Capítulo 6
Kayra não recuou. Se não tivessem tocado no limite de sua dignidade, ela teria até baixado ainda mais o tom em busca da cooperação.

O Grupo Nascimento tinha investido tanto no Projeto Kayles Intelligence que Kayra realmente não estava disposta a perder essa oportunidade.

Kayra endireitou a postura, e seu olhar e tom de voz tornaram-se tão calmos quanto um lago tranquilo:

— Sr. Vinicius, vim negociar com sinceridade. Por que não coloca suas condições diretamente?

Os lábios de Vinicius curvaram-se em um sorriso quase imperceptível, como se estivesse satisfeito com a aparente submissão dela. No entanto, seus olhos estavam completamente desprovidos de qualquer traço de calor:

— Minha condição é simples: você e seu filho devem pedir desculpas para Bianca e o filho dela.

Aquilo estava longe de ser uma condição. Era uma humilhação. Ele queria que ela jogasse fora sua dignidade, e, pior ainda, a dignidade de seu filho.

— Sr. Vinicius, no fim das contas, nós ainda somos uma família. — Kayra manteve o olhar calmo e até mesmo demonstrou um toque de compaixão ao encará-lo. — Seu tio se foi. Se os seus pais ou outros membros da família Nascimento estivessem aqui para ver você, em vez de cuidar de uma viúva e de seu filho, apoiar os outros para me forçar a pedir desculpas e me humilhar, você acha que eles ficariam felizes ou decepcionados?

— Família? — Vinicius soltou uma risada fria e sarcástica, encarando-a com desprezo. — Essa família Nascimento, tão nobre e unida, nunca se importou com a vida ou a morte minha e da minha mãe. Você, por outro lado, parece ter herdado bem a tradição deles: padrões morais diferentes para pessoas diferentes.

Os lábios de Kayra arquearam-se levemente, exibindo um sorriso sutil. Ele tinha razão. A família principal dos Nascimento sempre havia tratado Vinicius e sua mãe, que pertenciam a um ramo distante e secundário da família, com total descaso. Ninguém se importava com o destino de ninguém. Caso contrário, certas coisas do passado nunca teriam acontecido...

Kayra sabia que suas palavras estavam atingindo Vinicius, quebrando a frieza que ele tanto se esforçava para manter. E era exatamente isso que ela queria.

Por fim, Kayra abriu as mãos de forma despreocupada e declarou:

— Eu cheguei a pensar que você queria buscar justiça. No entanto, você não passa de mais um espectador que alimenta essa palhaçada. Já que você não tem interesse algum em colaborar, não vou insistir.

Kayra virou-se e saiu, deixando para trás apenas sua figura elegante e decidida, que desapareceu da vista de Vinicius.

Vinicius permaneceu parado, com os olhos fixos na porta que acabara de ser fechada. Uma frustração densa e incontrolável tomou conta de seu semblante. No silêncio da sala, seus dedos apertaram-se com força.

Quando entrou no carro, Kayra ordenou ao motorista que fosse direto para o hospital.

Laura, percebendo a expressão difícil de decifrar de sua chefe, perguntou com cautela:

— Sra. Kayra, o que os representantes da Sailor Investimentos disseram?

Kayra franziu as sobrancelhas e respondeu:

— Vá e entregue nossas melhores e segundas melhores propostas para as empresas concorrentes.

Era sua última cartada desesperada: transformar a proposta da empresa apoiada pela Sailor Investimentos na pior escolha possível, bagunçar o cenário e, em meio ao caos, encontrar uma nova oportunidade.

Laura ficou visivelmente preocupada ao ouvir a ordem e tentou alertá-la:

— Sra. Kayra, isso vai nos levar a uma situação de perda mútua.

Kayra levantou a mão e, com os dedos finos, massageou a têmpora dolorida. Sua voz era calma, com uma pitada de autodepreciação:

— Ainda vamos ganhar duzentos reais, não vamos?

Laura nem teve tempo de executar o plano. O celular de Kayra começou a tocar. Ela olhou para o número desconhecido na tela e atendeu.

— Alô. Aqui é Kayra.

— Sou eu, Bianca...

A voz do outro lado estava cautelosa, quase servil, completamente diferente do tom agressivo e sarcástico que ela tinha usado no hospital.

Kayra não disse nada. Ela simplesmente esperou para ver o que Bianca tinha a dizer.

Bianca, sem ouvir uma saudação de Kayra, hesitou por um momento antes de continuar, gaguejando:

— É o seguinte... Ah, você sabe como é, brincadeiras e discussões entre crianças são coisas normais, não é? Nós, como adultas, não precisamos levar isso tão a sério. Da última vez, admito que acabei falando de um jeito meio rude, mas espero que você não tenha levado isso a sério.

— Sra. Bianca, o corte na testa do meu filho precisou de quatro pontos e ele ainda está internado. Essa situação não pode ser resumida como "brincadeiras de criança". Muito menos resolvida com um simples pedido de desculpas.

A voz de Kayra não tinha qualquer variação. Não havia raiva ou emoção, apenas um tom extremamente frio, que fez Bianca sentir um frio na espinha.

