Mundo de ficçãoIniciar sessãoAlexander
Brasil, o chamado do passado.
Cheguei na empresa atrasado, coisa rara para mim. Dormi mal, o corpo pesado, a mente ainda mais cansada do que quando me deitei. A noite tinha sido longa, fragmentada por pensamentos que eu não conseguia calar. Entrei no prédio com o nó habitual no estômago, ajustei o paletó e segui direto para o andar da presidência.
Meu pai estava em reunião com alguns clientes fortes. Pela parede de vidro da sala, vi gestos firmes, expressões concentradas. Respirei fundo antes de entrar. Dois deles eram brasileiros e queriam o apoio da Duran Automobilística nos seus negócios. Assim que cruzei a porta, meu pai ergueu os olhos e, com um simples movimento de cabeça, indicou a cadeira ao seu lado.
Sentei-me.
Ele não perdeu tempo.
— Este é meu filho, Alexander Duran, diretor geral do nosso grupo — disse com orgulho contido. — Ele pode ajudar vocês com a demanda no Brasil.
O meu coração gelou.
Brasil.
A palavra ecoou dentro de mim como um trovão abafado, daqueles que anunciam tempestade antes mesmo da chuva. Mantive a postura, mas senti os ombros enrijecerem.
Os fornecedores levantaram-se e cumprimentaram-me.
— Senhor Duran, satisfação conhecê-lo.
Assenti apenas com um aceno de cabeça, educado, contido, profissional. Por dentro, algo começava a se revirar.
Eles continuaram, animados, seguros de si.
— Temos um escritório em São Paulo e estamos realmente precisando de alguém para nos dar suporte — explicou um deles. — Palestras para nossos funcionários. Como estamos fechando com a Duran Automobilística, precisamos de alguém daqui de dentro para nos apresentar, nem que seja por algumas semanas, todo o processo de construção, desenvolvimento e design dos automóveis. Além disso, empreendedorismo, negociação, apresentação de protótipos ao consumidor ente outros assuntos que podem ser abordados.
Eu ouvia, mas parte de mim estava distante, presa a uma memória antiga, a ruas molhadas pela chuva, a uma despedida que nunca cicatrizou direito.
Meu pai, visivelmente animado com aquele contrato milionário, falou antes mesmo de eu conseguir organizar qualquer pensamento.
— Isso não será um problema — disse, firme. — Meu filho pode passar o tempo que for necessário com vocês, treinando o seu pessoal, desenvolvendo palestras.
Virou-se para mim, com um sorriso de expectativa.
— Filho, você pode passar esse tempo com eles no Brasil?
Eu não estava conseguindo nem ter voz naquela reunião. As minhas falas e pensamentos eram atropelados por decisões já tomadas por eles. Antes mesmo que eu abrisse a boca, Oliveira Corte, nosso cliente, se antecipou.
— Seria um imenso prazer ter nas nossas dependências o Diretor Geral do Grupo Duran.
Meu pai concluiu, sem hesitar:
— Então estamos fechados! Quando vocês estarão de volta ao Brasil?
Oliveira respondeu com naturalidade, como se estivesse falando de qualquer outro lugar do mundo.
— Estamos em Michigan desde o início da semana passada, participando de alguns eventos automobilísticos, feiras de carros de luxo, eventos de grandes marcas, além da Duran. Partiremos para o Brasil amanhã. Caso o senhor Duran queira, podemos viajar juntos. Teremos o prazer de arcar com todas as despesas.
O ar pareceu rarefeito dentro da sala. Amanhã. Brasil. Voltar.
Foi então que consegui falar, finalmente, a voz controlada, medida, como se não fosse carregada de um peso antigo.
— Posso seguir dentro de dois dias. Tudo bem para vocês?
Oliveira assentiu de imediato.
— Sem problemas, senhor Duran.
Sorri de forma profissional, apertei mãos, finalizei a reunião. Por fora, o diretor geral seguro e confiante. Por dentro, o garoto de dezessete anos voltava a bater à porta da minha memória, perguntando se eu estava pronto para enfrentar aquilo que deixei para trás.
Brasil não era apenas um país.
Era um nome.
Um passado.
Uma ferida ainda aberta.
O restante do dia foi arrastado, pesado. Quando os últimos clientes deixaram a empresa e o corredor da diretoria ficou silencioso, eu estava na minha sala, olhando para a tela do computador sem realmente enxergar nada. O Brasil pulsava na minha cabeça como uma palavra proibida.
Ouvi duas batidas curtas na porta.
— Posso entrar? — a voz do meu pai soou calma, mas carregada de algo mais.
— Claro — respondi, fechando o notebook.
Ele entrou devagar, fechou a porta atrás de si e cruzou os braços, observando-me, da mesma forma que observava quando eu era adolescente e ele tentava entender os meus silêncios.
— Você ficou estranho na reunião — disse direto. — Muito mais do que o normal.
Suspirei, passei a mão pelo rosto.
— Foi só cansaço.
Ele balançou a cabeça em negativa, aproximando-se da mesa.
— Não minta para mim, Alexander. Eu conheço esse olhar desde que você tinha quinze anos. — Fez uma pausa curta, calculada. — O problema é o Brasil… ou a garota que você deixou lá?
O meu peito contraiu-se.
— Pai…
— Eu não estou te julgando, filho — interrompeu, a voz firme, mas sem dureza. — Só quero entender. Dez anos passaram-se, mas parece que, para você, algumas coisas nunca se moveram do lugar.
Levantei-me da cadeira e caminhei até a janela, encarando a cidade lá embaixo.
— Eu construí uma vida aqui — disse, baixo. — Trabalho, responsabilidades, um casamento… Mas tem coisas que a gente não resolve mudando de país.
