capítulo 2

A música continuava tocando no salão.

Risadas.

Taças brindando.

Pessoas importantes da máfia russa comemorando alianças e negócios.

Mas, para mim…

Tudo parecia distante.

Como se eu estivesse em outro lugar.

Naquela noite, todos olhavam para o império dos cinco irmãos.

A família.

O poder.

O nome.

Mateus, o patriarca, estava no centro de tudo.

O homem que ninguém ousava contrariar.

Sempre com o sobretudo preto impecável, o chapéu escuro e aquele olhar frio de quem passou a vida comandando homens.

Ao lado dele estavam seus filhos.

Donatello.

Ângelo.

Miguelito.

Roivan.

Chunal.

Os cinco pareciam ter saído de uma pintura de guerra.

Altos.

Fortes.

Imponentes.

Os ternos escuros perfeitamente ajustados, os cabelos penteados para trás, a postura firme.

Homens que faziam qualquer pessoa abaixar os olhos.

Mas eu conhecia o lado que ninguém via.

Eu conhecia os cinco homens por trás daquela armadura.

E talvez esse fosse o meu maior problema.

Porque eu amava homens que nunca tinham aprendido a me escolher.

Eu estava sentada em uma mesa mais afastada.

O vestido elegante.

As joias que eles mesmos tinham me dado.

A postura perfeita.

Como sempre.

Eu sabia que todos esperavam uma reação minha.

Esperavam lágrimas.

Uma cena.

Um descontrole.

Mas eu não dei esse gosto a ninguém.

Então Mateus levantou sua taça.

O salão inteiro ficou em silêncio.

— Hoje celebramos novas alianças para a nossa família.

Duas mulheres entraram.

Loiras.

Bonitas.

Bem vestidas.

A imagem perfeita que aquele mundo esperava.

Mateus sorriu levemente.

— Esta é Aline. A partir de hoje, noiva do meu filho Donatello.

Os aplausos começaram.

Depois ele olhou para a segunda mulher.

— E esta é Mariana. Noiva do meu filho Ângelo.

Mais aplausos.

Mais sorrisos.

Mais comemorações.

Eu apenas permaneci sentada.

Sem mexer um músculo.

Sem deixar ninguém perceber o que estava acontecendo dentro de mim.

Meus olhos encontraram os deles por alguns segundos.

Donatello me olhava.

Ângelo também.

Os três outros irmãos observavam em silêncio.

Eles esperavam uma reação.

Talvez que eu levantasse.

Que brigasse.

Que mostrasse que estava machucada.

Mas eu apenas desviei o olhar.

Porque naquele momento eu entendi.

Eu não precisava implorar por um lugar na vida de ninguém.

A festa continuou.

Eu permaneci até o fim.

Sorrindo quando precisava.

Cumprimentando quando era necessário.

Sendo exatamente a mulher que eles ensinaram que eu deveria ser.

Quando finalmente os convidados começaram a ir embora, eu saí.

Sem pressa.

Sem chamar atenção.

Atravessei os corredores enormes da mansão e fui até meus aposentos.

Fechei a porta.

E só então permiti que minha máscara caísse.

Tirei os saltos.

Coloquei as joias sobre a mesa.

Cada uma delas carregava uma lembrança.

Momentos em que eles diziam que eu era especial.

Que eu era diferente.

Que eu era a única mulher capaz de acalmar aqueles cinco homens.

Mas naquela noite…

Nada daquilo parecia suficiente.

Entrei no banho.

A água quente caiu sobre mim enquanto eu tentava segurar as lágrimas.

Depois vesti uma camisola simples.

Deitei na cama.

Sozinha.

Enquanto lá fora a festa ainda acontecia.

Eu conseguia ouvir a música distante.

As vozes.

As comemorações.

E eu ali.

No silêncio do quarto.

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto.

Não era raiva.

Era cansaço.

Cansaço de sempre entender.

Sempre esperar.

Sempre aceitar.

Eu não tinha o que fazer.

Não tinha o que falar.

Porque naquele mundo…

Minha voz parecia ser a coisa menos importante.

E o que mais doía não era perder Donatello e Ângelo.

Era perceber que talvez eu nunca tivesse realmente pertencido a eles.

