Um Adeus

A noite foi longa e insonne para Ana. Ela ficou deitada na cama ampla do quarto que, aos poucos, havia começado a parecer seu, mas que agora voltava a ser apenas um cômodo estranho na casa de outra pessoa. As palavras de Sofia ecoavam na cabeça como um disco riscado: vigarista, oportunista, parasita. Cada acusação doía , não porque fossem verdadeiras, mas porque vinham de alguém que Pedro amava profundamente, alguém que ele protegeria com unhas e dentes.

Ana se levantou antes que o céu clareasse. Ainda era madrugada, o silêncio da fazenda absoluto, exceto pelo canto distante de um grilo e o ocasional mugido de um bezerro. Vestiu-se com roupas simples e confortáveis, calçou as botas gastas que usava para andar pela propriedade e pegou a mala pequena que nunca chegara a desfazer completamente. Não levou nada que não fosse dela, apenas suas roupas, alguns livros, o dinheiro que sua mãe havia lhe dado, uma foto antiga da mãe e da tia sorrindo no quintal da fazenda dos Oliveira.

Passou pela cozinha na ponta dos pés. Na mesa, ainda estava o copo d’água que Pedro sempre deixava para ela à noite, um gesto que, em outra época, a faria sorrir. Agora, apenas apertou o peito. Ela escreveu um bilhete curto, com letra firme, apesar das mãos tremendo:

Pedro,

Obrigada por tudo.

Pela paciência, pela amizade, pelo espaço que você me deu para respirar.

Você me mostrou que nem todo homem é como meu pai, e isso já valeu mais do que qualquer dívida quitada.

Mas eu não aguento mais ver você dividido entre mim e sua filha. Sofia tem razão em uma coisa: eu não pertenço aqui. Não do jeito que as coisas estão. Não me procure. Deixe Sofia ter o pai dela de volta, sem brigas, sem tensão. Cuide-se. E cuide dela.

Você merece paz.

Ana.

Dobrou o papel com cuidado, deixou-o sobre a mesa da cozinha, ao lado do copo d’água. Depois, saiu pela porta dos fundos, a que dava para o pomar e para a estrada de terra que levava à porteira principal. Não olhou para trás.

O luar prateado iluminava o caminho, e o orvalho molhava suas botas enquanto ela caminhava rápido, o coração batendo forte no peito.

Ninguém a viu sair. A casa grande permaneceu escura e silenciosa. Pedro dormia no quarto no fim do corredor, exausto depois de mais um dia tentando mediar a tensão entre as duas mulheres que, de formas diferentes, ocupavam sua vida. Sofia dormia no quarto de hóspedes, convencida de que havia vencido a batalha.

Ana chegou à estrada principal quando o primeiro fio de luz rosada começava a surgir no horizonte. Um caminhão de leite passava devagar, ela acenou, e o motorista parou. Subiu na boleia sem dizer muito, apenas agradeceu ao senhor pela carona até a cidade.

O homem assentiu, sem perguntas.

Enquanto o caminhão se afastava, Ana olhou pela janela empoeirada e viu, pela última vez, o contorno da casa grande contra o céu que clareava. Uma pontada de dor atravessou seu peito, não raiva, não arrependimento, mas uma saudade antecipada de algo que nunca chegara a ser completamente seu.

Ela apertou a alça da mala contra o colo e respirou fundo.

— Vai ficar tudo bem — sussurrou para si mesma, como se tentasse convencer a garota teimosa que ainda vivia dentro dela. Mas, no fundo, uma parte dela já sabia que deixar Pedro para trás não seria tão simples quanto deixar a fazenda.

Enquanto isso, na casa, o sol nascente entrava pela janela da cozinha e iluminava o bilhete sobre a mesa. Pedro desceria em poucos minutos. Sofia também. E quando lessem aquelas palavras, o silêncio que Ana deixara para trás seria muito mais pesado do que qualquer grito ou briga que já houvera entre aquelas paredes.

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