Mundo de ficçãoIniciar sessãoZayn se aproximou meio passo. Não a tocou. Ainda assim, Layla sentiu como se ele tivesse invadido seu espaço de maneira irreversível.
— Fique para o jantar — ordenou.
Não perguntou.
Ordenou.
E foi exatamente isso que salvou Layla da própria fraqueza.
O encanto perigoso se quebrou.
Ela ergueu o queixo.
— Não.
A palavra saiu clara.
Limpa.
No salão, alguém deixou cair um talher.
Zayn ficou parado.
Pela primeira vez desde que o vira descer as escadas, Layla percebeu uma fissura em sua expressão. Pequena, quase invisível, mas real.
Ele não estava acostumado a ouvir não.
Principalmente de uma mulher como ela.
Principalmente diante de todos.
— Não? — repetiu ele.
— Minha apresentação terminou. Tenho outro compromisso.
Mentira.
Samira provavelmente estava quase desmaiando em algum canto.
— Cancele.
Layla sorriu sem humor.
— O senhor sempre fala como se o mundo obedecesse?
— Normalmente, obedece.
— Que pena.
Os olhos dele se estreitaram.
— Pena?
— Deve ser entediante.
A tensão entre eles se tornou quase palpável. Layla ouviu o próprio coração. Ouviu o som da fonte distante. Ouviu um murmúrio entre os convidados ser rapidamente engolido.
As quatro esposas observavam.
Layla sentiu o olhar da primeira como uma lâmina nas costas.
Zayn também devia sentir. Mas não pareceu se importar.
— Você tem coragem — disse ele.
— Tenho contas a pagar, uma mãe doente e pouco tempo para homens arrogantes. Chame como quiser.
Assim que terminou de falar, Layla se arrependeu de ter mencionado a mãe. Era informação demais. Fraqueza demais. E homens como Zayn sabiam farejar fraquezas.
O olhar dele mudou de novo.
Mais profundo.
Mais perigoso.
— Sua mãe está doente?
Layla fechou o rosto.
— Isso não lhe diz respeito.
— Tudo dentro do meu palácio me diz respeito.
— Então é bom que eu vá embora.
Ela fez uma reverência breve, mais educada do que submissa, e se virou antes que ele pudesse responder.
Cada passo até Samira pareceu longo demais. O salão ainda estava silencioso. Layla sentia a pele queimando, como se tivesse dançado sob o sol em vez de sob lustres de cristal.
Samira a agarrou pelo braço.
— Você enlouqueceu?
— Depois você grita comigo.
— Ele vai mandar nos prender.
— Não seja dramática.
— Você disse não para Zayn Al-Mansour na frente da família dele, dos convidados dele e das esposas dele.
Layla engoliu seco.
— Talvez um pouco de drama seja aceitável.
Elas seguiram um funcionário por um corredor lateral. Layla esperava ser levada à saída, mas o homem parou diante de uma pequena sala revestida de madeira escura.
— Aguardem aqui — disse ele.
Layla estreitou os olhos.
— Por quê?
— Suas coisas serão trazidas.
— Minhas coisas estão comigo.
O funcionário não respondeu. Apenas inclinou a cabeça e se afastou.
Samira soltou um gemido.
— Estamos mortas.
Layla abriu a porta da sala e entrou. Era uma espécie de antessala, com sofás baixos, uma mesa com tâmaras e chá, tapeçarias nas paredes e uma janela arqueada que dava para um jardim iluminado. Bonita demais para uma prisão. Fechada demais para ser apenas espera.
Ela caminhou até a janela.
Lá fora, o jardim interno era banhado por lanternas. A água corria por canais estreitos entre roseiras e jasmins. Além dos muros do pátio, o deserto parecia infinito e negro.
— Vamos sair — disse Layla.
— Como?
— Pela porta.
Ela tentou.
Trancada.
Samira levou as mãos à cabeça.
— Eu sabia. Eu sabia. Eu disse para não provocá-lo.
Layla puxou a maçaneta de novo.
Nada.
O medo tentou subir por sua garganta, mas ela o empurrou para baixo. Pânico não ajudava. Raiva ajudava mais.
— Ele não vai me manter presa aqui.
— Ele é Zayn Al-Mansour. Ele pode comprar o prédio onde você mora e mandar demolir antes do café da manhã.
— Ele não me comprou.
A frase ainda estava no ar quando a porta se abriu.
Zayn entrou sozinho.
Samira deu um passo para trás tão rápido que quase tropeçou no tapete. Layla permaneceu junto à janela.
A porta se fechou atrás dele.
