Mundo de ficçãoIniciar sessãoLayla odiou o fato de notar isso.
Odiou ainda mais o fato de seu corpo reagir antes de sua razão. Um arrepio percorreu sua pele nua sob os véus. Não de medo. Não exatamente.
De alerta.
Zayn chegou ao centro da área reservada. As quatro esposas se ergueram quase ao mesmo tempo. Ele as cumprimentou com formalidade, sem tocar nenhuma além do necessário. Um gesto para a primeira, uma palavra para a segunda, um olhar breve para a terceira, uma inclinação para a quarta.
Nada de ternura.
Nada de calor.
Casamentos sem amor, pensou Layla.
E talvez por isso aquele homem parecesse tão vazio.
Um funcionário se aproximou dela.
— Senhorita Haddad, sua apresentação será agora.
Samira apertou sua mão.
— Dança e sai. Não olhe para ele.
Layla soltou uma risada baixa.
— Agora você me diz isso?
— Estou falando sério.
Layla ajeitou o véu translúcido preso aos pulsos.
— Eu também.
Mas, quando pisou no centro do salão, soube que seria impossível não olhar.
Os convidados abriram espaço. As luzes diminuíram. O som do derbak começou suave, marcado por batidas lentas, quase como um coração acordando. Um qanun respondeu com notas delicadas, serpenteando pelo ar. Depois veio o ney, triste e profundo, fazendo o salão parecer maior, mais antigo, mais íntimo.
Layla fechou os olhos.
Naquele instante, ela deixou de ser a mulher preocupada com contas, com a mãe, com a amiga nervosa à beira do salão.
Naquele instante, ela era apenas música.
O primeiro movimento foi sutil. Um deslizar de braço. Um giro de pulso. O véu vermelho acompanhou seus dedos como fumaça. Seu quadril marcou a batida em pequenos acentos controlados, quase invisíveis, enquanto seus pés descalços tocavam o tapete com leveza.
Ela sentiu os olhares.
Conhecia olhares.
Olhares curiosos. Olhares críticos. Olhares cobiçosos.
Mas havia um olhar diferente.
Pesado.
Imóvel.
Como uma mão nas costas.
Layla abriu os olhos.
Zayn a observava.
Não como os outros homens observavam.
Não havia sorriso em seu rosto. Nenhuma vulgaridade. Nenhuma pressa. Seu olhar não passeava por seu corpo como se ela fosse mercadoria; ele a estudava como se tentasse compreender um idioma esquecido. Isso, de alguma forma, era mais perigoso.
Layla girou, desviando a atenção dele. Os sinos em sua cintura tilintaram. O véu subiu em arco e caiu sobre seus ombros. A música ganhou ritmo. O derbak acelerou. Palmas surgiram entre os convidados.
Ela dançou para todos.
Mas sentiu que a noite inteira se estreitava até existir apenas aquele homem sentado em silêncio.
Layla mudou a energia. Sorriu, mas não docemente. Seu sorriso tinha desafio. Ergueu o queixo, abriu os braços, deixou os cabelos se moverem em uma curva escura. Fez o quadril vibrar em um shimmy preciso, rápido, arrancando murmúrios admirados do salão. Depois recuou um passo, virou o rosto, cobriu parte da face com o véu e olhou por cima dele.
Direto para Zayn.
Foi um erro.
O ar entre eles pareceu se incendiar.
Por um segundo, o salão desapareceu.
Layla viu apenas o modo como os dedos dele se fecharam lentamente sobre o braço da cadeira. O maxilar rígido. A atenção cortante. Não era um homem encantado por uma dançarina. Era um homem que acabara de encontrar algo que não esperava desejar.
E isso a irritou.
Porque uma parte dela, a parte mais imprudente, mais feminina, mais viva, gostou.
Layla voltou a girar, mais rápido agora. O véu vermelho rodopiou ao seu redor, ocultando e revelando. Seus movimentos contavam uma história antiga: convite, recusa, fuga, retorno. A dança do ventre, quando feita de verdade, não era oferecimento. Era domínio. Era uma mulher governando cada músculo, cada pausa, cada olhar. Era poder disfarçado de beleza.
Ela dançava desde criança. Havia aprendido com a mãe que o corpo de uma mulher podia ser oração, celebração e arma. Naquela noite, diante do sheikh mais poderoso do país, Layla escolheu que fosse arma.
