Capítulo 3 — A Mulher que Disse Não

Zayn se aproximou meio passo. Não a tocou. Ainda assim, Layla sentiu como se ele tivesse invadido seu espaço de maneira irreversível.

Fique para o jantar — ordenou.

Não perguntou.

Ordenou.

E foi exatamente isso que salvou Layla da própria fraqueza.

O encanto perigoso se quebrou.

Ela ergueu o queixo.

Não.

A palavra saiu clara.

Limpa.

No salão, alguém deixou cair um talher.

Zayn ficou parado.

Pela primeira vez desde que o vira descer as escadas, Layla percebeu uma fissura em sua expressão. Pequena, quase invisível, mas real.

Ele não estava acostumado a ouvir não.

Principalmente de uma mulher como ela.

Principalmente diante de todos.

Não? — repetiu ele.

Minha apresentação terminou. Tenho outro compromisso.

Mentira.

Samira provavelmente estava quase desmaiando em algum canto.

Cancele.

Layla sorriu sem humor.

O senhor sempre fala como se o mundo obedecesse?

Normalmente, obedece.

Que pena.

Os olhos dele se estreitaram.

Pena?

Deve ser entediante.

A tensão entre eles se tornou quase palpável. Layla ouviu o próprio coração. Ouviu o som da fonte distante. Ouviu um murmúrio entre os convidados ser rapidamente engolido.

As quatro esposas observavam.

Layla sentiu o olhar da primeira como uma lâmina nas costas.

Zayn também devia sentir. Mas não pareceu se importar.

Você tem coragem — disse ele.

Tenho contas a pagar, uma mãe doente e pouco tempo para homens arrogantes. Chame como quiser.

Assim que terminou de falar, Layla se arrependeu de ter mencionado a mãe. Era informação demais. Fraqueza demais. E homens como Zayn sabiam farejar fraquezas.

O olhar dele mudou de novo.

Mais profundo.

Mais perigoso.

Sua mãe está doente?

Layla fechou o rosto.

Isso não lhe diz respeito.

Tudo dentro do meu palácio me diz respeito.

Então é bom que eu vá embora.

Ela fez uma reverência breve, mais educada do que submissa, e se virou antes que ele pudesse responder.

Cada passo até Samira pareceu longo demais. O salão ainda estava silencioso. Layla sentia a pele queimando, como se tivesse dançado sob o sol em vez de sob lustres de cristal.

Samira a agarrou pelo braço.

Você enlouqueceu?

Depois você grita comigo.

Ele vai mandar nos prender.

Não seja dramática.

Você disse não para Zayn Al-Mansour na frente da família dele, dos convidados dele e das esposas dele.

Layla engoliu seco.

Talvez um pouco de drama seja aceitável.

Elas seguiram um funcionário por um corredor lateral. Layla esperava ser levada à saída, mas o homem parou diante de uma pequena sala revestida de madeira escura.

Aguardem aqui — disse ele.

Layla estreitou os olhos.

Por quê?

Suas coisas serão trazidas.

Minhas coisas estão comigo.

O funcionário não respondeu. Apenas inclinou a cabeça e se afastou.

Samira soltou um gemido.

Estamos mortas.

Layla abriu a porta da sala e entrou. Era uma espécie de antessala, com sofás baixos, uma mesa com tâmaras e chá, tapeçarias nas paredes e uma janela arqueada que dava para um jardim iluminado. Bonita demais para uma prisão. Fechada demais para ser apenas espera.

Ela caminhou até a janela.

Lá fora, o jardim interno era banhado por lanternas. A água corria por canais estreitos entre roseiras e jasmins. Além dos muros do pátio, o deserto parecia infinito e negro.

Vamos sair — disse Layla.

Como?

Pela porta.

Ela tentou.

Trancada.

Samira levou as mãos à cabeça.

Eu sabia. Eu sabia. Eu disse para não provocá-lo.

Layla puxou a maçaneta de novo.

Nada.

O medo tentou subir por sua garganta, mas ela o empurrou para baixo. Pânico não ajudava. Raiva ajudava mais.

Ele não vai me manter presa aqui.

Ele é Zayn Al-Mansour. Ele pode comprar o prédio onde você mora e mandar demolir antes do café da manhã.

Ele não me comprou.

A frase ainda estava no ar quando a porta se abriu.

Zayn entrou sozinho.

Samira deu um passo para trás tão rápido que quase tropeçou no tapete. Layla permaneceu junto à janela.

