A FILHA DO ERRO. Quando a vida cobra o que a noite escondeu
A FILHA DO ERRO. Quando a vida cobra o que a noite escondeu
Por: LynneFigueiredo
A CASA ONDE TUDO COMEÇA

Às vezes o destino se disfarça de convite

A mansão de Caetano Siqueira Gouveia estava em movimento desde o início da tarde. Funcionários iam e vinham em silêncio coordenado, como se cada passo tivesse sido ensaiado. Arranjos florais eram posicionados com precisão milimétrica, mesas altas de vidro recebiam taças de cristal, e luzes indiretas começavam a ser ajustadas para criar uma atmosfera sofisticada, intimista e perigosamente sedutora.

A casa, localizada dentro do Condomínio Iporanga, no Guarujá, não era uma casa de praia comum. Era um monumento ao poder. Vidros do chão ao teto, paredes em pedra clara, escadas suspensas e um deck que avançava sobre a areia como se quisesse tocar o mar. Tudo ali era pensado para impressionar sem jamais parecer que estava tentando.

No andar superior, Caetano permanecia fechado em seu escritório.

Sentado atrás da mesa de madeira escura, ele analisava relatórios no tablet com a concentração de quem não tolerava falhas. Sandro, o secretário, permanecia de pé à sua frente, segurando uma pasta contra o peito, esperando o momento exato de falar.

— O sheik chegou há vinte minutos. Ele está acomodado na ala leste. Sandro informou, com a voz neutra, mas atento a cada microexpressão do chefe.

Caetano não levantou os olhos.

— Quantas pessoas com ele? perguntou, sem alterar o tom, como se aquilo fosse apenas mais um detalhe administrativo.

— Cinco acompanhantes. Todas jovens.

Um músculo discreto se contraiu na mandíbula de Caetano. Ele inspirou devagar antes de responder.

— Não era necessário. Mas não me surpreende. Comentou, mais para si do que para Sandro, como se já estivesse acostumado com esse tipo de espetáculo.

— Ele perguntou se o senhor pretende recebê-los no salão principal ou no deck. Disse que prefere algo mais… descontraído. Sandro escolheu a palavra com cuidado, consciente do efeito que ela poderia causar.

Caetano pousou o tablet sobre a mesa e, finalmente, ergueu o olhar. Seus olhos não carregavam irritação. Carregavam decisão.

— Essa palavra não existe no meu vocabulário. Será no salão.

Sandro assentiu, mas não se moveu.

— Senhor… o sheik Al-Fayed fez questão de trazer presentes. Disse que é parte da cultura dele.

Caetano inclinou levemente a cabeça, pensativo.

— Desde que não tragam problemas. Só isso me interessa.

Sandro abriu a boca para responder, mas foi interrompido quando a porta do escritório se abriu sem aviso.

Afonso entrou, sorridente, vestindo um terno claro que destoava do minimalismo frio da casa.

— Ele chegou, Caetano. E veio animado. Comentou com leveza, como se estivesse falando de um velho conhecido.

— Ótimo. Mantenha-o assim.

— Ele trouxe cinco mulheres. Todas modelos, pelo visto.

Caetano se levantou, ajustando o paletó com um gesto automático, quase mecânico.

— Não me interessa. Ele veio assinar um contrato, não desfilar.

No salão principal, o sheik Al-Fayed caminhava lentamente, observando cada detalhe da arquitetura como quem avalia uma obra de arte. Alto, de barba bem aparada e sorriso fácil, ele parecia mais um astro de cinema do que um investidor internacional.

Atrás dele, cinco mulheres o seguiam. Vestidos longos, pernas à mostra, sorrisos calculados. Elas observavam tudo com curiosidade treinada, inclusive Caetano, quando ele surgiu no topo da escada.

O olhar de uma delas se iluminou.

Ela se inclinou e sussurrou algo para a outra, que respondeu com uma risada contida.

Al-Fayed abriu os braços.

— Senhor Gouveia! Sua casa é ainda mais impressionante do que eu imaginava. Disse, com entusiasmo genuíno, aproximando-se.

— Fico satisfeito que tenha vindo. Espero que o contrato seja do seu agrado. Caetano respondeu com cordialidade calculada.

— O contrato é excelente. A companhia é que eu esperava que fosse mais… calorosa. Piscou, apontando discretamente para as mulheres.

Uma delas se aproximou de Caetano, sorrindo de forma aberta, estudando-o como quem escolhe um jogo.

— É um prazer conhecê-lo. Ouvi dizer que o senhor é o homem mais poderoso desta costa.

Caetano sequer desviou o olhar do sheik.

— O prazer é meu. Se me permite, estamos aguardando alguns convidados.

A mulher piscou, sem entender o desprezo elegante.

Caetano se afastou, ignorando completamente o grupo.

Assim que chegou ao bar interno, puxou o celular do bolso e discou um número.

— Augusto. Você está vindo? perguntou, apoiando o cotovelo no balcão, observando o movimento da casa.

Do outro lado da linha, a voz do amigo soou animada.

— Claro que sim. Já estou me arrumando.

— Ótimo. Vou mandar o motorista buscá-lo.

— Caetano… Tenho uma surpresa.

— Não gosto de surpresas. Mas diga.

— Serena chegou hoje de viagem. De surpresa.

Caetano ficou em silêncio por meio segundo. O suficiente para que algo dentro dele se reorganizasse.

— Ela vai vir comigo. Se não for problema.

O olhar dele se perdeu por um instante, fixando o mar além das paredes de vidro.

— Não é problema algum. Traga-a.

— Ela te chamava de tio quando era pequena. Lembra?

— Lembro. Traga. O motorista chega em quinze minutos.

Em São Bernardo do Campo, Serena mal havia terminado de subir a mala pela escada quando ouviu a voz do pai.

— Serena! Você chegou na pior hora.

Ela apareceu no topo da escada, cabelos presos de qualquer jeito, camiseta larga e tênis.

— Eu cheguei agora. Como assim pior hora?

— Tenho uma festa importante hoje. E você vai comigo.

— Eu estou morta. Acabei de chegar de viagem. Disse, já sentindo o cansaço pesar no corpo.

— Não importa. O seu tio Caetano está esperando.

O coração dela deu um salto involuntário.

— O tio Caetano?

— Sim. Ele.

Serena ficou imóvel por um segundo.

— Eu não vejo ele há anos.

— Pois é. Agora vai ver.

— Pai, eu nem tenho roupa…

— Vai levar roupa de banho e roupa de gala. É na casa de praia dele.

Ela abriu a boca para reclamar, mas fechou.

Algo dentro dela já tinha acordado.

No quarto, Serena abriu a mala e começou a jogar roupas em cima da cama: biquínis, vestidos, sandálias, uma bolsa pequena. O espelho refletia uma versão dela que ela ainda não conhecia direito. Mais mulher. Mais livre. Mais vulnerável.

Ela parou por um instante, encarando o próprio reflexo.

Você está boba. É só uma festa.

Mas o coração não concordava.

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