3

Sienna Blake

No dia seguinte, chego à casa do Senhor Black para começar o primeiro dia de trabalho e conhecer as crianças que eu iria cuidar.

À primeira vista, já dá para ver que a casa é enorme, com um muro gigantesco, mas o portão é de grade, então dá para ver o lado de dentro.

Aperto o interfone da casa, e logo alguém responde. Pela voz que sai dele, percebo que é a senhora Helen. Apresento-me como a nova babá e, segundos depois, avisto sua figura de longe saindo da casa, e o portão sendo aberto. Sou recepcionada com um sorriso gentil no rosto dela.

— Bom dia, Sienna.

Sorrio amigavelmente, passando um fio do meu cabelo cacheado para trás.

Talvez eu esteja um pouco nervosa, as primeiras vezes são sempre ruins, ainda mais quando se trata de trabalho. Serão novos desconhecidos com os quais eu teria que me adaptar. Antes, eu tinha uma rotina estabelecida e agora tenho que estabelecer outra e me adequar a cuidar de três crianças ao mesmo tempo. É meio desafiador.

— Bom dia, senhora Black — cumprimento-a educadamente.

— Hoje você irá conhecer as crianças, e eu passarei o dia com você para ajudá-la, mostrando a rotina de cada uma. O meu filho está de viagem e vai chegar só à noite, então agora não terá como apresentá-lo, mas acho que, quando ele chegar, ainda estarei aqui — comenta, e eu assinto com a cabeça enquanto caminhamos para a entrada da casa enorme.

Não me surpreendo nem um pouco com a riqueza de tudo, até porque, para um dono de uma construtora, a casa estava bem no nível exigido.

Adentramos a casa e a senhora Helen aproveita para apresentar os cômodos à medida que caminhamos, até chegarmos à cozinha. Ali, sentados à mesa, estão as três crianças que eu cuidarei. Elas nem notam a nossa presença.

A garota mais velha está sentada com os cotovelos sobre a mesa, mal tocando no seu sanduíche, parecendo entediada demais com o celular. Ela me chama muito a atenção com suas roupas no estilo roqueira. Embora esteja com um uniforme do colégio, veste uma jaqueta preta por cima. Os cabelos castanhos escuros e lisos têm algumas mechas pintadas de vermelho, e uma franja que a deixa bem fofa, se não fosse pelo piercing no nariz. Faz jus à garota rebelde de 15 anos. Ela lembra os meus tempos de caos da adolescência.

E, sentado ao lado dela, o garoto de 7 anos, cabelos castanhos como os da irmã, embora o dele seja ondulado nas pontas. A mesma cor de pele bronzeada fazia caretas para o irmão de 3 anos, sentado em uma cadeira de alimentação. Ele é completamente o oposto dos irmãos: cabelo loiro, com cachos fofos e olhos castanho-claros. Deve ser o mais comportado daqui.

— Crianças — Helen chama a atenção deles para nós, e eles se viram imediatamente. A mais velha com uma expressão entediante, o do meio curioso, e o mais novo apenas nos encara. — Essa é Sienna, a nova babá de vocês — apresenta.

Os dois mais velhos franzem as narinas na mesma hora, me medindo de cima a baixo.

— Nova babá, aff... ninguém merece — resmunga a garota.

Já estou percebendo que não será nada fácil.

Pensa no dinheiro, Sienna, e na hipoteca que você tem que pagar, digo a mim mesma, forçando um sorriso.

Helen balança a cabeça e repreende a garota com um olhar, então se volta para mim.

— Como pode ver, essa é Harper — diz ela. A menina revira os olhos e volta a se concentrar no seu celular. — Esse é o Miles — aponta para o menino mais velho, que me lança um sorriso travesso como se estivesse tramando algo. — E esse é o Noah — ela pega o menino no colo, e percebo o quanto ele é quieto. — O Noah não é de falar muito e demora a ter confiança nos outros — informa, e sorri para o garotinho, embora ele me olhasse com a cara séria. Estendo a mão para tocá-lo, mas, no mesmo instante, ele recua, escondendo o rosto no ombro da avó. — Logo você consegue a confiança dele — finaliza Helen com uma piscadela.

