Capítulo 5 — As Quatro Sombras do Palácio

Do lado de fora, o deserto ainda era sombra.

Do lado de dentro, o poder nunca dormia.

Zayn Al-Mansour estava acordado havia horas.

Sentado em seu escritório particular, no lado leste do palácio, ele observava pela janela o nascimento lento do dia. A sala era ampla, cercada por estantes de madeira escura, mapas antigos emoldurados e uma mesa de mármore negro sobre a qual repousavam contratos, relatórios financeiros e uma xícara de café árabe que esfriara sem ser tocada.

Em qualquer outra manhã depois de uma recepção, Zayn estaria analisando números. Conferindo alianças. Lendo relatórios de seus hotéis, de seus investimentos, das ações de seus concorrentes. O mundo o chamava de sheikh, mas ele não era apenas herdeiro de tradição. Era um homem de negócios. Um homem que transformara o nome Al-Mansour em império moderno.

Naquela manhã, porém, havia apenas uma pasta aberta sobre sua mesa.

Layla Haddad.

O nome estava impresso na primeira folha, seco, frio, reduzido a informações.

Idade. Endereço. Filiação. Histórico profissional. O estúdio onde dava aulas. O nome da mãe. Dívidas recentes. Trabalhos anteriores. Uma vida inteira resumida por homens pagos para descobrir o que não lhes havia sido oferecido.

Zayn deveria sentir satisfação.

Informação era controle.

E controle sempre fora seu primeiro instinto.

Mas, pela primeira vez em muito tempo, ele sentiu algo parecido com irritação ao olhar para uma pasta.

Não porque ela dissesse pouco.

Porque dizia demais.

Layla Haddad deixara de ser a mulher que dançara diante dele como uma chama e se tornara uma sequência de dados. Nascida em uma família de comerciantes modestos. Pai morto havia anos. Mãe doente. Professora de dança. Contratada para eventos privados. Sem vínculos políticos. Sem proteção importante. Sem marido.

Sem marido.

Zayn pousou dois dedos sobre essa linha como se pudesse apagá-la.

Ridículo.

Ele se recostou na cadeira, fechando a pasta com mais força do que pretendia.

Não havia motivo para pensar nela.

Nenhum motivo aceitável.

Layla era uma dançarina contratada para uma noite. Uma mulher bonita, sim. Talentosa, sem dúvida. Insolente, com certeza. Mas ainda assim apenas uma mulher. Zayn conhecera muitas mulheres bonitas. Mulheres refinadas, educadas para agradar. Mulheres que sabiam sorrir quando ele entrava, calar quando ele pensava, baixar os olhos quando ele ordenava.

Layla Haddad não havia feito nenhuma dessas coisas.

E talvez fosse por isso que o rosto dela continuasse insistindo em surgir em sua mente.

O olhar verde delineado em kohl.

O sorriso desafiante.

A curva do pescoço quando girara sob as luzes do salão.

A palavra não pronunciada sem tremor diante de todos.

Não.

Zayn apertou o maxilar.

Havia homens que enlouqueciam por beleza.

Ele sempre os considerara fracos.

A beleza podia ser comprada, convidada, vestida em seda, colocada em salões e descartada ao amanhecer. Beleza era abundante no mundo em que ele vivia. O que não era abundante era resistência.

E Layla havia resistido.

Não como uma mulher querendo ser perseguida. Não como alguém fazendo jogo para aumentar o preço. Não com coqueteria treinada ou falsa inocência.

Ela havia resistido porque realmente queria ir embora.

Isso o incomodava mais do que deveria.

Uma batida discreta soou na porta.

Entre — disse Zayn.

Youssef, seu principal conselheiro, entrou com a postura rígida de sempre. Tinha pouco mais de cinquenta anos, cabelos grisalhos nas têmporas e a habilidade rara de dizer verdades difíceis sem parecer desrespeitoso. Servira ao pai de Zayn antes dele e conhecia o palácio como quem conhece um organismo vivo.

Seus olhos tocaram a pasta fechada sobre a mesa.

Ele não comentou.

Zayn percebeu.

Fale.

O café da manhã será servido no salão azul em vinte minutos. Sua mãe estará presente. Suas esposas também.

Zayn olhou para a janela.

Minha mãe pediu ou ordenou?

Com a Sheikha Farida, a diferença costuma ser decorativa.

Zayn quase sorriu.

Quase.

Youssef prosseguiu:

Ela deseja discutir a recepção de ontem.

Imagino.

E a dançarina.

O silêncio que caiu sobre a sala não veio de surpresa.

Veio de aviso.

Zayn virou lentamente o rosto para o conselheiro.

A dançarina não é assunto da minha mãe.

Com todo respeito, senhor, a partir do momento em que o senhor atravessou o salão diante de convidados importantes para falar com ela, tornou-se assunto do palácio inteiro.

Zayn não respondeu.

