Mundo de ficçãoIniciar sessãoAndy e Jeff faziam parte da minha história havia muito tempo. Foram testemunhas de muitas das minhas fases, principalmente daquela em que eu parecia ter transformado a solteirice em um estilo de vida.
Naquela época, eu não queria nada sério. Ou talvez quisesse, mas já estivesse cansada demais de me decepcionar para admitir isso. Eu conhecia bem o ciclo: me interessava por alguém, criava expectativas, quebrava a cara e, no fim, acabava afogando as frustrações na bebida, cercada por aquelas mesmas pessoas que já estavam acostumadas a me ver assim. Andy e Jeff conheciam essa versão de mim. A que saía, ria alto, bebia, fazia piada das próprias desilusões e fingia que nada doía tanto quanto realmente doía. Eles estavam acostumados com a minha liberdade, com a minha presença constante, com a mulher que sempre tinha uma história para contar e que, mesmo depois de mais uma decepção, acabava encontrando motivos para sair de casa e recomeçar a noite. O que nenhum deles imaginava era que, dessa vez, seria diferente. Joseph não era apenas mais alguém que havia cruzado o meu caminho. Com ele, as coisas tinham uma intensidade que eu não sabia explicar. Eu estava feliz de um jeito que há muito tempo não experimentava. Não era aquela empolgação passageira que vinha acompanhada de dúvidas, inseguranças e a sensação de que, em algum momento, tudo acabaria mal. Com Joseph, eu queria ficar. Queria descobrir o que existia depois das primeiras conversas, dos encontros e dos olhares que pareciam dizer mais do que as palavras. Queria viver aquilo sem precisar pensar no fim antes mesmo de aproveitar o começo. E, pela primeira vez em muito tempo, eu estava conseguindo. Além de Andy e Jeff, havia August. August era meu parceiro de tantas saídas que, mesmo quando o casal não podia nos acompanhar, nós dávamos um jeito de aproveitar a noite. Íamos a bares, baladas e a tantos outros lugares que, com o tempo, ele acabou se tornando uma presença natural na minha rotina. Ele sempre cuidou de mim de alguma forma. Buscava-me em casa, levava-me de volta e estava ali, presente, como alguém em quem eu podia confiar. Minha mãe adorava August. Talvez até mais do que eu imaginasse. Ela vivia dizendo que ele era apaixonado por mim, que eu não percebia o que estava bem diante dos meus olhos e que, no fundo, ele queria muito mais do que aquela amizade que nós tínhamos. Eu apenas ria. Nunca consegui enxergá-lo dessa maneira. O carinho que sentia por ele era verdadeiro, mas tinha o lugar definido dentro de mim: o lugar da amizade. E eu acreditava que, para ele, também fosse assim. Afinal, August nunca havia se declarado, nunca tinha colocado em palavras qualquer sentimento que ultrapassasse os limites da nossa relação. Então, por que eu deveria imaginar alguma coisa diferente? Eu não procurava sinais escondidos. Não analisava suas atitudes tentando descobrir se existia algo além. Para mim, ele era August, meu amigo, aquele que me acompanhava nas noites de diversão e que sempre se certificava de que eu chegasse bem em casa. Eu não sabia que, talvez, estivéssemos enxergando aquela amizade de maneiras diferentes. Quando August conheceu Joseph, houve alguma coisa no ar. Uma tensão discreta, quase imperceptível. Um tipo de desconforto que, olhando para trás, talvez eu consiga reconhecer. Mas, naquele momento, não percebi nada. Eu estava feliz demais. Era como se, depois de tantas histórias que não deram certo, a vida finalmente estivesse me oferecendo algo bonito. Eu queria aproveitar cada instante com Joseph, conhecer cada detalhe dele, compartilhar minhas alegrias e descobrir até onde aquela relação poderia nos levar. Naquele período, tudo parecia mais leve. Eu sorria mais, fazia planos e sentia aquela felicidade gostosa de quem começa a acreditar que, sim, coisas boas também podem acontecer consigo. Eu não tinha motivos para desconfiar de ninguém. Ou, pelo menos, era nisso que acreditava. Foi então que August começou a fazer comentários para Andy. — Agora que eles estão namorando, ela vai parar de sair com a gente. Em outro momento, dizia que eu já não me importava tanto com a nossa amizade, que, assim que comecei a namorar Joseph, parecia ter esquecido das pessoas que sempre estiveram ao meu lado. E talvez o que mais me surpreenda hoje seja pensar que eu sequer sabia dessas conversas. Enquanto eu vivia o início de uma história que me fazia tão bem, havia outra história sendo construída longe dos meus olhos. Uma história feita de comentários, interpretações e sentimentos que eu não sabia que existiam. August falava. Andy ouvia. E, aos poucos, aquelas palavras começaram a fazer efeito. Andy, que me conhecia havia tanto tempo, começou a acreditar naquela versão dos acontecimentos. Talvez porque também sentisse minha ausência em algumas noites. Talvez porque, de alguma forma, tivesse medo de que a nossa amizade realmente mudasse. Ou talvez porque as palavras de August tivessem encontrado espaço em alguma insegurança que ela já carregava. Eu não posso afirmar o que se passava dentro dela naquela época. Só sei que, sem que eu percebesse, algo começou a mudar. E é estranho pensar nisso. Porque, quando estamos felizes, não imaginamos que alguém possa interpretar a nossa felicidade como abandono. Não pensamos que escolher passar uma noite com a pessoa que amamos possa ser entendido como deixar de amar os nossos amigos. Eu não estava tentando me afastar de ninguém. Eu apenas estava vivendo. Pela primeira vez em muito tempo, eu tinha alguém com quem queria dividir meus dias, meus planos e minhas horas livres. Isso não significava que eu tivesse deixado de amar meus amigos. Não significava que eles tivessem perdido a importância que sempre tiveram na minha vida. Significava apenas que algo novo havia chegado. E eu acreditava que as pessoas que me amavam seriam capazes de entender isso. Talvez essa tenha sido uma das coisas que eu ainda precisava aprender: nem todo mundo sabe lidar com as mudanças que acontecem na vida de quem ama. Algumas pessoas conseguem celebrar a nossa felicidade, mesmo quando ela altera a dinâmica da relação. Outras sentem a mudança como uma perda e, sem perceber, transformam essa sensação em ressentimento. Naquela época, eu ainda não entendia essas diferenças. Não sabia que uma amizade também podia guardar expectativas não ditas. Que alguém poderia se acostumar tanto com a nossa presença que passasse a enxergar a nossa ausência como uma ofensa. E que, às vezes, as pessoas não precisam nos dizer diretamente que estão magoadas para começarem a agir como se tivéssemos feito algo errado. Eu só queria ser feliz. E não imaginava que, enquanto tentava construir algo bonito com Joseph, precisaria também enfrentar as mudanças que essa felicidade provocaria em outras relações. O mais doloroso é que eu não estava preparada para isso. Eu conhecia minhas decepções amorosas. Sabia como era sofrer por alguém que não correspondia ao que eu sentia. Já tinha aprendido, à minha maneira, a juntar os pedaços depois de uma história mal resolvida. Mas aquela era outra coisa. Porque, dessa vez, eu não estava sofrendo por alguém que havia prometido me amar. Eu estava começando a descobrir que até as pessoas que fazem parte da nossa vida há anos podem nos decepcionar de maneiras que jamais imaginamos. E eu ainda não sabia o quanto aquela descoberta me marcaria.






