ELLA
Acordo devagar, como se meu corpo estivesse preso em areia movediça. Tudo parece pesado — meus braços, minha cabeça, até o ar. Tento me mover, mas minhas articulações protestam, rígidas, doloridas. Uma pontada atravessa minha nuca.
Abro os olhos.
A primeira coisa que vejo é o teto — baixo, manchado, com uma rachadura que percorre a superfície como uma veia azulada. A luz amarela na parede pisca sem ritmo, como se estivesse prestes a queimar.
O quarto… não, não é um quarto.
É um cubículo.
As paredes são de concreto cru, úmido, e a janela tem grades tão grossas que parecem barras de prisão. Não passa vento. Não passa luz. Não passa nada.
A porta é metálica, com uma abertura pequena na altura do rosto — o tipo que se vê em celas. E eu estou sentada num colchão fino demais para ser chamado de cama. Há um balde num canto. E só.
Meu estômago revira.
Levanto a mão até a cabeça e encontro um galo enorme, latejando.
Então flashes começam a voltar:
O portão do prédio.
A sensação de alguém