Para agora. Ou então
Sandra ligou para Marshall antes de chegar ao térreo.
Mac não sabia disso. Ainda estava parado na janela quando ouviu as portas do elevador se fecharem, observando a rua lá embaixo sem realmente enxergá-la, revirando as duas palavras que Cloe Vane tinha dito a ele.
Ainda não.
Ele tinha contratado centenas de pessoas ao longo da carreira. Tinha se sentado à frente de candidatos nervosos e de outros excessivamente confiantes e de pessoas que eram exatamente o que o currículo dizia e nada mais. Tinha bons instintos sobre pessoas. Tinha construído tudo o que possuía com base nesses instintos.
Cloe Vane não estava nervosa. Não estava performando. Carregava algo pesado e fazia isso de forma tão equilibrada que a maioria das pessoas nem notaria o peso. Ele notou. Ainda não sabia o que significava ter notado.
O que ele sabia era que a irmã tinha saído daquele escritório dez minutos atrás com a expressão que Sandra só fazia quando algo tinha saído diferente do que ela tinha planejado. E Sandra sempre tinha um plano.
Ele se virou da janela e pegou o celular.
Ela atendeu no segundo toque. “Mac.”
“Quem é ela?” ele disse. Sem preâmbulo. Ele não tinha paciência para isso com Sandra quando algo já estava soando errado.
Uma pausa. Curta, mas presente. “Já te disse. Conheço ela de antes. É complicado.”
“Descomplica.”
“Mac.” A voz dela mudou. Mais suave. O registro que ela usava quando queria que ele parasse de perguntar. “É história antiga. Nada que te afete ou afete a empresa. Só acho que ela não é a pessoa certa para o teu escritório. Você devia deixar o RH encontrar outra pessoa.”
“Eu escolho minha própria equipe,” ele disse.
“Eu sei disso. Só estou dizendo—”
“Sandra.” Ele manteve a voz nivelada. “Se tem alguma coisa que eu preciso saber, me conta agora. Não por sugestões. Não por ligações para minha assistente antes das oito da manhã. Me conta diretamente.”
O silêncio que se seguiu durou três segundos a mais do que deveria.
“Não tem nada,” ela disse. “Estou olhando por você. Só isso.”
Ele não acreditou nela. Conhecia Sandra a vida inteira e a amava completamente e não acreditou em uma palavra daquilo.
“Tudo bem,” ele disse, e encerrou a ligação.
Ficou parado no escritório por um momento. Depois abriu a porta.
Cloe estava na mesa dela, concentrada na tela, a postura ainda na mesma linha firme que tinha estado a manhã toda. Ela não ergueu os olhos imediatamente. Quando ergueu, foi porque tinha terminado o que estava fazendo primeiro, o que disse a ele algo sobre ela que outro candidato talvez não tivesse entendido que estava sendo observado.
“Cancela minha reunião das quatro,” ele disse. “E reserva uma mesa no Crest às seis. Duas pessoas.”
Ela o olhou. “Jantar?”
“Tenho algo para discutir com você que não é uma conversa para esse escritório.” Ele sustentou o olhar dela. “Você disse ainda não. Estou te dando até às seis.”
Ela ligou para Ada do banheiro às cinco e meia.
“Ele quer jantar,” Cloe disse, mantendo a voz baixa. “Hoje à noite. Para conversar.”
“Conversar sobre o quê?”
“Sandra. Eu. Seja lá o que Sandra tenha contado a ele naquele escritório.” Ela pressionou dois dedos contra a têmpora. “Não sei o quanto ele sabe. Não sei o que ela disse.”
“Então conta a ele primeiro,” Ada disse, como se fosse simples. Como se não fosse a coisa mais carregada que Cloe tinha sido convidada a fazer desde que assinou o próprio nome numa certidão de casamento aos vinte e três anos.
“Se eu contar a ele, perco o emprego.”
“Se Sandra contar a versão dela, você perde o emprego e a reputação.”
Cloe ficou quieta.
“O Dave fica na minha casa hoje à noite,” Ada disse. “Vai para o jantar. Conta a verdade. Seja lá o que acontecer depois não é algo que você pode controlar, então para de tentar.”
Ela desligou antes que Cloe conseguisse argumentar. Ada tinha esse hábito.
O Crest era o tipo de restaurante que não colocava preços no cardápio. Cloe já tinha passado por ele antes, mas nunca tinha entrado. Mac já estava à mesa quando ela chegou, sem o paletó, as mangas dobradas, um copo de água na frente dele e uma quietude nele que ela estava começando a reconhecer como simplesmente o jeito que ele existia no mundo.
Ele se levantou quando a viu. Ela reparou nisso e disse a si mesma que não importava.
