(Ponto de Vista de Kennedy)
Claro que uma mensagem não seria suficiente, então o Ben precisou ligar com a resposta.
— Você tem certeza? Você falou com o Jer sobre isso? Ele vai ficar puto se você sair sem dizer nada. Eu gosto de continuar vivo, sabe…
— Ele não tem escolha, Ben. Eu não quero ficar aqui agora e preciso de um lugar para ir. Se você não quiser me ajudar, eu vou ligar para outra pessoa. — Disse, sentindo minha raiva crescer quanto mais ele tentava enrolar.
— Eu estou a caminho, mas faz um favor e fala com ele. Você é importante para ele.
— Ah sim… Que seja, tanto faz. Eu te vejo em alguns minutos.
— Estou falando sério, fala com ele.
— Ou o quê, Ben? — Eu retruquei, voltando a ficar com raiva. "Ótimo, mais oscilações emocionais para adicionar à lista de sentimentos novos!"
— Eu vou te obrigar. — Ele resmungou, e eu simplesmente desliguei, irritada demais para lidar com aquilo.
Com as duas bolsas nas mãos, desci e as larguei perto da porta da frente, rangendo os dentes ao perceber que precisava avisar a Tia Beth, porque ela desmontaria a alcateia inteira para me encontrar. No entanto, o mais estranho era que eu nem a tinha visto quando chegamos para conhecer a Rayna hoje, e ela certamente teria tornado toda aquela apresentação muito mais tranquila.
Assim, segui o som de vozes até a sala comum sem sequer pensar em anunciar minha presença antes de entrar, e então um gemido, um grunhido e, logo depois, um grito agudo de mulher rasgou meus ouvidos.
— Mas… Que merda você acha que está fazendo?
— Ah, porra! Desculpa. Não quis interromper. — Cobri meus olhos com a mão. — Eu só estava procurando a Tia Beth antes de sair. — Comecei a recuar o mais rápido possível.
— Ken, espera! Volta aqui. — Ouvi um monte de tecido se mexendo e me apressei ainda mais.
— Não! Sem chance. Continuem, eu vou achar ela sozinha, desculpa pela interrupção. — Segui pelo corredor em direção à porta, lutando contra as lágrimas. Tinha levado menos de uma hora para ele se distrair o suficiente para esquecer que eu ainda estava ali… Ou seja, "importante" não era mais uma palavra que alguém podia usar para descrever o que o Jer sentia por mim.
— Ken, para. — Ele falou e num piscar de olhos, já estava diante de mim bloqueando minha saída. Logo, fechei os olhos com força, porque não ia permitir que a companheira dele me batesse só porque eu o vi pelado. — Para onde você está indo? Por que você está com uma bolsa? E por que você estava procurando a minha mãe? — "Agora ele estava preocupado?" Revirei os olhos mentalmente.
— Eu ia avisar que estava saindo, porém antes preciso saber se você está vestido, já que eu gosto dos meus olhos no lugar certo e definitivamente não preciso que arranquem eles. — Apertei ainda mais os olhos fechados e ignorei o resto das perguntas.
— Sim. — Ele riu. — Agora olha para mim e me diz para onde você está indo. O que está acontecendo?
— Eu te disse… Eu não tenho dormido bem. Por isso, vou ficar na casa do Ben para não ser um problema.
— Do que você está falando? Eu deixei minha camiseta com você, o que costuma resolver quando eu estou fora, e não entendo… Desde quando você se tornou um problema?
— Sério? Dá para ser mais tapado? A camiseta não está fazendo efeito nenhum agora. — Eu menti. — E virou um problema quando você encontrou sua companheira, que você claramente esqueceu de me mencionar, porque ela não esperava por mim com base na recepção que eu tive quando você trouxe ela para casa. Ela não me quer aqui e você não vai escolher.
— Eu estou bem aqui, sabia? Não fala de mim como se eu não estivesse na sala. — A voz dela surgiu logo atrás de mim. Então, fechei os olhos e respirei fundo, inspirando e expirando devagar.
