

Lívia respirou fundo.

— Hoje eu não sei quem sou.

Ele fechou a pasta e empurrou um documento na direção dela.

— Então descubra. — disse. — Porque o mundo não vai esperar você decidir.

Ela olhou para o papel. Depois, para ele.

— E se eu cair?

Dante se levantou novamente, aproximando-se um passo. Não invadiu o espaço dela. Mas a presença dele era inegável.

— Então caia de pé. — respondeu. — Porque, a partir de agora, cada movimento seu será observado.

Lívia sentiu o coração acelerar.

Ele deu um passo para trás.

— Pense no que quer fazer. — completou. — Mas saiba: o jogo já começou.

Quando Dante abriu a porta para que ela saísse, Lívia entendeu algo com clareza incômoda.

Aquele homem não seria seu salvador.

Mas também não seria seu inimigo.

Ele seria o limite entre o caos…

e o controle.

E, ao atravessar o corredor novamente, Lívia percebeu que não era mais a mesma mulher que entrara ali.

Algo dentro dela havia despertado.

E não pretendia dormir novamente.

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