Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlgumas paixões nascem do lugar errado
Serena caminhava pela mansão usando apenas uma saída de praia clara sobre o biquíni. O tecido leve se movia com ela, roçando nas pernas, quase flutuando, mas o ambiente ao redor parecia pesado demais para algo tão simples. Ela parou diante de uma porta de vidro que dava para o deck e observou o movimento ao longe. Mulheres desciam escadas com vestidos longos, cabelos perfeitamente arrumados, saltos altos, corpos que pareciam moldados para aquele tipo de lugar. Riam com facilidade, gesticulavam com naturalidade, cumprimentavam pessoas que claramente conheciam. Tudo nelas parecia pertencente. Tudo nelas parecia certo. Serena, sem perceber, levou o olhar para si mesma. Ela se sentiu pequena dentro daquele cenário. Sem pensar muito, virou-se e começou a procurar o pai, como quem busca um ponto de apoio em território desconhecido, alguém que pudesse confirmar que ela ainda era ela mesma ali dentro. Encontrou Augusto perto do bar interno, conversando com um homem de terno. Ele gesticulava com facilidade, como se estivesse completamente à vontade naquele ambiente. Quando a viu, abriu um sorriso. — Pai. A palavra saiu curta, mas carregada de pedido, como se aquele simples chamado fosse uma tentativa de se ancorar. — O que foi, filha? perguntou, sem perceber de imediato o peso que ela trazia nos ombros. Serena se aproximou e puxou-o um pouco para o lado, longe do ouvido do outro homem. — Eu não tenho roupas pra isso. Ela disse, apontando discretamente para o salão, para as mulheres, para tudo o que a cercava, como se aquele mundo tivesse sido desenhado errado para o corpo dela. Augusto franziu a testa, confuso. — Pra quê? — Pra tudo isso. Olha essas mulheres. Eu pareço que errei o lugar. Ele soltou uma risada baixa, como se aquilo fosse um detalhe pequeno demais para merecer atenção. — Não se preocupe. Seu tio vai mandar pro nosso quarto. Ela piscou, tentando entender. — Mandar o quê? — Roupas. Joias. Essas coisas. Serena ficou parada por um segundo, absorvendo aquilo. — O quê? — Fique tranquila. Ela cruzou os braços, o corpo fechando sem que ela percebesse. — Eu não gosto disso. — É só pra hoje. Não faça disso um drama. Ela abriu a boca para responder, mas fechou. Não sabia explicar exatamente o que a incomodava. Não era só sobre roupas. Era sobre se sentir ajustada à força em algo que não tinha sido feito para ela, como se sua presença só fosse aceitável se fosse modificada. Às oito da noite, um funcionário bateu à porta do quarto. Quando Serena entrou novamente, parou no meio do cômodo. Sobre a cama havia duas peças cuidadosamente organizadas. Um terno grafite impecável e, ao lado, um vestido longo dourado, de tecido fluido, delicado, com um brilho discreto que parecia absorver a luz em vez de refletir. Aos pés da cama, sandálias de salto fino. Sobre a cômoda, uma pequena caixa aberta com joias. Tocou o tecido do vestido com a ponta dos dedos, sentindo a textura macia. — Isso deve custar uma fortuna, murmurou, mais para si do que para o pai. Augusto entrou atrás dela. — Quanto? Ela pegou o celular e pesquisou rapidamente pela etiqueta discreta. — Pai… Ele se aproximou. — Quanto? — Isso aqui é o preço de um carro. Ele arregalou os olhos. — Então toma cuidado pra devolver intacto. Ela soltou uma risada nervosa. — Eu nem sei como respirar dentro disso. Ele foi para o banheiro. — Vou tomar banho. Me ajuda depois com as abotoaduras. Serena ficou alguns segundos olhando para o vestido, como se ele tivesse uma presença própria. Depois começou a se arrumar. Quando o pai saiu do banho, já vestido, ela se aproximou para ajudá-lo a fechar os botões da camisa e colocar as abotoaduras. Suas mãos tremiam um pouco, não