Sem guardas.
Sem criados.
Sem testemunhas.
Isso deveria assustá-la mais do que assustou.
Zayn não olhou para Samira. Toda sua atenção estava em Layla.
— Sua amiga pode esperar do lado de fora.
— Minha amiga fica.
Ele finalmente olhou para Samira.
Não disse nada.
Não precisou.
Samira empalideceu.
Layla tocou o braço dela.
— Está tudo bem.
— Não está.
— Samira.
A amiga a encarou, angustiada, depois olhou para Zayn e pareceu decidir que discutir com um homem daquele não estava nos seus planos de sobrevivência. Saiu, mas deixou um olhar claro para Layla: eu vou te matar se ele não matar primeiro.
A porta se fechou outra vez.
Layla e Zayn ficaram sozinhos.
O silêncio cresceu entre eles.
— Trancar portas é uma tradição da sua família? — ela perguntou.
— Proteção.
— Parece prisão.
— Depende de quem está do lado de dentro.
Layla cruzou os braços, consciente demais da pele exposta, do traje de dança, do modo como o olhar dele evitava descer para seu corpo. Curiosamente, isso a deixava mais exposta, não menos.
— Se veio exigir desculpas, está perdendo tempo.
— Eu não exijo desculpas.
— Não?
— Eu as recebo.
Layla soltou uma risada curta.
— Então esta noite será decepcionante.
Zayn caminhou até a mesa e serviu chá em uma xícara pequena. O gesto era tranquilo, quase doméstico, mas nada nele parecia suave.
— Você sempre fala assim com homens que podem arruinar sua vida?
— Apenas com os que parecem precisar ouvir.
Ele segurou a xícara, mas não bebeu.
— Você me acha arrogante.
— Acho que o senhor sabe que é.
— E ainda assim não tem medo.
Layla hesitou.
Era mentira dizer que não tinha. Havia medo, sim. Medo do poder dele. Do palácio. Das consequências. Da forma como ele a observava como se já tivesse decidido que ela importava.
Mas havia também outra coisa.
Atração.
Essa era a parte imperdoável.
— Tenho medo de muitas coisas, Sheikh Al-Mansour. Homens ricos não estão no topo da lista.
— O que está?
— Perder minha liberdade.
Ele ficou imóvel.
Por um instante, a palavra pareceu atravessá-lo.
Liberdade.
Layla notou. Guardou.
— Então somos diferentes — ele disse.
— Porque o senhor nunca perdeu a sua?
Os olhos dele voltaram aos dela.
— Porque eu nunca a tive.
A resposta a desarmou.
Não deveria.
Ela não queria sentir curiosidade. Não queria enxergar humanidade nele. Era mais fácil pensar em Zayn Al-Mansour como um tirano cercado por esposas e ouro. Um homem frio. Um perigo simples.
Mas ele não era simples.
E isso era um problema.
— Homens como o senhor sempre dizem isso — ela murmurou. — Como se riqueza e poder também fossem correntes.
— Às vezes são.
— Correntes de ouro ainda compram muita coisa.
— Não o que importa.
Layla desviou o olhar primeiro.
O jardim parecia mais seguro.
— Por que me chamou aqui?
— Porque quero saber quem é você.
Ela riu sem humor.
— Sou uma dançarina que o senhor contratou para uma noite.
— Não.
A firmeza da resposta fez seu pulso acelerar.
— Não?
— Você é uma mulher que disse não para mim diante de cem pessoas e depois saiu como se tivesse vencido uma guerra.
— Talvez eu tenha vencido uma batalha pequena.
— Talvez tenha começado uma maior.
Layla encarou-o.
A ameaça estava ali. Mas havia outra coisa misturada nela. Uma promessa. Um desafio.
— Não quero guerra com o senhor.
— Então por que me desafiou?
— Porque o senhor me ordenou ficar.
— Muitos ficariam honrados.
— Eu não sou muitos.
Pela primeira vez, Zayn sorriu.
Não foi um sorriso aberto. Foi quase nada. Uma curva mínima no canto da boca.
Ainda assim, transformou o rosto dele de uma maneira perigosa.
Layla sentiu o impacto no estômago.
Aquele homem não deveria sorrir.
Era mais seguro quando parecia feito de pedra.
— Não — ele disse. — Você definitivamente não é.
O silêncio que veio depois não era vazio. Era cheio demais. Layla sentiu a distância entre os dois como algo instável. Ele estava perto da mesa; ela, junto à janela. Mesmo assim, parecia que qualquer movimento poderia encurtar o espaço de maneira irreversível.







