Mundo de ficçãoIniciar sessãoOs dias continuavam passando, mas a tranquilidade nunca voltava por completo.
Quando os exames de Joseph ficaram prontos, ele entrou em contato com a ex. Com calma, disse: — Meus exames deram todos normais. Eu não tenho nenhuma infecção sexualmente transmissível. Ela permaneceu em silêncio por alguns instantes. Depois, respondeu que também havia questionado a médica sobre o resultado e que talvez tivesse acontecido algum erro nos exames. A conversa terminou, mas as dúvidas permaneceram. As semanas foram passando. Mesmo em meio a toda aquela confusão, Joseph nunca deixou de perguntar como o bebê estava. De tempos em tempos, enviava uma mensagem. — Está tudo bem? Ela respondia que sentia muitas dores, que a gestação não estava sendo fácil e que, em breve, faria uma ecografia. Sempre que ele dizia que gostaria de acompanhá-la, a resposta nunca era direta. “Depois eu aviso.” “Ainda não marcaram.” “Assim que eu souber, te falo.” Mas esse dia nunca chegava. A cada tentativa de participar, surgia uma nova desculpa. No começo, tentamos acreditar que era apenas uma situação delicada. Com o passar do tempo, porém, começamos a perceber que havia um padrão. Ela mantinha Joseph informado apenas o suficiente para alimentar a esperança de que ele participaria daquele momento… mas nunca permitia que ele realmente estivesse presente. E, sem perceber, uma única pergunta passou a ocupar nossos pensamentos: O que ela estava escondendo? Foi então que uma ideia surgiu. Se ela sempre adiava a ecografia, por que não tomarmos a iniciativa? Pedi que Joseph entrasse em contato com ela e dissesse que ele mesmo agendaria o exame e faria questão de levá-la. Para nossa surpresa, ela aceitou. O exame ficou marcado para a semana seguinte. Era uma quinta-feira. Pela primeira vez em muito tempo, sentimos que talvez estivéssemos prestes a encontrar respostas. Naquele fim de semana, tentamos deixar toda a confusão do lado de fora da porta. Precisávamos respirar. Precisávamos lembrar por que havíamos escolhido ficar juntos, apesar de tudo. Naquela noite, ele me abraçou como se quisesse afastar todos os meus medos. Seus beijos eram demorados, delicados e intensos ao mesmo tempo. Cada carinho parecia dizer aquilo que as palavras já não conseguiam expressar. Eu me sentia protegida. Desejada. Ele me enforcava levemente me fazendo sentir um prazer absoluto. Enquanto colocava minhas pernas sobre seus ombros e entrava deliciosamente dentro de mim, se aproximando disse: - Você é minha! Fechei os olhos. Naquele instante, escolhi acreditar que tudo aquilo passaria. Que, depois da tempestade, ainda existia um futuro para nós. Mas a paz durou pouco. Na manhã seguinte, o celular de Joseph começou a tocar sem parar. Eram várias mensagens. Vários áudios. Do outro lado da tela, sua irmã e a ex choravam desesperadamente. Segundo elas, ela havia perdido o bebê. Disseram também que tentaram ligar durante o fim de semana para que Joseph a levasse ao hospital, mas ele não atendeu porque estava comigo. Por alguns segundos, ele permaneceu imóvel, ouvindo cada áudio em silêncio. Quando terminou, deixou o celular sobre a mesa e passou as mãos pelo rosto. A culpa tentava encontrar espaço dentro dele. Mas algo naquela história continuava não se encaixando. Mesmo assim, aquelas palavras atingiram em cheio o nosso relacionamento. Mais uma vez, a dúvida entrou pela porta que nós tanto lutávamos para manter fechada. Os dias passaram, mas aquela história continuava cercada de perguntas. Pelas contas, ela já deveria estar com aproximadamente seis meses de gestação. O que mais nos intrigava era o fato de ela não ter permanecido sob os cuidados do hospital. Diante da gravidade da situação que havia relatado, aquilo parecia estranho. Quando Joseph questionou, ela enviou uma foto de um termo de responsabilidade, alegando que o hospital havia pedido que ela assinasse o documento para deixar a unidade. Olhei para aquele papel por vários minutos. Não sei explicar. Mas havia algo que simplesmente não fazia sentido. Mesmo assim, decidimos seguir em frente. Estávamos cansados de viver em função de dúvidas e situações que não podíamos controlar. Nosso relacionamento já havia sido colocado à prova vezes demais. Só que ela parecia determinada a continuar presente entre nós. Em pouco tempo, uma das irmãs de Joseph passou a morar com ela. Eu nunca consegui confiar nela; era apenas uma impressão minha, mas sempre senti que havia algo estranho na forma como conduzia as situações. Não demorou para que começassem a surgir novas mensagens. Dessa vez, o assunto era um antigo artefato que, segundo a ex, pertencia a ela. Joseph explicou que aquele objeto já nem estava mais com ele. Havia sido entregue a um amigo muito antes. Ainda assim, as mensagens continuavam. Sempre havia um novo motivo. Um novo assunto. Uma nova desculpa para manter contato. Foi então que percebi que o problema nunca tinha sido o objeto. Nem os exames. Nem qualquer outro detalhe. O verdadeiro objetivo parecia ser outro. Ela encontrava uma nova razão sempre que a anterior deixaria de existir. E, pela primeira vez, senti que a maior batalha do nosso relacionamento não era contra o passado. Era contra alguém que se recusava a fazer parte dele. Infelizmente, chegou um momento em que eu não consegui mais ficar em silêncio.