"Não arrume briga, não arrume briga, não arrume briga..." Eu precisei repetir para mim mesma. Aquilo não era culpa dela, porque ela era tão vítima quanto eu e tinha tanta razão para estar irritada quanto eu, talvez até mais.
— Eu ainda não entendi qual é o problema. — Jeremiah disse isso olhando dela para mim e depois voltando o olhar para ela.
Arregalei os olhos e rosnhei, apesar de nem ter uma loba, e os olhos do Jer se arregalaram quando ele deu um passo atrás com as mãos erguidas em rendição, demonstrando que ao menos percebia o óbvio: nós duas estávamos furiosas, mesmo que ele não soubesse o motivo.
— Por que os garotos são tão idiotas? — Eu não gritei, embora meu temperamento estivesse ficando cada vez mais difícil de segurar, então suspirei e decidi encerrar aquilo de uma vez, virando de frente para ela. — Rayna, eu sou a Kennedy, a melhor amiga do Jeremiah, especificamente a melhor amiga mulher dele, e moro aqui na casa da alcateia. — Apontei ao redor. — Faz três anos que estou aqui, porque minha mãe era a melhor amiga da mãe dele e eu vim para cá depois que meus pais morreram. Até hoje eu ainda tenho pesadelos daquele dia, e o Jeremiah costuma dormir no meu quarto comigo...
Eu não consegui dizer mais nada, porque ela se lançou contra mim rosnando e puxando meu cabelo, forte mas tão desajeitada que me fez duvidar se realmente treinava, e nós duas caímos enquanto eu absorvia o impacto e tentava nos virar para ganhar vantagem, sem querer machucá-la nem sair machucada. Ela arranhou tudo o que alcançou e chutou de forma descontrolada sob mim, rosnando e bufando apesar de mal conseguir formar palavras.
— Sua vadia! Você não vai ficar com ele! — Ela gritou, acertando meu rosto com as unhas e me distraindo o suficiente para virar nossa posição e ficar por cima. No mesmo instante, eu senti o sangue escorrer pela minha pele.
Ela realmente acreditava que eu era uma estranha tentando roubar o homem dela, e considerando o tempo que ele passou com ela desde que descobriu sobre mim sem sequer explicar quem eu era… "Idiota!" Eu entendia perfeitamente a frustração dela porque eu também acharia aquilo suspeito. Eu tentei dizer alguma coisa para acalmá-la à medida que me defendia, mas só consegui emitir sílabas quebradas enquanto lutava para segurá-la.
— Eu não quero porra nenhuma com ele, sua maluca. Ele é como um irmão para mim. — Grunhi quando ela acertou um soco no meu estômago. — Mas você saberia disso se vocês dois conversassem tanto quanto vocês transam! Agora para de tentar arrancar meus olhos! — Isso a fez parar tempo suficiente para que eu impulsionasse meu quadril e a virasse de costas.
Assim que consegui agarrar seus pulsos, prendi-os acima da cabeça dela, mesmo com ela ainda se debatendo quando a imobilizei, tão perto que ficamos quase nariz com nariz. Nós duas arfávamos, mas ela já demonstrava que estava parando de lutar, talvez porque entendesse que eu não queria machucá-la e porque, pouco a pouco, minhas palavras passavam a fazer sentido. "De qualquer modo, estava funcionando…"
— Para de tentar me matar. Ele é como um irmão para mim. — Repeti, respirando com dificuldade agora que parecia ter parte da atenção dela. — Ele deveria ter te contado sobre mim e, para ser honesta, seria legal se eu também tivesse tido um aviso sobre você. Mas às vezes esses garotos não são os mais inteligentes. — Revirei os olhos e finalmente olhei para o Jeremiah, que estava parado encarando a cena, ao mesmo tempo que eu percebia que tínhamos uma plateia inteira nos observando.
— Ah… Deusa! Isso foi tão gostoso! Como você deu tanta sorte assim? — Tommy deu um tapa nas costas do Jeremiah e ainda mordeu o lábio inferior. "Tão pervertido…"
— Então vocês quatro, seus idiotas, ficaram ali parados deixando a gente brigar? Vocês não ficaram preocupados com a melhor amiga de vocês ou com a futura Luna se machucando? A gente devia… Era enfiar porrada em todos vocês.