— Me desculpe, de verdade! Eu perdi a cabeça e nem entendi direito o que aconteceu! Vamos fazer o seguinte: qualquer compensação que você achar necessária, nós concordaremos. Tudo do jeito que você quiser. Pode ser assim?

Bianca pediu desculpas repetidamente, com uma humildade quase exagerada. Isso fez Kayra refletir e despertar sua curiosidade.

"Por que ela está se desculpando de forma tão séria de repente? Será que perdeu o juízo?"

Bianca sentiu-se humilhada, mas, com Vinicius dando as ordens, mesmo achando que estava certa, ela não teve escolha a não ser obedecer.

— Ah... eu só agora entendi exatamente o que aconteceu, então eu... — Bianca tentou justificar-se, mas sua voz aguda e irritante era como um zumbido de mosca que deixava Kayra com dor de cabeça.

Sem paciência, Kayra levantou a mão e desligou a ligação.

Do outro lado, Bianca ficou sem reação.

Enquanto isso, Melissa não ousava interromper Vinicius durante o trabalho. Ela esperou pacientemente até que ele saísse do escritório e, assim que o viu, ela foi ao seu encontro. Seu corpo levemente curvado e o olhar para baixo transmitiam uma falsa sensação de cA voz da Melissa, trêmula e embargada, parecia cuidadosamente calculada para despertar compaixão:

— Vinicius, me desculpe. Eu não sabia que minha prima seria tão impulsiva. Achei que o que ela estava dizendo fosse verdade. Eu...

Melissa deixou escapar dois soluços suaves e seus olhos começaram a brilhar com uma camada de lágrimas:

— Eu vou conversar com ela, prometo. Por mais preocupada que ela esteja com o filho, isso não justifica...

Antes que ela pudesse terminar, Vinicius, já sem paciência, cortou suas palavras com frieza:

— Eu cuido de vocês para garantir que mantenham o mínimo de decência, não para que usem isso como desculpa para abusar da situação. Que isso não se repita.

A voz firme e cortante de Vinicius fez o coração de Melissa afundar. Ele a olhou por um breve momento, apenas para dar seu aviso, e depois seguiu rapidamente em direção à sala de reuniões, sem lhe dedicar mais nenhuma atenção.

Melissa, ainda tentando se recompor, começou a pensar na situação com mais calma. Algo estava errado. Não fazia sentido Vinicius envolver-se pessoalmente em algo tão trivial relacionado à sua prima. A menos que Kayra tivesse alguma coisa a ver com isso...

Convencida dessa ideia, Melissa decidiu confrontar Kayra. Imediatamente, ela perguntou a Bianca em qual hospital o filho de Kayra estava internado.

Pouco tempo depois, Melissa desfilava pelos corredores do hospital, os saltos altos ecoando pelo chão, enquanto segurava sua bolsa de couro de crocodilo de edição limitada. Quando chegou à porta do quarto, estendeu a mão para bater, mas foi interrompida pela voz de Kayra, que veio diretamente de suas costas:

— O que você veio fazer aqui?

Melissa virou-se rapidamente ao ouvir a voz, e seus olhos encontraram o olhar afiado e frio de Kayra. A intensidade daquele olhar fez suas mãos, que seguravam a bolsa, ficarem tensas.

— Estou muito ocupada cuidando do meu filho. Não tenho tempo para receber visitas como você. — Disse Kayra, com firmeza.

Pelo visto, Kayra realmente não a tinha reconhecido, o que deu ainda mais confiança a Melissa.

— Não vou tomar muito do seu tempo. O que tenho a dizer é simples. Você é viúva há anos e criar um filho sozinha enquanto administra o Grupo Nascimento não deve ser fácil. É natural querer encontrar alguém para apoiar você. Mas talvez você devesse ser mais realista e parar de mirar tão alto, não acha? — Melissa fez uma pausa estratégica antes de continuar. — Quanto ao que aconteceu, minha prima foi generosa em não levar o caso adiante. Mas eu sou diferente. Vinicius sempre foi muito protetor comigo e nunca aceitou que eu sofresse nenhuma injustiça. Então, é melhor você tomar cuidado.

Kayra finalmente olhou bem para Melissa, analisando-a com um olhar que misturava curiosidade e diversão:

— Tudo o que você está dizendo... Vinicius sabe disso?

Melissa ficou visivelmente desconcertada, sua expressão transformando-se em confusão:

— Sra. Kayra, eu só estou tentando ajudá-la, é um conselho de boa fé.

Kayra inclinou-se levemente para frente, reduzindo ainda mais a distância entre elas, e respondeu com a voz baixa:

— O que você deveria estar preocupada não sou eu, mas sim o motivo pelo qual você se sente tão insegura.

Kayra sorriu de forma impecável e, ao recuar, seus olhos ganharam um brilho gelado e ameaçador:

— Nós podemos muito bem seguir caminhos separados, sem interferir uma na vida da outra. Eu posso até fingir que não sei nada sobre os problemas fiscais da sua empresa ou outras coisinhas duvidosas. Mas se você ousar colocar o meu filho no meio disso de novo, eu vou garantir que você se arrependa profundamente.

O som dos saltos de couro batendo contra o piso de cerâmica ecoou pelo corredor, acompanhado pela voz gelada de Vinicius, que surgiu inesperadamente:

— O quê?
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