Ele aproximou-se, ficando ao meu lado.
— Elizabeth — disse o nome com cuidado, como se fosse vidro fino.
Fechei os olhos por um instante.
— Eu achei que o tempo fosse apagar — confessei. — Mas ele só ensinou a conviver.
Meu pai apoiou a mão no parapeito.
— Filho, fugir nunca foi solução. Talvez essa viagem seja justamente o que você precisa para fechar esse ciclo… seja como for.
— E se não fechar? — perguntei, com um fio de medo na voz.
— Então você vai saber exatamente onde pisa — respondeu. — Mas não pode deixar um fantasma decidir a sua vida inteira.
Ficamos em silêncio por alguns segundos.
— Você não precisa ir se não quiser — ele acrescentou. — A empresa pode mandar outra pessoa.
Balancei a cabeça.
— Não. — Respirei fundo. — Eu vou. É parte do trabalho… e talvez seja hora de encarar isso.
Ele sorriu de leve, orgulhoso.
— Isso mesmo, filho.
Cheguei em casa mais tarde naquela noite. A casa estava silenciosa, iluminada apenas pela luz morna da sala. Marcela estava sentada no sofá, com um tablet no colo, mas largou tudo assim que me viu.
— Oi, amor — disse, levantando-se e beijando-me no rosto. — Você demorou hoje.
— Dia cheio — respondi, afrouxando a gravata.
Ela me observou por alguns segundos, atenta demais.
— Aconteceu alguma coisa?
— Preciso te contar algo — falei, indo até a cozinha pegar um copo d’água.
Ela me seguiu com o olhar, os braços cruzados.
— Do jeito que você falou, parece sério.
— Vou precisar viajar — disse, finalmente. — Para o Brasil.
O silêncio caiu pesado entre nós.
— Brasil? — repetiu, devagar. — Assim… do nada?
— Negócios. Um contrato grande. Algumas semanas, no máximo.
Ela aproximou-se, o olhar já era diferente.
— Algumas semanas onde, exatamente?
— São Paulo — respondi.
Marcela mordeu o lábio inferior, um gesto que eu conhecia bem quando ela estava insegura.
— E… — hesitou. — Isso envolve… ela?
— Não — respondi rápido demais. — Quer dizer, eu não sei onde ela está, Marcela. Não é sobre isso.
Ela deu um passo atrás.
— Alexander, olha pra mim — pediu. — Você passou anos dizendo que isso estava no passado. Mas agora, só de ouvir “Brasil”, você muda. Você fica distante… igual ontem a noite.
— Eu volto logo — falei, tentando tocar a sua mão.
Ela permitiu, mas o corpo permaneceu rígido.
— Tenho medo — confessou. — Medo de você reencontrar algo que nunca deixou de existir.
— Eu estou aqui — disse, segurando o rosto dela. — Casado com você. É isso que importa.
— Importa… — murmurou. — Mas será que é suficiente?
Não soube responder.
Ela respirou fundo, forçando um sorriso frágil.
— Quantas semanas?
— Duas… talvez três.
— Então volta pra mim — disse, com os olhos marejados. — Não volta diferente.
Abracei Marcela, sentindo o peso daquele pedido simples e, ao mesmo tempo, impossível de garantir.
— Eu prometo tentar — sussurrei.
Mas, enquanto a segurava, uma pergunta martelava dentro de mim:
E se o Brasil ainda soubesse exatamente onde me atingir?
Naquela noite foi impossível evitar Marcela. Já não nos tocávamos havia alguns dias — não por falta de vontade dela, mas pela minha distância crescente, fria, silenciosa. Mesmo assim, ela veio procurar-me entre os lençóis, carente, consciente de que ficaria longe de mim por um tempo. Havia algo no seu gesto… como se quisesse se afirmar, me marcar, ou talvez apenas me lembrar de que ainda estávamos ali.
Quando a beijei, o meu corpo respondeu, mas minha mente estava longe. Muito longe.
De repente, uma imagem atravessou os meus pensamentos sem pedir permissão. Elizabeth. Aqueles olhos negros que sempre me desarmaram. Os lábios carnudos que eu encarava em silêncio, enquanto ela ria, fingindo não perceber. Apertei Marcela contra mim com mais intensidade, como se o gesto pudesse expulsar aquela lembrança — mas não expulsou.
Ela suspirava o meu nome, se entregava ao momento, e eu seguia no automático, deixando o corpo conduzir o que a cabeça já não comandava. Era Marcela ali comigo… mas, dentro de mim, a presença era outra. E essa constatação atravessou-me como culpa.
Que eu possa perdoar-me por isso um dia.
Num movimento instintivo, mudei a nossa posição, aproximei-me por trás e beijei o seu pescoço com carinho, tentando ancorar-me no agora. Marcela reagiu imediatamente, a voz carregada de desejo.
— Nossa, meu amor… — murmurou. — Você está diferente hoje… está tão intenso…
Não respondi. Apenas continuei, deixando que o ritmo nos conduzisse até o limite. Quando senti o corpo dela estremecer, ouvi o seu gemido quebrar o silêncio do quarto, e aquilo puxou-me de volta, ainda que tarde demais. Me permiti seguir junto, cheguei ao clímax com estocadas profundas, num som baixo, rouco, enquanto a culpa se misturava ao alívio.
Quando tudo terminou, permaneci imóvel por alguns segundos, respirando fundo, encarando o escuro do quarto.
Após um banho rápido, ela adormeceu, enroscada em mim, confiante.
Eu, não.
O corpo estava ali.
Mas o coração… já atravessava oceanos.







