Mundo de ficçãoIniciar sessão
Eu nunca imaginei que um dia acabaria vendendo meu próprio destino.
Mas, naquela noite, com as contas espalhadas pela mesa da cozinha, ficou claro que eu não tinha muita escolha.
O silêncio da casa era sufocante. Só dava pra ouvir o tique-taque insistente do relógio na parede.
Duas semanas.
Esse era o prazo. Depois disso, perderíamos a casa.
Esfreguei o rosto, tentando empurrar pra longe aquele nó que apertava meu peito. Minha mãe dormia no quarto ao lado, apagada pelos remédios do médico. Ela não fazia ideia do que estava acontecendo. Não sabia das dívidas se empilhando, nem que os bancos já estavam batendo à porta.
E eu faria qualquer coisa pra manter as coisas assim.
Até aceitar propostas absurdas.
Meu celular vibrou na mesa.
Número desconhecido.
Por um segundo, pensei em ignorar. Já tinha ouvido cobranças demais por telefone.
Mas alguma coisa me fez atender.
— Aurora Vasconcelos? — era uma voz masculina, firme, profissional.
— Quem tá falando?
— Ricardo Almeida. Advogado do senhor Dante Montenegro.
Meu corpo travou.
Aquele sobrenome era impossível de esquecer.
Montenegro.
Mesmo tantos anos depois, ainda pesava.
A família Montenegro praticamente mandava em metade do mercado financeiro do país. Empresas, bancos, investimentos… tudo tinha o dedo deles.
E tinham fama de acabar com quem cruzasse o caminho deles.
— Acho que você ligou pro número errado — falei, seca.
— Na verdade, não — ele respondeu, calmo. — O senhor Montenegro quer fazer uma proposta pra você.
Soltei um suspiro, já cansada.
— Se isso for uma piada...
— Não é.
O tom dele continuou o mesmo, gelado.
— O senhor Montenegro deseja encontrá-la amanhã às dez da manhã. No escritório central da Montenegro Holdings.
Fiquei em silêncio por alguns segundos.
Aquilo não fazia sentido nenhum.
— Eu nem conheço esse homem.
— Ainda não.
Algo no jeito que ele disse aquilo me incomodou.
— Sobre o que seria essa reunião?
Do outro lado da linha houve uma breve pausa.
— Um contrato de casamento.
Eu quase ri.
Quase.
— Tá de brincadeira, né?
— Não estou brincando, senhorita Vasconcelos.
A frieza dele cortou qualquer vontade de rir.
— Senhor Montenegro tem uma proposta que pode resolver todos os seus problemas financeiros.
Meu coração disparou.
— Como você sabe das minhas dívidas?
— Nosso cliente costuma fazer pesquisas detalhadas antes de entrar em qualquer tipo de negociação.
Negociação.
Era assim que ele chamava aquilo.
Apertei o celular com força.
— E qual seria exatamente essa proposta ridícula?
— Um casamento por contrato.
As palavras ecoaram na cozinha silenciosa.
— Em troca, ele paga todas as suas dívidas.
Meu estômago virou.
— Isso é algum tipo de chantagem?
— Não. É uma oferta.
Ele continuou:
— O senhor Montenegro herdará a presidência da empresa da família em breve. No entanto, existe uma cláusula específica no testamento que exige que ele se case.
Cruzei os braços, irritada.
— Então ele deveria procurar uma noiva, não uma desconhecida.
— Ele escolheu você.
Aquelas palavras ficaram suspensas no ar por alguns segundos.
Meu peito apertou.
— Eu não estou interessada.
— Entendo.
A resposta veio calma demais.
— No entanto, considerando a situação financeira da sua família… talvez seja prudente ao menos ouvir a proposta.
Olhei novamente para as contas espalhadas na mesa.
Hospital.
Medicamentos.
Hipoteca.
O número final parecia cada vez mais impossível.
— Amanhã às dez — ele repetiu. — Caso não compareça, entenderemos que recusou a oferta.
A ligação terminou logo depois.
Fiquei parada na cozinha por um longo tempo, olhando para o celular em minha mão.
Casamento por contrato.
Aquilo era absurdo.
Insano.
Humilhante.
Mas as contas continuavam ali.
Reais.
Inescapáveis.
Fechei os olhos por um momento.
Talvez eu só fosse ouvir a proposta.
Nada mais.
Afinal, ouvir não significava aceitar.
Na manhã seguinte, estava parada diante do prédio mais imponente que já tinha visto.
A sede da Montenegro Holdings ocupava quase um quarteirão inteiro no centro financeiro da cidade.
Vidro espelhado.
Segurança em cada porta.
Carros de luxo entrando e saindo.
Por um instante pensei em dar meia-volta.
Mas então lembrei da minha mãe dormindo naquela casa que poderíamos perder.
Respirei fundo.
E entrei.
A recepcionista já parecia esperar por mim.
— Senhorita Vasconcelos?
Assenti.
— O senhor Montenegro está aguardando.
Fui conduzida até o último andar.
Cada passo parecia mais pesado que o anterior.
Quando a porta do escritório finalmente se abriu, senti imediatamente o peso da presença dele.
O homem estava de pé diante da enorme janela de vidro, observando a cidade lá embaixo.
Alto.
Imponente.
O terno escuro parecia feito sob medida para cada linha do corpo dele.
Quando ele se virou, senti meu coração parar por um segundo.
Dante Montenegro era ainda mais intimidante do que eu imaginava.
Olhos escuros.
Expressão fria.
A postura de alguém acostumado a controlar tudo ao redor.
Ele me observou por alguns segundos antes de falar.
— Então você veio.
A voz era grave.
Controlada.
Cruzei os braços.
— Só estou aqui para ouvir essa proposta absurda.
Um canto quase imperceptível do lábio dele se ergueu.
— Direta. Eu gosto disso.
Ele caminhou até a mesa e pegou um documento.
Depois colocou o papel diante de mim.
— Este é o contrato.
Olhei para o título no topo da página.
CONTRATO DE CASAMENTO.
Meu estômago se apertou.
— Você está falando sério?
— Completamente.
Ergui os olhos para ele.
— Por que eu?
Dante me observou em silêncio por alguns segundos.
E então disse algo que fez meu sangue gelar.
— Porque você é a única mulher que eu posso casar… sem correr o risco de me apaixonar.
O silêncio caiu pesado entre nós.
Mas ele ainda não tinha terminado.
— E porque seu sobrenome faz parte de uma dívida antiga que sua família ainda precisa pagar.
Meu coração disparou.
— Do que você está falando?
Os olhos dele ficaram ainda mais frios.
— Você realmente não sabe o que sua família fez com a minha?
Meu peito apertou.
— Não.
Dante inclinou levemente a cabeça.
Então disse as palavras que mudariam minha vida para sempre.
— Ótimo.
Ele deslizou a caneta sobre a mesa.
Direto na minha direção.
— Porque depois que você assinar esse contrato…
— vai descobrir.







