Mundo ficciónIniciar sesiónFiquei olhando para a caneta sobre a mesa como se ela fosse uma armadilha.
Talvez fosse exatamente isso.
Levantei os olhos de novo para Dante Montenegro. Ele nem parecia se importar, todo tranquilo, encostado na mesa, braços cruzados, como se tudo aquilo fosse só mais um acordo qualquer.
Para ele provavelmente era.
Para mim… era a minha vida.
— Você quer que eu assine um contrato de casamento com um homem que eu nunca vi antes — falei lentamente.
Ele só levantou uma sobrancelha, quase rindo.
— Você acabou de me ver.
— Você entendeu o que eu quis dizer.
— Sim — respondeu com tranquilidade. — E ainda assim está aqui.
Aquilo me irritou.
— Eu só vim ouvir sua proposta.
Dante inclinou a cabeça de leve, observando-me como se estivesse analisando algo interessante.
— Então ouça.
Ele pegou o contrato e abriu na primeira página.
— Nosso casamento terá duração de dois anos.
Franzi a testa.
— Dois anos?
— Tempo suficiente para cumprir as exigências do testamento do meu pai e consolidar minha posição na empresa.
A forma fria como ele falava daquilo era perturbadora.
— E depois disso?
— Divórcio.
Simples assim.
Como se estivesse falando sobre cancelar uma assinatura.
— Todas as suas dívidas serão pagas imediatamente após a assinatura — ele continuou. — A hipoteca da casa da sua família será quitada. As despesas médicas da sua mãe também.
Meu coração apertou.
Ele sabia tudo.
— Em troca — Dante disse — você será minha esposa.
Cruzei os braços.
— Só no papel?
Ele soltou uma pequena risada sem humor.
— Não seja ingênua, Aurora.
Meu nome soou estranho vindo da boca dele.
— Precisamos parecer um casal real.
Senti um arrepio percorrer minha coluna.
— Isso inclui morar juntos, aparecer em eventos e manter uma imagem pública convincente.
— E na vida privada?
Os olhos escuros dele se fixaram nos meus.
— Existem regras — ele respondeu finalmente.
Dante virou algumas páginas do contrato e apontou para uma seção.
— Primeira regra: discrição absoluta.
Assenti lentamente.
— Segunda regra: nenhuma interferência nos meus negócios.
— Não tenho interesse nos seus negócios.
— Ótimo.
Ele continuou:
— Terceira regra: você não se envolverá com nenhum outro homem enquanto estivermos casados.
Soltei uma risada curta.
— Engraçado. Eu estava pensando exatamente na mesma regra para você.
Dante me encarou por alguns segundos.
Então um leve sorriso apareceu no rosto dele.
— Ciúmes antes mesmo de assinar o contrato?
— Confiança é difícil quando se está lidando com um estranho.
— Um estranho que está prestes a resolver todos os seus problemas.
Aquelas palavras me atingiram como um soco.
Ele sabia exatamente onde pressionar.
Respirei fundo.
— Você ainda não respondeu minha pergunta.
Dante inclinou levemente a cabeça.
— Qual?
— A vida privada.
Por um momento ele apenas me observou.
Então respondeu calmamente:
— Não espero que você se apaixone por mim.
— Que alívio.
— Mas espero que cumpra seu papel como minha esposa.
Meu estômago deu um pequeno nó.
— Isso inclui compartilhar a mesma cama quando necessário.
Meu coração perdeu o ritmo por um segundo.
— Quando necessário?
— Aparências importam no meu mundo.
Ele se aproximou um pouco mais da mesa.
— As pessoas vão observar cada detalhe do nosso casamento.
O olhar dele desceu lentamente pelo meu corpo antes de voltar aos meus olhos.
— Inclusive a forma como nos comportamos em público.
Meu rosto esquentou de irritação.
— Então basicamente você quer uma esposa decorativa.
— Não.
A resposta veio imediata.
— Eu quero uma esposa convincente.
Cruzei os braços novamente.
— Você parece muito confiante de que eu vou aceitar isso.
— Você vai.
— E por que tem tanta certeza?
Dante pegou um tablet sobre a mesa e deslizou algo na tela.
Depois virou o aparelho na minha direção.
O que vi fez meu estômago afundar.
Era uma notificação oficial do banco.
Execução da hipoteca.
Data limite: duas semanas.
Minha garganta ficou seca.
— Eu fiz minha pesquisa, Aurora — ele disse calmamente.
O silêncio se instalou novamente.
Eu odiava admitir… mas ele tinha razão.
Eu estava sem opções.
Levantei os olhos lentamente.
— E se eu disser não?
Dante deu de ombros.
— Então você sai por aquela porta.
A simplicidade da resposta foi quase cruel.
— E sua vida continua exatamente como está agora.
Meu peito apertou.
Ele pegou a caneta novamente e a colocou diante de mim.
— A decisão é sua.
Fiquei olhando para o contrato por alguns segundos.
Depois ergui os olhos.
— Tem mais uma regra.
Dante pareceu levemente surpreso.
— Estou ouvindo.
— Você não controla minha vida.
Ele ficou em silêncio por um momento.
Então perguntou:
— Explique.
— Eu cumpro meu papel como sua esposa em público — respondi. — Mas fora disso, eu continuo sendo quem eu sou.
O olhar dele se estreitou ligeiramente.
— E quem exatamente é você?
Segurei o olhar dele sem hesitar.
— Alguém que não se curva para homens arrogantes.
Um silêncio pesado caiu no escritório.
Por um segundo achei que ele fosse recusar.
Mas então Dante soltou uma pequena risada.
— Interessante.
Ele pegou o contrato novamente e fez uma pequena anotação.
— Aceito sua condição.
Meu coração acelerou.
A caneta ainda estava ali.
Esperando.
Dante me observava com aqueles olhos escuros, atentos a cada reação minha.
— Então, Aurora… — ele disse calmamente.
— vamos nos casar?
Engoli em seco.
Peguei a caneta.
E no momento em que a ponta tocou o papel…
A porta do escritório se abriu bruscamente.
— Dante, você não pode estar falando sério!
Uma mulher entrou furiosa na sala.
Alta.
Elegante.
Linda.
E o olhar que ela lançou para mim era puro veneno.
— Você vai mesmo casar com ela?
O silêncio que se seguiu fez meu coração disparar.
E então Dante disse algo que deixou o ar ainda mais pesado.
— Já que você chegou… — ele falou calmamente.
— Aurora, esta é Helena.
Ele olhou para a mulher.
E completou:
— A mulher com quem eu deveria me casar.