Ao ouvirem isso, Ben e Jason reviraram os olhos, então o primeiro se aproximou.
— Vocês duas colocaram tudo para fora? — Ele estendeu a mão para mim.
— Talvez. — Mantive o olhar sobre ela e ergui a sobrancelha, liberando seus braços com lentidão e me sentando, ainda posicionada sobre sua cintura, porque continuava esperando algum golpe inesperado. Como isso não aconteceu, segurei a mão do Ben, ao passo que Jason ajudava Rayna a ficar de pé.
Em seguida, arrumei minhas roupas e passei os dedos pelo cabelo, evitando olhar para qualquer pessoa.
— Estou pronta, Ben, vamos. — Eles tinham que conversar e definir se aquilo era algo com que ela poderia lidar. Eu não queria partir, ainda que um Alfa precisasse de sua Luna. Naquele contexto, ela era a prioridade, de modo que minha amizade com Jeremiah estava totalmente nas mãos dela. Se ela dissesse não, então não haveria o que fazer, pelo menos por enquanto.
Assim, caminhei em direção à porta da frente, travando a mandíbula para não chorar outra vez, pois eu já tinha falado tudo o que precisava e só restava torcer para que ela acreditasse. A partir dali, era com o Jeremiah resolver e consertar, se realmente quisesse me manter na vida dele. Ele precisava mostrar a ela o que nós éramos, e ela precisava entender que aquilo não tinha nada de romântico.
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— Espera, não vai… — A voz dela saiu doce, porém firme, e eu não sabia se conseguiria lidar com aquilo. Portanto, balancei a cabeça e continuei andando.
— Por favor, a gente devia conversar.
No entanto, eu mantive meus olhos fixos na porta.
— Eu realmente preciso tentar dormir, não é mentira, então não torna tudo mais difícil para mim, por favor. Eu preciso ir. — Meu pedido mal saiu audível até para mim, apesar de eu saber que todos podiam ouvir, e perceber que respirar estava ficando cada vez mais complicado.
— Mas você mora aqui... — Ela sussurrou logo atrás de mim, e eu sabia que os garotos estavam ouvindo.
Diante disso, mantive meus olhos presos na porta, respirando de forma controlada.
— Sim... Por enquanto... E em breve você também vai morar aqui. Eu preciso aprender a lidar com meus pesadelos e merdas sozinha de qualquer forma… Só que aquilo acabou me pegando de surpresa. — Inclinei-me para pegar minhas bolsas, com as mãos ainda doloridas pelo treino improvisado mais cedo, porém ela me conteve ao pousar a mão sobre a minha. Assim, a primeira lágrima desceu, e balancei a cabeça de um lado para o outro, sentindo meu coração se partir.
— Vamos guardar isso e aí a gente pode se conhecer. Parece que vamos passar bastante tempo juntas. — Ela puxou a minha mão segurando a alça da bolsa. Não foi nada agressivo ou controlador, embora algo em mim simplesmente tenha quebrado, e eu já não tivesse energia para lutar com ela.
"Lá iam minhas lágrimas de novo, malditas emoções…" Ela pegou minha bolsa e deslizou a mão com delicadeza pelo meu braço para me virar, então joguei minha mochila no ombro com o olhar baixo, concentrada apenas em colocar um pé depois do outro. Na sequência, subimos as escadas rumo ao meu quarto, com Rayna seguindo logo atrás sem direcionar sequer um olhar para os garotos.
— Ken... — Jeremiah murmurou. No entanto, eu apenas balancei a cabeça e continuei andando.
— Acho que suas garotas acabaram de te deixar na mão. Tomara que você tenha terminado o que começou aqui, Jer, senão vai dormir com tesão reprimido. — O Tommy vivia bancando o charmoso, e ainda assim o restante dos caras caiu na gargalhada…
Logo, chegamos ao meu quarto e deixei minha mochila ao lado da escrivaninha, respirando fundo antes de me virar.
