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Entre o Caos e a Amizade

Os dias na fazenda se tornaram uma sequência confortável de rotinas compartilhadas, onde a amizade entre Pedro e Ana florescia como as flores silvestres nos pastos após uma chuva. Não havia grandes gestos, apenas o acúmulo de momentos que teciam uma rede de confiança e afeto entre eles.

Em uma manhã fresca, Ana acordou cedo e decidiu surpreender Pedro com um café da manhã completo. Ovos mexidos com ervas, pão torrado e uma bela caneca de café quente com leite ordenhado logo cedinho.

Ele desceu as escadas, o cheiro o guiando, e encontrou a mesa posta na varanda, com o sol nascendo sobre as montanhas.

— O que é isso? — perguntou ele, parando na porta, com os olhos surpresos.

Ana sorriu, cruzando os braços.

— Só um jeito de dizer que... obrigada por me deixar ficar... no meu ritmo. E por não ser tão bruto quanto eu achava que era. — disse ela sem perder a leve implicância.

Pedro sorriu e um pouco desconfiado, sentou-se devagar, pegando o garfo.

— Não sou santo, confesso, mas... você também não fica pra trás— disse dando uma boa garfada dos ovos mexido — Hum, isso tá muito bom, até melhor que os meu. —Ana sorriu faceira

—Ah que bom que gostou, disse sentando-se.

Eles comeram juntos, conversando sobre tudo... o preço do gado no mercado, as histórias da infância dela na fazenda do pai, as memórias dele de viagens antigas antes de se casar com a falecida esposa e pela primeira vez, Pedro se abriu um pouco ao falar sobre a perda, emocionado e com uma honestidade crua que fez Ana estender a mão sobre a mesa, tocando a dele por um breve instante.

— Deve ser duro carregar isso sozinho— disse ela, suavemente.

Ele assentiu, sem retirar a mão.

— Era. Agora... menos... bem menos...

Ela sorriu envergonhada, colocando uma mecha de cabelo que teimava em cair nos olhos para atrás das orelhas.

Outra tarde, eles passearam a cavalo pelos limites da propriedade. Pedro ensinava Ana a identificar pegadas de animais selvagens, e ela ria das próprias tentativas desajeitadas.

— Essa é de cachorro ? ou de onça ? — perguntou ela, apontando para uma marca na terra.

— Cachorro . Onça tem garras mais afiadas, mais funda, pesada.

— Nossa, você sabe conhece bem, sabe de tudo.

— Não tudo. Mas o suficiente pra não me perder.

Ana inclinou a cabeça, olhando para ele com um sorriso genuíno.

— Eu me sinto menos perdida aqui agora, até mesmo protegida, com você.

Pedro não respondeu com palavras, mas com o olhar dele que estava diferente para ela. Era quente e protetor.

Eles voltaram para casa ao entardecer, o silêncio entre eles agora era um companheiro acolhedor, não mais opressivo.

Mas a paz durou pouco...

Tudo mudou quando Sofia Alencar voltou. A filha de Pedro, de 26 anos, estudava medicina em Harvard e raramente visitava, mas uma pausa no semestre a trouxe de surpresa para a fazenda. Ela chegou num carro alugado, bagagens cheias de livros e roupas urbanas, o rosto bonito marcado por uma expressão dura que Ana não esperava.

Pedro a recebeu com um abraço apertado na varanda.

— Filha, que surpresa boa. Faz tempo demais.

Sofia retribuiu o abraço, mas seus olhos já vasculhavam a casa, parando em Ana, que observava da porta da cozinha. A olhou dos pés a cabeça antes de perguntar sem demora:

— Pai... quem é essa? — perguntou com a voz afiada como uma lâmina.

Pedro pigarreou.

— Essa é Ana... Minha... esposa.

Sofia congelou, depois soltou uma risada incrédula.

— Esposa? Você tá brincando, né? Ela tem o quê, 20 anos?

Pedro ficou sem reação, enquanto Ana deu um passo à frente, tentando ser educada.

— Tenho 22. Prazer, Sofia. Seu pai me falou muito de você.

Sofia ignorou a mão estendida.

— Ah, falou? Que bom. Mas ele não me falou nada sobre você. O que é isso, pai? Um casamento arranjado? Um Age Gape? Resolveu agora pegar menininhas? Que absurdo Pai!

