Capítulo 4

POV Kael

Continuei olhando para ela.

Genevieve ria enquanto conversava com os clientes como se conhecesse cada um deles havia anos, como se aquele lugar fosse sua casa. Havia leveza em cada sorriso, em cada provocação e em cada gesto despreocupado. Era difícil acreditar que aquela mulher era a mesma garota que eu deixara para trás tantos anos antes.

Meu lobo permanecia inquieto.

Minha.

Cerrei os dentes.

Não.

Ela não era. Não mais.

Eu mesmo tinha destruído qualquer direito de pensar aquilo no dia em que a rejeitei.

Desviei o olhar, tirei uma nota de cem da carteira e a deixei sobre o balcão. Nem esperei o troco. Precisava sair dali antes que fizesse alguma idiotice.

Empurrei a porta do Howling Moon e o ar frio da noite atingiu meu rosto. Respirei fundo algumas vezes, tentando organizar os pensamentos e afastar o cheiro dela dos meus sentidos.

Foi inútil.

A fragrância de lírios brancos, pinho e terra molhada parecia ter se impregnado em mim.

Comecei a caminhar em direção à pousada. Durante alguns segundos, meu lobo permaneceu em silêncio, mas bastou me afastar um pouco para que ele voltasse a se manifestar.

Volta.

Ignorei.

Continuei andando.

Volta.

A ordem veio mais forte.

Passei a mão pelo rosto.

— Cala a boca.

Ele respondeu com um rosnado irritado, como se eu estivesse lutando contra a própria natureza.

Continuei caminhando. A pousada ficava a poucas quadras dali. Bastava seguir em frente, entrar no quarto e esquecer que aquela noite tinha acontecido.

Era exatamente isso que eu deveria fazer.

O vínculo havia sido rompido anos atrás. Eu mesmo o destruí. Genevieve aceitara minha rejeição. Ela não era mais minha companheira e nunca voltaria a ser.

Então por que meu lobo insistia em agir como se nada daquilo importasse?

Ela é nossa.

Fechei os olhos por um instante.

— Não.

A resposta saiu baixa.

— Ela foi.

Meu lobo rugiu.

Volta.

Continuei andando.

Dez passos.

Vinte.

Trinta.

Mas minhas pernas começaram a perder o ritmo até simplesmente pararem.

Soltei o ar devagar.

Droga.

Quando percebi, já estava voltando.

Nem percebi em que momento tinha mudado de direção. Apenas dei por mim caminhando de volta até o Howling Moon, como se alguma força invisível conduzisse meus passos.

Meu lado racional repetia que aquilo era uma péssima ideia.

O lobo não parecia se importar.

Parei do outro lado da rua e fiquei observando a fachada iluminada do bar. Cruzei os braços, dizendo a mim mesmo que iria embora dali em poucos minutos.

Não fui.

Os minutos passaram lentamente. O movimento começou a diminuir conforme os clientes deixavam o bar, um a um, enquanto a música ficava mais baixa e as luzes anunciavam que o fechamento se aproximava.

Eu continuava ali.

Esperando.

Sem admitir nem para mim mesmo o que estava esperando.

Até que, alguns minutos depois, a porta lateral se abriu.

Genevieve apareceu carregando um saco de lixo apoiado contra o corpo. Meu coração acelerou sem que eu conseguisse impedir. Observei enquanto caminhava até a caçamba, completamente alheia à minha presença. Jogou o saco no lixo, limpou as mãos uma na outra e se virou para voltar.

Foi nesse instante que perdi o controle.

Nem pensei.

Atravessei o beco em poucos passos, segurei seu pulso e a puxei para a sombra entre as paredes estreitas.

Ela reagiu imediatamente. A mão começou a se transformar em garra enquanto girava para me atacar, mas parou a poucos centímetros do meu pescoço.

Lírios brancos.

Terra molhada.

Exatamente como eu lembrava.

Ela ergueu os olhos e, por um segundo, pareceu não acreditar no que via.

— Kaellen…

Ouvir meu nome na voz dela depois de tantos anos fez alguma coisa se partir dentro de mim.

Eu deveria dizer alguma coisa.

Pedir desculpas.

Explicar.

Qualquer coisa.

Mas meu lobo rugia tão alto dentro de mim que nenhuma palavra conseguia atravessar minha garganta.