A música subiu.
Ela se ajoelhou em um movimento fluido, inclinou o tronco para trás, os cabelos quase tocando o tapete, os braços abertos como asas. Depois ergueu-se lentamente, vértebra por vértebra, sob aplausos crescentes.
Quando a última batida soou, Layla ficou imóvel.
O salão explodiu em palmas.
Mas Zayn Al-Mansour não aplaudiu.
Ele continuou sentado.
Observando.
A ausência daquele gesto foi mais perturbadora do que qualquer aplauso.
Layla respirava fundo, o peito subindo e descendo sob o bordado dourado. Inclinou a cabeça em agradecimento aos convidados, depois aos músicos. Por fim, por protocolo, voltou-se para o anfitrião.
Seus olhos encontraram os dele.
Zayn se levantou.
O salão diminuiu.
Não de tamanho, mas de som. As conversas morreram aos poucos. Alguns convidados trocaram olhares rápidos. As quatro esposas se voltaram na direção dele.
Layla percebeu, com uma pontada de alarme, que aquele não era um gesto comum.
Zayn desceu os poucos degraus da área reservada e caminhou até ela.
Devagar.
Cada passo parecia calculado para lembrar a todos quem mandava ali.
Layla teve vontade de recuar.
Não recuou.
Ele parou diante dela, perto o suficiente para que ela sentisse o perfume de sua pele: oud, âmbar, algo seco e masculino, como madeira aquecida pelo sol.
— Qual é o seu nome? — perguntou ele em árabe.
A voz era baixa.
Grave.
Não precisava ser alta para ser obedecida.
Layla sustentou seu olhar.
— Layla Haddad.
Algo passou pelo rosto dele. Rápido demais para ser entendido.
— Layla — repetiu ele, como se testasse o nome na língua.
Ela não gostou da forma como soou. Íntimo. Possessivo. Como se uma palavra bastasse para aproximá-los.
— Sheikh Al-Mansour — respondeu ela, formal.
A sobrancelha dele se ergueu quase imperceptivelmente.
— Você sabe quem eu sou.
— Todos neste salão sabem.
— E isso a incomoda?
Layla ouviu um leve engasgo atrás de si. Talvez Samira. Talvez algum servo horrorizado com a possibilidade de uma dançarina responder mal ao sheikh.
Ela deveria sorrir. Abaixar os olhos. Dizer algo lisonjeiro.
Não conseguiu.
— Não costumo me incomodar com nomes, senhor. Apenas com atitudes.
O silêncio veio tão rápido que pareceu uma porta se fechando.
Zayn olhou para ela.
De verdade agora.
E Layla sentiu, com uma clareza incômoda, que tinha acabado de cometer outro erro.
Não por tê-lo ofendido.
Mas por tê-lo interessado.
A boca dele não sorriu. Ainda assim, algo em seus olhos mudou. Uma sombra de curiosidade. Um lampejo de diversão perigosa.
— Atitudes — ele repetiu.
— Sim.
— E que atitude minha a incomodou, Layla Haddad?
Ela poderia ter recuado.
Deveria ter recuado.
Mas havia algo no modo como ele pronunciava seu nome que a fazia querer empurrá-lo para longe e, ao mesmo tempo, descobrir se aquele controle absoluto racharia sob pressão.
— Ainda nenhuma — disse ela. — A noite não terminou.
Alguns convidados desviaram o olhar, como se temessem testemunhar uma execução social.
Zayn permaneceu imóvel.
Então, para surpresa dela, inclinou a cabeça.
— Uma resposta honesta.
— Prefere mentiras?
— Estou cercado por elas.
A frase foi dita sem emoção, mas atingiu Layla de maneira inesperada.
Por um instante, ela viu além do homem poderoso. Viu a rigidez. O cansaço oculto. O isolamento de alguém que possuía tudo, exceto liberdade.
Então se lembrou das quatro mulheres sentadas atrás dele.
E endureceu.
— Talvez porque homens poderosos obriguem as pessoas a mentir para sobreviver.
Dessa vez, o olhar dele escureceu.
Não de raiva.
De atenção.
Como se Layla tivesse colocado a mão sobre uma ferida antiga.







