Mundo de ficçãoIniciar sessão
Melissa
A água fria do riacho descia sobre minha pele nua como mil agulhas geladas. Eu tinha acabado de completar dezoito anos, mas meu corpo já carregava marcas que não eram mais de menina. Fechei os olhos e inclinei a cabeça para trás, deixando a luz prateada da lua cheia banhar meus seios. Um calor estranho subia pela pele, ardendo, pulsando, como se a própria lua estivesse me tocando. Não era a primeira vez. E eu não conseguia explicar. Meus lábios se moveram sozinhos, quase sem minha permissão. Uma oração antiga — ou talvez uma melodia — saiu baixa, rouca, em um idioma que minha mãe nunca me ensinou completamente. As palavras vinham sozinhas nas noites de lua cheia. Sempre vinham. “...guia-me, protege-me, desperta em mim o que sempre esteve adormecido...” O vento balançou as folhas. O canto dos grilos pareceu mais alto. E então... Um barulho me despertou do torpor. Era um barulho de galho seco que partiu atrás de mim. Meu coração disparou. Abri os olhos de repente e me virei, cobrindo o corpo com os braços. Peguei o vestido fino que estava pendurado num galho e o vesti às pressas, molhado, grudando na pele. Não esperei para calçar as sandálias. Corri. Corri como uma louca entre as árvores, os pés descalços cortando nas pedras e raízes. O medo apertava minha garganta. Eu sabia quem era. Só podia ser ele. Cheguei à casa ofegante, quase derrubando a porta. — Mãe! Ele está aqui! Valdir nos encontrou! Minha mãe, Clara, estava na cozinha pequena, já pálida. Seus olhos se encheram de pavor no mesmo instante. Ela não perguntou como eu sabia. Apenas agarrou a bolsa já preparada que mantínhamos escondida atrás do armário havia anos. — Pegue só o essencial. Vamos pela mata dos fundos. Agora! Saímos correndo pela porta dos fundos. A noite estava clara demais por causa da lua cheia, o que tornava tudo mais perigoso. Galhos arranhavam nossos braços enquanto corríamos. Eu sentia o coração martelando, o mesmo calor estranho da lua ainda queimando em meu peito, bem onde ficava aquela marca em forma de meia-lua que parecia uma tatuagem perfeita. Tínhamos conseguido viver escondidas por quase cinco anos. Desde que fugimos de casa aos treze anos, depois daquela noite terrível em que Valdir Costa, meu padrasto, descobriu algo sobre minha mãe que o deixou louco de raiva e desejo ao mesmo tempo. Ele era um homem respeitado em nossa antiga cidade no interior de Goiás. Fazendeiro, dono de terras e gado. Quando se casou com minha mãe — eu tinha dez anos —, nossa vida mudou. Saímos da cabana pobre e fomos morar numa casa grande, confortável. Tínhamos comida na mesa, roupas melhores. Mas o preço foi alto demais. Valdir odiava as “coisas estranhas” que minha mãe fazia. As rezas, os chás, as curas que as pessoas da cidade pediam escondido. Chamava ela de bruxa na frente dela, batia nela quando bebia, e proibiu que fizesse qualquer ritual. Principalmente nas noites de lua cheia. E quando eu comecei a ficar mulher, aos treze anos, ele passou a olhar para mim de um jeito sujo que me dava nojo. Naquela última noite, ele tentou... Minha mãe fez algo. Algo forte contra ele. E nós tivemos que fugir. Desde então, vivíamos correndo. Mas Valdir nunca desistiu ele tinha uma verdadeira obsessão por nós duas e pelo o que minha mãe representava. — Mais rápido, Melissa! — minha mãe sussurrou, puxando minha mão. Mas era tarde. Faróis cortaram a escuridão da mata. O ronco de uma caminhonete conhecida. E então a voz dele, grossa e cheia de ódio, ecoou entre as árvores: — CLARA! MELISSA! Vocês acham que podem fugir de mim para sempre?! Ouvi o som de passos pesados correndo atrás de nós. Minha mãe tropeçou. Eu tentei puxá-la, mas mãos brutais agarraram meu braço com força, torcendo-o. — Peguei você, sua vadiazinha — Valdir rosnou no meu ouvido, o bafo quente e fedido de cachaça. — Igual à sua mãe. Duas bruxas da mesma laia. Minha mãe gritou quando ele a acertou. Tentei lutar, arranhar, morder. Mas ele era muito maior. A lua cheia brilhava lá em cima, e por um segundo eu senti algo dentro de mim se agitar com fúria — como se quisesse responder ao chamado. Então veio a dor. Um golpe forte na cabeça. E tudo ficou escuro.