Talvez eu tivesse sido apenas o segredo bonito que eles guardavam longe dos olhos do mundo.

Fechei os olhos.

Tentando dormir.

Mas a única pergunta que ficava na minha cabeça era:

Se eu era realmente a fraqueza dos cinco homens mais perigosos da máfia russa…

por que eles estavam deixando o mundo me perder?

A festa já tinha terminado há alguns minutos.

As últimas vozes foram desaparecendo pelos corredores da mansão.

Mas algo estava errado.

Donatello percebeu primeiro.

Ele olhou para a mesa onde ela tinha ficado a noite inteira.

Vazia.

Seu olhar ficou imediatamente mais sério.

— Onde ela está?

Ângelo também olhou ao redor.

A mesma sensação apertou o peito dele.

Ela nunca ia embora sem avisar.

Nunca.

Miguelito, Roivan e Chunal trocaram olhares silenciosos.

Todos entenderam naquele instante.

Ela não tinha feito uma cena.

Não tinha chorado na frente deles.

Não tinha implorado.

Ela simplesmente tinha ido embora.

E isso doeu muito mais.

Os cinco subiram os corredores da mansão em silêncio.

Pela primeira vez, nenhum deles tinha uma ordem para dar.

Nenhuma ameaça para fazer.

Nenhum inimigo para enfrentar.

A única coisa que eles queriam era encontrá-la.

Quando chegaram diante da porta do quarto dela, Donatello parou.

Sua mão ficou sobre a maçaneta.

Ele respirou fundo antes de abrir.

Devagar.

Como se tivesse medo de assustá-la.

O quarto estava escuro.

Apenas uma pequena luz iluminava o ambiente.

E então eles viram.

Ela estava deitada na cama.

Dormindo.

Mas não estava em paz.

Seu rosto estava molhado.

As lágrimas tinham escorrido enquanto ela dormia.

Por alguns segundos, nenhum dos cinco conseguiu se mexer.

Aquela mulher, que sempre parecia forte diante de todos…

Que nunca abaixava a cabeça para ninguém…

Tinha chorado sozinha.

Por causa deles.

Donatello se aproximou primeiro.

Sentou-se ao lado da cama.

Com uma delicadeza que ninguém daquele mundo imaginaria existir nele, afastou uma mecha de cabelo do rosto dela.

O toque dele era cuidadoso.

Quase como se ela fosse algo precioso demais para tocar.

Ângelo ficou do outro lado da cama, olhando para ela em silêncio.

A culpa pesava.

Porque eles lembravam de cada vez que ela sorriu para eles mesmo estando machucada.

Cada vez que ela colocou um vestido escolhido por eles.

Cada vez que ela fingiu que estava tudo bem.

Miguelito passou a mão pelo cabelo dela com carinho.

Roivan abaixou a cabeça, lutando contra a própria expressão.

E Chunal, o mais impulsivo deles, apenas ficou parado, olhando para a mulher que sempre foi o coração daquela casa.

— Ela chorou sozinha… — ele murmurou.

Ninguém respondeu.

Porque todos sabiam.

Ela tinha feito isso durante anos.

Donatello continuou fazendo carinho no cabelo dela.

O homem que fazia outros implorarem por misericórdia agora parecia quebrado diante de uma única lágrima dela.

— Nós deixamos ela acreditar que não era importante — ele falou baixo.

Ângelo fechou os olhos.

— Ela achou que era apenas um segredo.

A frase ficou no quarto.

Pesada.

Dolorosa.

Porque era exatamente isso que eles tinham feito ela sentir.

Eles tinham dado tudo a ela.

Menos aquilo que ela mais precisava.

Um lugar.

Donatello olhou para o rosto dela.

— Eu prometi proteger ela de todos.

Sua voz falhou.

— Mas eu nunca imaginei que ela precisaria ser protegida de nós.

Os cinco permaneceram ali.

Sem sair.

Sem se importar com a madrugada passando.

Apenas fazendo carinho nela.

Cuidando da mulher que por quatro anos cuidou deles.

E naquela noite, pela primeira vez…

Os cinco mafiosos russos entenderam que a maior ameaça ao império deles não era um inimigo.

Era perder a única pessoa que fazia aquele império ter algum significado.

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