por nervosismo, mas por estranhamento. Tudo aquilo parecia um teatro caro demais para ser real. — Você vai sair daqui casado, ela disse, tentando brincar. Ele riu. — Exagerada. — Olha pra você. Tá um gato. Ela ajeitou o colarinho, passou perfume com cuidado e beijou o rosto do pai. — Arrasa. Ele sorriu e saiu. Serena ficou sozinha no quarto. Respirou fundo, como se estivesse se preparando para algo maior do que uma festa. Começou a se arrumar. Base leve. Olhos marcados com suavidade. Boca natural. Cabelo preso em um coque despojado, deixando alguns fios soltos emoldurando o rosto. Quando vestiu o vestido, sentiu o tecido cair perfeitamente sobre o corpo, como se tivesse sido feito para ela, apesar de tudo. Colocou as joias. As sandálias. Foi até o espelho. E sorriu, não com orgulho, mas com uma tentativa de se convencer. Ela estava linda. Não como aquelas mulheres. Quando entrou no salão principal, o impacto foi imediato. Música suave. Luzes quentes. Taças erguidas. Risos que soavam fáceis demais. Perfumes misturados no ar. E mulheres. Corpos esculpidos, vestidos de grife, olhares calculados para seduzir. Serena sentiu o estômago se apertar. Ela caminhou alguns passos, procurando o pai. E então viu. Um homem atravessava o salão com passos firmes. Não era só a altura que chamava atenção, mas a forma como ele ocupava o espaço, como se tudo ao redor se organizasse em função dele. Alto. Elegante. Olhos verdes. Sorriso discreto. Terno escuro. Algumas mulheres se inclinavam na direção dele, tentando chamar sua atenção, como se ele fosse o centro invisível daquela noite. O coração de Serena deu um salto. Ela sentiu algo estranho, uma espécie de deslocamento interno, como se algo dentro dela tivesse sido puxado para fora do lugar. Quando os olhos dele passaram por ela, por um segundo, foi como se o ar tivesse mudado de densidade. Ela desviou o olhar, nervosa. Respirou fundo. Então o viu se aproximar do pai. Ela caminhou até eles. — Pai. Augusto virou-se, sorrindo. — Filha, esse é o seu tio Caetano. O mundo girou. Ela engasgou com o vinho que tinha acabado de colocar na boca. Tossiu. Tentou disfarçar. — Quem? O pai franziu a testa. — Caetano. Meu amigo. Ele a observava com atenção contida, como quem analisa algo que ainda não decidiu se deve tocar. — Bem-vinda, Serena. Você está linda. A voz dele era grave. Baixa. Segura. O coração dela disparou. — Obrigada. Ele fez um leve aceno. — Com licença. Preciso circular. E saiu. Serena ficou parada, tentando reorganizar o próprio corpo dentro de si. Ela acompanhou cada passo dele com os olhos. Ele não olhava para ninguém por muito tempo. Não sorria. Não se envolvia. Mulheres se aproximavam. Ele ignorava. Algo estranho começou a se formar dentro do peito dela, um incômodo quente, difícil de nomear. Ela foi até a área externa para respirar. O mar estava escuro, calmo. Ela apoiou as mãos no parapeito. Sentia-se fora de lugar de um jeito que não sabia explicar. Ouviu passos atrás dela. Ele se aproximou. Parou ao lado. — Não está gostando da festa? A voz baixa, próxima, fez o corpo dela reagir antes da mente. O perfume dele chegou até ela, trazendo uma sensação desconfortavelmente íntima. Ela se virou. — Ainda não sei. Ele a olhou. — Não sabe? — Não. — Por quê? Ela pensou por um segundo, tentando ser honesta. — Não sei o propósito. Nem se há algo do meu interesse aqui. Ele ergueu levemente uma sobrancelha. — E o que você procura? Ela olhou para os lábios dele sem perceber. Ele engoliu em seco. Ela sorriu de leve. Mordeu o lábio, sutilmente. — Também não sei. E saiu. Caetano ficou parado, observando-a se afastar, sentindo algo que ele não sentia há muito tempo, algo que não combinava com a vida que ele levava. Não era apenas curiosidade. Era perigo.