Fizeram o pedido. Ele não perguntou o que ela queria beber. Perguntou do que ela gostava e depois pediu com base nisso, o que era uma coisa pequena e não deveria significar nada e mesmo assim significou.
Por dez minutos conversaram sobre trabalho. A conta Alcott. A caixa de entrada reestruturada. Ela tinha pego um agendamento duplo na agenda dele que Paul tinha deixado passar, e ele comentou aquilo com algo que era quase aprovação. Ela estava quase relaxada.
Então ele pousou o copo e a olhou.
“Minha irmã está casada há seis meses,” ele disse. “Cerimônia no exterior. O marido dela se chama Marshall Vane.”
O barulho do restaurante continuou ao redor deles. Música suave. Conversas de outras pessoas.
Cloe olhou para Mac Harlow do outro lado da mesa e entendeu que ele já sabia. Não tudo. Mas o suficiente. Sandra tinha contado alguma coisa a ele antes de sair do prédio, e ele tinha carregado isso a tarde inteira, e agora estava observando o rosto dela para ver se ela ia mentir para ele.
Ela não ia mentir para ele.
“Marshall Vane,” ela disse com cuidado, “também é meu marido. Estamos casados há nove anos. Recebi os papéis do divórcio três dias atrás.”
Mac não se mexeu. A expressão dele não mudou. Mas algo por trás dos olhos dele mudou, algo sísmico e contido, do jeito que um prédio absorve o impacto antes de as rachaduras aparecerem.
“Você sabia,” ele disse. “Quando eu disse meu nome naquela calçada. Você já sabia quem eu era.”
“Eu sabia quem a Sandra era,” ela disse. “Não você. Não até você dizer seu nome.”
“E você foi à entrevista mesmo assim.”
“Tenho um filho com uma condição médica e nenhuma renda. Sim. Fui mesmo assim.”
Ele ficou quieto por um longo momento. Ela não tentou preencher o silêncio. Seja lá o que ele estivesse processando merecia o espaço.
“Há quanto tempo?” ele perguntou. “Há quanto tempo ele estava com a Sandra enquanto você estava—” Ele parou. O maxilar dele travou. Recomeçou. “Há quanto tempo você não sabia?”
“Três anos, aparentemente.” Ela manteve a voz firme. “Embora eu suspeite que eu não soubesse por mais tempo do que isso nos jeitos que realmente importavam.”
Mac pegou o copo e o pousou de novo sem beber. Ela observou ele processar aquilo, observou ele colocar as peças na ordem certa, e viu o exato momento em que ele chegou àquela que ela vinha esperando.
“A promoção,” ele disse baixinho. “A Sandra me pediu para criar o cargo no exterior. Disse que Marshall era talentoso, que a empresa se beneficiaria.” Ele a olhou. “Eu não fiz perguntas. Confiei nela.”
“Eu sei,” Cloe disse.
“Eu dei a ele um motivo para desaparecer e você passou nove anos—”
“Você não sabia,” ela disse. “Seja lá o que Sandra te contou ou não contou, você não sabia que havia uma esposa e um filho do outro lado dessa decisão. Não estou aqui para te culpar.”
Ele a olhou por um longo tempo. Ela sustentou o olhar.
“Então por que você está aqui?” ele perguntou. Não sem gentileza. Genuinamente.
“Porque preciso do emprego,” ela disse. “E porque você foi justo comigo quando não precisava ser. E porque estou tão cansada,” a voz dela baixou, só um pouco, só o suficiente, “de fugir de coisas que não são culpa minha.”
A mesa entre eles parecia muito pequena.
Mac enfiou a mão no bolso do paletó e pousou algo na mesa entre eles.
Os papéis do divórcio dela. A pasta que ela tinha deixado na mesa dela quando saiu para o jantar.
“A Sandra pegou isso da sua mesa essa tarde,” ele disse. “Trouxe para mim. Achou que isso ia mudar alguma coisa.” Ele fez uma pausa. “Não muda. O emprego ainda é seu se você quiser.”
Cloe encarou a pasta.
Sandra tinha vasculhado a mesa dela. Tinha pegado seus documentos particulares. Tinha entregado ao próprio irmão como arma e não tinha funcionado, e agora ela sabia que não tinha funcionado, e Cloe entendeu com total clareza que o que Sandra fizesse a seguir seria pior.
Ela pegou a pasta e a colocou na bolsa.
“Obrigada,” ela disse.
Mac acenou com a cabeça. Pegou o garfo. Ela pegou o dela. Comeram num silêncio que já não era desconfortável.
Ela já estava quase na porta quando o celular dela acendeu.
Uma foto. Enviada de um número que ela não reconhecia.
Dave. Seu filho. Parado do lado de fora da escola, no uniforme, mochila nas costas, alheio a tudo.
A mensagem embaixo tinha quatro palavras.
Para agora. Ou então.
O sangue de Cloe gelou.