Isadora
A luz da manhã de 11 de setembro não carregava peso. Não havia aquela sensação de ressaca emocional, nem o luto silencioso que eu aprendera a reconhecer. Era uma claridade tranquila, quase respeitosa, que desenhava sombras suaves no quarto e iluminava o rosto de Rafael ainda adormecido ao meu lado.
Observei-o por alguns instantes. O maxilar relaxado, a respiração profunda, o vinco entre as sobrancelhas finalmente ausente. O homem que o mercado temia, que conselhos administrativos respeitavam, dormia como alguém que, pela primeira vez em muito tempo, não precisava vigiar o próprio mundo.
Levantei-me devagar, evitando acordá-lo, e segui para a cozinha. Mariana já estava lá, impecável como sempre, tomando café como se aquele fosse apenas mais um dia — embora o brilho atento em seus olhos entregasse que não era.
— Bom dia, aniversariante — disse, erguendo a xícara em um brinde silencioso. — Ou devo dizer… senhora Vaz definitiva?
Revirei os olhos, sentando-me à mesa.
— Não co