Fiquei apenas olhando para ela, gravando cada detalhe do seu rosto, como se tentasse recuperar os anos que o tempo tinha levado.

— Que merda você tá fazendo?

Continuei em silêncio.

Dei apenas mais um passo e segurei seu rosto entre as mãos.

Meu lado racional gritava para que eu parasse.

Meu lobo ignorou completamente.

Minha boca encontrou a dela.

Foi um beijo desesperado, possessivo e urgente. Como se todos aqueles anos de distância deixassem de existir naquele único instante. Como se bastasse tocá-la para que tudo voltasse ao lugar.

Meu lobo explodiu dentro de mim.

Minha.

Esperei que ela correspondesse.

Esperei sentir o vínculo despertar.

Esperei qualquer reação.

Mas ela não me beijou de volta. Permaneceu completamente imóvel, como se eu fosse um estranho. Como se aquele beijo não significasse absolutamente nada.

Algo pesado se instalou no meu peito.

Porque eu sabia exatamente o motivo.

O vínculo tinha acabado.

Eu o destruí no dia em que a rejeitei.

Ela aceitara minha rejeição.

Não existia mais nada entre nós.

Ela me empurrou com força.

Cambaleei um passo para trás e observei quando levou imediatamente a mão aos lábios. Esfregou a boca uma, duas, três vezes, como se tentasse apagar qualquer vestígio meu.

Aquilo atingiu meu orgulho de um jeito que eu não esperava.

— Você enlouqueceu?!

Continuei olhando para ela, tentando entender por que aquilo doía tanto.

Ela parecia enojada.

Meu orgulho falou antes da razão.

Soltei uma risada torta, sem qualquer traço de humor.

— Engraçado… O que eu tenho que fazer pra você me chamar de “docinho” também?

Ela não respondeu.

A imagem dela segurando o rosto daquele homem no bar voltou imediatamente à minha cabeça. Ela sorria para ele, brincava com ele e tocava nele com uma naturalidade que me consumia por dentro.

Inclinei levemente a cabeça, deixando um sorriso torto surgir no canto da boca.

— Ou pra você se esfregar em mim do mesmo jeito que se esfrega naquele velho lá dentro?

O tapa veio com tanta força que minha cabeça virou para o lado.

Logo depois, senti o cuspe atingir meu rosto.

— Fica longe de mim.

Ela passou por mim sem olhar para trás.

Fiquei parado no mesmo lugar, os punhos cerrados e a respiração pesada. Meu rosto ardia, mas não era por causa do tapa. Era porque ela tinha me olhado como se eu fosse um completo estranho.

Passei a mão pelo rosto, limpando o cuspe, e soltei uma risada amarga antes de voltar a caminhar em direção à pousada.

Meu lobo rosnava sem parar.

Volta.

Ignorei.

Vai atrás dela.

Continuei andando.

Faz ela olhar para você.

Cerrei os dentes.

— Chega.

Ele rugiu com ainda mais força.

Coloca ela de joelhos.

Faz ela se submeter.

Mostra a quem ela pertence.

Parei no meio da calçada e fechei os olhos por um instante. Aquelas palavras despertavam uma parte primitiva dentro de mim, a mesma que perdera completamente o controle ao vê-la sair pelos fundos do bar.

Mas a razão falou mais alto.

— Ela não pertence.

Meu lobo respondeu com um rosnado ameaçador.

Pertence.

Balancei a cabeça.

— Pertencia.

A palavra saiu amarga.

— Um dia.

Antes de eu rejeitá-la.

Antes de destruir o vínculo.

Antes de fazê-la aceitar que nunca mais existiria um nós.

Voltei a caminhar pelas ruas quase vazias, tentando ignorar a discussão que acontecia dentro da minha própria cabeça.

Ela sorriu para outro.

A imagem dela segurando o rosto daquele homem voltou imediatamente à minha mente.

Ela tocou outro.

Cerrei os punhos.

Ela provocou outro.

Meu maxilar travou.

Ela sorria, brincava e tocava em todos com uma naturalidade que me consumia por dentro.

Menos comigo.

Para mim…

Ela só guardava desprezo.

Respirei fundo.

— Eu perdi esse direito.

Meu lobo rugiu outra vez.

Você desistiu dela. Eu não.

Continuei caminhando sem responder.

Porque, por mais que eu odiasse admitir…

Eu tinha sido quem a deixou partir.

E meu lobo jamais me deixaria esquecer disso.

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