A porta se fechou atrás dele.

Sem guardas.

Sem criados.

Sem testemunhas.

Isso deveria assustá-la mais do que assustou.

Zayn não olhou para Samira. Toda sua atenção estava em Layla.

Sua amiga pode esperar do lado de fora.

Minha amiga fica.

Ele finalmente olhou para Samira.

Não disse nada.

Não precisou.

Samira empalideceu.

Layla tocou o braço dela.

Está tudo bem.

Não está.

Samira.

A amiga a encarou, angustiada, depois olhou para Zayn e pareceu decidir que discutir com um homem daquele não estava nos seus planos de sobrevivência. Saiu, mas deixou um olhar claro para Layla: eu vou te matar se ele não matar primeiro.

A porta se fechou outra vez.

Layla e Zayn ficaram sozinhos.

O silêncio cresceu entre eles.

Trancar portas é uma tradição da sua família? — ela perguntou.

Proteção.

Parece prisão.

Depende de quem está do lado de dentro.

Layla cruzou os braços, consciente demais da pele exposta, do traje de dança, do modo como o olhar dele evitava descer para seu corpo. Curiosamente, isso a deixava mais exposta, não menos.

Se veio exigir desculpas, está perdendo tempo.

Eu não exijo desculpas.

Não?

Eu as recebo.

Layla soltou uma risada curta.

Então esta noite será decepcionante.

Zayn caminhou até a mesa e serviu chá em uma xícara pequena. O gesto era tranquilo, quase doméstico, mas nada nele parecia suave.

Você sempre fala assim com homens que podem arruinar sua vida?

Apenas com os que parecem precisar ouvir.

Ele segurou a xícara, mas não bebeu.

Você me acha arrogante.

Acho que o senhor sabe que é.

E ainda assim não tem medo.

Layla hesitou.

Era mentira dizer que não tinha. Havia medo, sim. Medo do poder dele. Do palácio. Das consequências. Da forma como ele a observava como se já tivesse decidido que ela importava.

Mas havia também outra coisa.

Atração.

Essa era a parte imperdoável.

Tenho medo de muitas coisas, Sheikh Al-Mansour. Homens ricos não estão no topo da lista.

O que está?

Perder minha liberdade.

Ele ficou imóvel.

Por um instante, a palavra pareceu atravessá-lo.

Liberdade.

Layla notou. Guardou.

Então somos diferentes — ele disse.

Porque o senhor nunca perdeu a sua?

Os olhos dele voltaram aos dela.

Porque eu nunca a tive.

A resposta a desarmou.

Não deveria.

Ela não queria sentir curiosidade. Não queria enxergar humanidade nele. Era mais fácil pensar em Zayn Al-Mansour como um tirano cercado por esposas e ouro. Um homem frio. Um perigo simples.

Mas ele não era simples.

E isso era um problema.

Homens como o senhor sempre dizem isso — ela murmurou. — Como se riqueza e poder também fossem correntes.

Às vezes são.

Correntes de ouro ainda compram muita coisa.

Não o que importa.

Layla desviou o olhar primeiro.

O jardim parecia mais seguro.

Por que me chamou aqui?

Porque quero saber quem é você.

Ela riu sem humor.

Sou uma dançarina que o senhor contratou para uma noite.

Não.

A firmeza da resposta fez seu pulso acelerar.

Não?

Você é uma mulher que disse não para mim diante de cem pessoas e depois saiu como se tivesse vencido uma guerra.

Talvez eu tenha vencido uma batalha pequena.

Talvez tenha começado uma maior.

Layla encarou-o.

A ameaça estava ali. Mas havia outra coisa misturada nela. Uma promessa. Um desafio.

Não quero guerra com o senhor.

Então por que me desafiou?

Porque o senhor me ordenou ficar.

Muitos ficariam honrados.

Eu não sou muitos.

Pela primeira vez, Zayn sorriu.

Não foi um sorriso aberto. Foi quase nada. Uma curva mínima no canto da boca.

Ainda assim, transformou o rosto dele de uma maneira perigosa.

Layla sentiu o impacto no estômago.

Aquele homem não deveria sorrir.

Era mais seguro quando parecia feito de pedra.

Não — ele disse. — Você definitivamente não é.

O silêncio que veio depois não era vazio. Era cheio demais. Layla sentiu a distância entre os dois como algo instável. Ele estava perto da mesa; ela, junto à janela. Mesmo assim, parecia que qualquer movimento poderia encurtar o espaço de maneira irreversível.

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