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Minhas mãos, mesmo repletas de calos, ainda doíam e sangravam enquanto eu carregava os baldes pelas escadas de pedra. O tilintar das correntes ecoava a cada passo, meus pulmões ardiam com a respiração pesada e a garganta ressecada pela falta de água. Até mesmo o líquido escuro dentro do balde parecia tentador aos meus olhos.
Fui jogada para frente, a água se derramando por todo o chão. Tentei me levantar, mas meu rosto foi pressionado contra o chão com força.
“Loba estúpida. Olha a bagunça que você fez.” rosnei protestando, mas eu estava fraca pelos dias sem me alimentar e mal conseguia me manter de pé. “Limpe logo isso e vá buscar mais água. O alfa deseja a fortaleza limpa para a celebração dessa noite.”
Eu estava farta daquela humilhação, farta daquela vida como escrava.
O lobo que havia me derrubado se afastou, rindo ao se juntar com seus companheiros. Meros soldados de casta baixa, mas ainda, acima de mim.
Olhei meu reflexo no chão molhado, as cicatrizes vermelhas em meu rosto e pescoço, hematomas em várias partes do meu corpo extremamente magro e frágil. Meus cabelos prateados estavam sujos e embaraçados e meus olhos não refletiam nenhum brilho.
“Eu não fiz nada para estar aqui.” rosnei, meus punhos cerrados. “Meu clã não fez nada para ser destruído por esse maldito.”
Dentro de mim, Shade, minha loba, rosnava em desespero e raiva. As correntes que me aprisionavam me impediam de libertar minha loba, me prendendo na forma humana para ser controlada mais facilmente.
“Seja paciente. Teremos a nossa chance.” disse em voz baixa enquanto tentava me levantar, as pernas trêmulas.
Cambaleei pelos corredores da fortaleza, uma construção de pedras antiguada, escondida entre as árvores. O cheiro de terra e musgo se misturava ao cheiro de medo e sangue dos escravos. Criaturas patéticas que já haviam desistido de lutar, mas eu não era como eles. Eu jamais desistiria de lutar pela minha liberdade.
Algo bateu em meu braço, me empurrando, fazendo com que o balde que eu carregava com dificuldade caísse no chão. Minhas pernas se enrolaram nas correntes, eu caí, batendo os joelhos com força no chão em um som abafado contra o chão de pedra.
“Escrava imunda, como se atreve a tocar na Luna!” não tive tempo de ver quem falava comigo. O impacto veio contra as minhas costas, rasgando minhas roupas esfarrapadas e minha pele.
Eu gritei enquanto outro golpe descia sobre mim, a carne rasgada, o sangue escorrendo pelo meu corpo, quente e pegajoso. Travei meus dentes, contendo a dor que irradiava por todo o meu corpo.
“Já chega.” uma voz grave surgiu e meu sangue gelou de imediato. Shade se encolheu dentro de mim enquanto eu lutava para manter os olhos no chão. “Cada lobo dessa alcateia é importante, mesmo os escravos.” Garras longas seguraram meu rosto, me fazendo olhar para cima. “Ah… eu me lembro de quando trouxe essa. a loba prateada.”
Todo o meu corpo se arrepiou. Por instinto, tentei me afastar, mas o lobo segurou meu rosto com mais força, suas longas unhas perfurando minha pele. Seus olhos castanhos me estudavam, descendo do meu rosto para o meu corpo mutilado. Ele passou a língua pelos lábios e sorriu, me soltando com brutalidade. Ergui meu rosto, sustentando seu olhar até que um golpe forte me atingiu na bochecha, me jogando contra o chão.
“Loba imunda! Como se atreve a olhar para o alfa.”
“Sim, foi exatamente por isso que eu a trouxe.” o alfa disse entre risadas. “Forte, orgulhosa.” ele agarrou meus cabelos, me puxando para cima com facilidade enquanto eu me debatia, tentando me desvencilhar de sua mão. Seu nariz deslizou pelo meu pescoço, inalando minha pele. “Uma beleza selvagem, perdida nessa imundice.”
Rosnei, sentindo minha luba lutando junto comigo para não se submeter ao alfa que nos aprisiona. “Eu prefiro limpar essa fortaleza com a língua a me submeter a um alfa fraco como você.” minha voz saiu fraca, mas clara o bastante para que todos ao nosso redor pudessem ouvir.
A dor veio junto ao impacto.O ar escapou dos meus pulmões, a dor irradiando pela minha barriga, cada músculo se contraindo em espasmos involuntários. Antes que eu pudesse me conter, o gosto ácido subiu pela minha garganta, preenchendo minha boca até que vomitei.
Assim que o alfa me soltou, minhas pernas vacilaram, me dobrei sobre mim mesma, abraçando o local onde o punho do alfa havia atingido. Um gemido baixo escapou de meus lábios enquanto a sombra corpulenta do alfa pairava sobre o meu corpo.
“Levem essa loba ingrata para as celas. Lhe deem somente o necessário para que não morra.” enquanto o alfa se afastava com seus bajuladores, eu fiquei ali, no chão sujo, me contorcendo de dor e humilhação.
“Vamos, loba.” um dos soldados me puxou pelo braço, forçando que eu ficasse de pé.
As celas ficavam fora da fortaleza, o local de punição para escravos desobedientes ou que ainda carregavam alguma esperança de liberdade. Expostos aos elementos, lobos fortes se quebravam facilmente, implorando por perdão.
Enquanto eu era levada, pude ouvir os soldados atrás de mim conversando. Eles não se preocupavam em manter suas vozes baixas diante de uma simples escrava.
“Não julgo o alfa por se interessar por essa loba.” um deles disse com uma voz que escorria veneno e desejo.
“Quer ter seus olhos arrancados? Melhor tomar cuidado com o que diz.” o outro advertiu, mas eu podia sentir seus olhos sobre mim, como se algo viscoso e nojento rastejasse sobre a minha pele.
“Não se preocupe, depois da lua cheia essa loba será descartada pelo alfa.” meu sangue gelou, então passei a prestar mais atenção na conversa atrás de mim.
“Que merda é essa que você está falando?”
“Eu ouvi de um dos lobos que trabalha no castelo que o alfa está de olho nela desde a conquista daquele clã, por isso não a matou, mas na próxima lua cheia ele vai tomá-la.” meu corpo travou por um segundo, minhas mãos tremendo com o entendimento daquelas palavras. “Acha que ele vai tomar uma escrava como concubina? Claro que ela vai acabar amarrada para que os soldados solteiros se deleitem.”
As risadas daqueles dois lobos ecoaram pelas árvores, como um preságio sombrio do que o futuro me reservava. Ergui meus olhos para a lua sobre nossas cabeças, sabendo que teria pouco tempo para escapar ou que meu destino estaria selado para sempre.