Pedro franziu a testa, irritado

— Sofia, mais respeito! —Esbravejou ele entre dentes

— Respeito? — rebateu ela, entrando na casa e jogando a bolsa no sofá. — Uma garota nova, bonita, casando com um viúvo rico e recluso? Parece oportunismo pra mim... ou safadeza!

Ana sentiu o rosto queimar, mas manteve a compostura.

—Não se preocupe Sofia, que eu não quero nada do que é seu, se é isso que te preocupa. Foi um acordo com meu pai, mas...

— Acordo? — interrompeu Sofia, rindo com desdém. — Claro, "acordo". Você acha que eu sou idiota? Sei muito bem reconhecer uma golpista quando vejo uma.

—Chega Sofia! —Gritou Pedro assustando-a.

—Deixa Pedro, —Ana tentou acalmá-lo —Ela tem razão, disse Ana. — Eu no lugar dela talvez também agiria assim...

—Razão? Você ainda a defende Ana? Aqui ninguém vai te tratar mal. Ela vai ter que te respeitar, aqui é sua casa também — Disse ele defendendo Ana.

Sofia fechou a cara mais ainda, pegou sua bolsa,

—Eu vou pro meu quarto, se é que eu ainda tenho um. — disse deixando os dois sozinhos.

Os dias seguintes viraram um inferno sutil.

Sofia implicava com tudo que Ana fazia.

Criticava a comida que ela cozinhava

—"Isso é o que você chama de jantar? Meu pai merece o melhor...

Ela escondia itens pessoais de Ana.

Aprontava pequenas sabotagens. Como soltar o cavalo favorito de Ana no pasto distante, forçando-a a passar horas procurando, ou "acidentalmente" derrubar um vaso antigo na sala, culpando o "vento". Sujava a pia ou a mesa e não limpava, provocando Ana, para que ela se sentisse como uma empregada na casa.

— Você não pertence a esse lugar garota— sussurrou Sofia certa noite, encurralando Ana no corredor enquanto Pedro dormia. — Meu pai é um homem bom, mas ingênuo. Você é só uma parasita. Vá embora antes que eu conte pra todo mundo na cidade o que você realmente é: uma oportunista que se vendeu por dinheiro.

Ana tentava ignorar, focando na amizade com Pedro. Ele notava a tensão e tentava mediar.

— Sofia, para com isso. Ana não fez nada errado, ela é mais inocente que todos nós juntos.

— Inocente? Ah para pai! Ela se enfiou na nossa casa! Mamãe se foi e você arrumou uma substituta da minha idade, ou melhor, mais nova que eu. Isso chega a ser nojento!

Pedro suspirava, exausto. — Ana é tão dona dessa casa como você minha filha. Ela é minha esposa agora...

Ela o ignorava e o deixava falando sozinho.

Os problemas agora escalavam. A fazenda, que antes era um refúgio, ecoava discussões a todo tempo. Sofia ligava para amigos da cidade espalhando fofocas, e Ana via olhares curiosos dos empregados. O sossego se foi. Agora eram noites sem dormir, refeições tensas, caminhadas solitárias interrompidas por comentários venenosos.

Então algo terrível aconteceu...

Após uma briga feia na cozinha onde Sofia acusou Ana de "roubar" um anel da mãe falecida que ela lembrava de ter consigo, acusando assim Ana de entrar no quarto dela e mexer em suas coisas, que na verdade estavam guardada no cofre no Banco, Ana quebrou, explodiu.

— Chega! — gritou ela, entre lágrimas — Eu não aguento mais isso. Seu pai me deu liberdade pra ficar ou ir, e eu escolho ir. Não vou destruir sua família. Sofia venceu. Aqui é a casa dela, e eu sou a intrusa.

Pedro tentou intervir.

— Ana, espera. A gente vai resolver isso!

Mas Ana já estava arrumava a mala.

— Não, Pedro. Eu gosto muito de você, de verdade. Você é alguém que me cuidou, me protegeu... Mas isso... isso tá me matando. Eu vou embora. Amanhã cedo bem cedo.

Sofia observava da porta com um sorriso triunfante disfarçado.

A noite caiu pesada na fazenda, e Ana, sozinha no quarto, se perguntou se a amizade que construíra com Pedro, valia o preço de tanta dor...

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