Porque era verdade.

E odiava verdades que não podia destruir.

Youssef manteve a voz baixa:

A primeira esposa não gostou.

Samira não gosta de muitas coisas.

Nenhuma delas gostou.

Nenhuma delas foi consultada.

O conselheiro hesitou.

Talvez esse seja o problema.

Zayn se levantou.

Não abruptamente. Zayn raramente fazia algo abruptamente. Mas a mudança foi suficiente para endurecer o ar.

O problema, Youssef, é que neste palácio todos se acostumaram a acreditar que minha vida é uma mesa de negociação.

Porque durante anos foi exatamente isso.

A resposta deveria ofendê-lo.

Não ofendeu.

Apenas cansou.

Zayn caminhou até a janela. O primeiro raio de sol surgia além das dunas, transformando a areia em ouro pálido. Ele se lembrava de ter amado aquela visão quando criança. Antes dos contratos. Antes das alianças. Antes das esposas. Antes de aprender que nascer Al-Mansour significava pertencer a todos, menos a si mesmo.

Minha mãe quer falar sobre ontem — disse ele.

Sim.

Então falaremos sobre ontem.

Youssef inclinou a cabeça.

Há mais uma coisa.

Zayn esperou.

O cartão que o senhor enviou à senhorita Haddad foi recusado.

Algo em Zayn ficou imóvel.

Recusado.

Ela disse que não aceita cartões de homens casados.

A frase se instalou no escritório.

Youssef teve a prudência de olhar para baixo.

Zayn deveria sentir raiva. Deveria achar insolente. Deveria ordenar que a mulher fosse esquecida, apagada, colocada de volta no lugar irrelevante de onde viera.

Mas o que sentiu foi muito pior.

Interesse.

Um interesse profundo, incômodo, quase físico.

Layla Haddad não apenas havia dito não em público. Ela também havia recusado a possibilidade de chamá-lo em privado. Recusara o caminho que tantas outras aceitariam sem hesitar. O dinheiro dobrado, o cartão, a chance de se aproximar do homem mais poderoso do país.

Ela rejeitara tudo.

E, ao fazê-lo, tornara-se a única coisa que Zayn não conseguia afastar da mente.

Pode ir — disse ele.

Youssef permaneceu um instante a mais.

Senhor, com respeito: mulheres como ela podem parecer simples, mas complicam palácios inteiros.

Zayn virou-se.

Mulheres como ela?

Youssef escolheu as palavras com cuidado.

Mulheres que não desejam o que o senhor pode oferecer.

Zayn não respondeu.

Porque, novamente, era verdade.

E porque aquilo o atingia de um modo que ele não estava disposto a examinar.

O salão azul do palácio era usado para refeições familiares formais. Não era o maior nem o mais luxuoso, mas talvez por isso fosse ainda mais perigoso. Ali não havia ministros estrangeiros, investidores ou câmeras. Ali, as guerras eram travadas com xícaras de café, tâmaras recheadas e frases ditas com delicadeza suficiente para cortar sem deixar sangue visível.

Quando Zayn entrou, todos já estavam sentados.

Sua mãe ocupava a cabeceira, embora aquela fosse tecnicamente a posição dele. Sheikha Farida Al-Mansour era uma mulher de idade indefinida, com beleza severa e olhos capazes de fazer criados desaparecerem sem que ela levantasse a voz. Vestia uma abaya negra bordada com fios de prata e usava apenas uma joia: um anel antigo de safira que pertencera à avó de Zayn.

Farida não precisava de ostentação.

Ela era a ostentação.

À direita dela estava Samira, a primeira esposa de Zayn.

Samira Al-Mansour era impecável de um modo quase cruel. Tinha trinta e poucos anos, rosto oval, olhos escuros e uma elegância que jamais parecia acidental. Nascera em uma família influente, filha de um homem que controlava boa parte das relações políticas do norte. O casamento dela com Zayn havia estabilizado um acordo que poderia ter terminado em guerra silenciosa entre clãs.

Ela sabia disso.

Todos sabiam.

Por isso, Samira nunca pedia espaço.

Ela o ocupava.

Ao lado dela estava Nadine, a segunda esposa. Mais doce à primeira vista, mais perigosa depois do segundo olhar. Nadine sorria como quem perdoava o mundo, mas Zayn aprendera cedo que ela colecionava informações da mesma forma que outras mulheres colecionavam joias. Filha de banqueiros, educada em Londres, falava quatro idiomas e jamais esquecia uma humilhação.

Do outro lado da mesa, Aisha, a terceira, mexia no café sem beber. Era a mais jovem das quatro, filha de uma família ligada à imprensa e aos círculos culturais. Bonita, inquieta, vaidosa, ressentida. Seu casamento com Zayn havia sido arranjado para encerrar uma crise de reputação. Ela jamais o perdoara por não fingir melhor que a desejava.

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