Em seguida, me aproximei para pegar minha outra bolsa dela e colocá-la ao lado da minha mochila.
— Você ia mesmo embora assim? Sem nenhuma briga? — Ela perguntou, horrorizada.
— Ele é meu irmão, não meu namorado. — Eu já estava cansada de repetir isso.— Você precisa entender que nunca existiu nada desse tipo entre nós, porque, apesar de eu ser humana, eu conheço ele a vida inteira e sempre fomos muito próximos. Por isso eu sei como funcionam companheiros e o quanto eles são essenciais. Ele é um Alfa e, sendo assim, precisa da sua Luna, já que nada é mais importante que isso para o futuro da alcateia. Então eu não ia me colocar no caminho por egoísmo e, por essa razão, sim, eu estava indo embora, porque você não me quer perto dele… Não me quer aqui.
Eu esfreguei o rosto e fui me sentar na cama, dando um tapinha no espaço ao meu lado.
— Eu nunca, nem uma vez, parti para cima do meu irmão daquele jeito. Eu geralmente tenho mais tendência a tacar alguma coisa nele. — Isso quebrou parte da tensão, e eu soltei uma risada estrangulada.
— Mas quão próximos são você e seu irmão? Em idade, quero dizer.
— Seis anos de diferença. Ele tem 26, eu tenho 20.
Assenti.
— Jer e eu temos a mesma idade, já que nascemos no mesmo dia e no mesmo hospital, porque nossas mães eram tão próximas que minha mãe estava só visitando quando as duas entraram em trabalho de parto ao mesmo tempo. Por isso crescemos lado a lado e, de certo modo, fomos criados praticamente como gêmeos.
Ela acenou em concordância.
— Isso já esclarece algumas coisas, claro, embora ainda não explique por que ele dorme no seu quarto, mas daqui a pouquinho a gente chega nessa parte. E quanto aos outros garotos?
— O que tem eles? — Perguntei isso enquanto tentava controlar minha respiração, agora que ela não rosnava mais para mim, e minha cabeça latejava porque eu tinha chorado demais.
— Ah, qual é, não existe a menor chance de você ter deixado todos eles passarem ilesos! Um monte daquele tanto de gostosura sem uma única companheira ainda, e todos tão protetores com você. Dá para ver facilmente o quanto vocês são próximos.
— Do que você está falando com esse "sem uma única companheira"? Eu sou humana, você sabe a probabilidade de eu ter um companheiro? Eu nem posso ser oficialmente incorporada à alcateia, porque os anciãos acham que isso iria me matar. Tenho certeza de que ser marcada seria tão ruim quanto. — Ignorei a outra parte porque eu não conhecia ela tão bem assim.
— Para ser honesta, nunca ouvi algo assim, e como não temos humanos na alcateia agora, eu realmente não sei direito como isso funciona.
— Não faço ideia, mas a tia Beth não cogita nem discutir o assunto. Então eu sou uma humana numa alcateia de lobisomens sem nenhuma conexão real com a alcateia, morando com a família do Alfa, sem ter nenhum laço de sangue. — Informei num tom sombrio.
— Então... Eu acredito que você nunca teve interesse romântico no Jeremiah. Está escrito na sua cara. — Ela riu como uma garotinha. — Mas você evitou minha outra pergunta, o que significa que você já deu uma escapadinha com os outros. — Ela piscou, e eu olhei para a porta, certa de que alguém devia estar ouvindo.
— "Escapadinha" é uma expressão forte. — Tentei desviar.
— Ah, deixa disso! Eu preciso conhecer esses caras, e vou conseguir minha parte no meu próprio tempo aqui, mas eu quero saber que tipo de equipe a Deusa colocou em volta do meu Alfa. Como eles tratam uma mulher diz muito sobre o tipo de pessoas que eles são. — Ela riu outra vez.
"Meu Alfa." O cérebro dela já tinha feito a mudança.
— Eles são ótimos, mas talvez eu seja suspeita. — Dei de ombros com um sorriso.
— Então me diz, qual deles você está pegando no momento? Eu imagino que cada um ofereceria algo distinto e, já aproveitando, quem foi o seu primeiro?