Faço que sim, afinal, que opções eu tenho? Teria que conquistar essa criança de algum jeito.

— Bom dia, crianças, espero que nos demos bem — os cumprimento com um sorriso que espero ser amigável, olhando para cada um. Harper revira os olhos em desdém de novo.

— Eu não sou criança — rebate irritada, quase como um rosnado, franzindo as sobrancelhas. Essa será difícil mesmo.

— Tenho 15 anos — pontua ela. Assinto, até porque eu não irei discutir com uma adolescente. Sei exatamente que não é uma criança, mas também não é nenhuma adulta. Nessa idade, eu era do mesmo jeito.

— Tudo bem — falo, tentando não me abalar com o seu olhar matador.

— Ok, então vamos lá para cima. Vou te mostrar o seu quarto, e quando chegarmos da escola, eu termino de apresentar a casa — sugere Helen. Concordo com a cabeça, a seguindo enquanto ela carrega o pequeno Noah agarrado à sua cintura.

Subimos as escadas até o corredor. Dali, ela me leva até onde será o meu quarto. O cômodo é com móveis caros, uma cama de casal, janelas bem ventiladas com uma pequena varanda, e há um banheiro também. É muito aconchegante.

— E você pode arrumar as coisas do seu agrado — comenta ela.

Faço que sim, sorrindo para ela.

— Depois eu pego as coisas no carro e coloco aqui — aviso.

— Certo, bom, agora já está na hora de levá-las para a escola — anuncia.

— Babá — a voz que chama é de Miles, um pouco empolgado. Viro-me para o garoto com as sobrancelhas erguidas.

— Oi?

— Você pode me ajudar a procurar o meu moletom no meu quarto, por favor? — pede ele, com os olhos brilhando, dando um leve olhar de relance para Helen, que assente.

Sigo o garoto até o quarto dele.

Ele me faz entrar primeiro, e só depois daquele segundo entendo que caí em uma armadilha bem planejada. Assim que um jato de água cai de cima da porta, vindo direto em mim, molhando-me por inteira. Eu entreabro a boca, quase tendo um surto, limpando o meu rosto molhado, enquanto o menino ri como um doido, se divertindo com a minha cara.

Paciência, Sienna, murmuro para mim mesma, quase sem fôlego.

— Bem-vinda, babazinha — zomba o menino.

— Miles! — Helen repreende o garoto assim que entra no quarto, vendo meu estado caótico.

Assim que termino de trocar de roupa, depois do banho que tomei, entro no carro que já está com Helen no banco do passageiro, e o restante atrás. Me sento no banco do motorista e faço a coisa toda funcionar com a orientação dela.

O caminho é uma turbulência. Miles fica atazanando a irmã com uma arma de brinquedo que solta água.

— Vó, manda ele parar! — Harper resmunga.

A senhora Helen passa a mão no rosto, suspirando. Deve passar por isso todos os dias, nem dá importância.

Pelo retrovisor, vejo que Harper dá um chute de leve no irmão, que retruca do mesmo jeito, e assim é o caminho todo, até finalmente deixá-la em frente à escola.

— Tchau, boa aula — Helen se despede da garota, que a única coisa que faz é bater a porta com força e sair, sem nem olhar para trás. E bem nesse momento, sinto um jato de água no meu rosto: Miles.

Respiro fundo, conto mentalmente até dez e limpo o rosto.

Acho que estou começando a entender por que nenhuma babá fica com eles.

Deixo Miles em outra escola, que sai correndo do carro. Então voltamos para a casa com Noah, que não vai para a escola nem para a creche, de acordo com Helen. Ela termina de me apresentar os cômodos e alguns empregados, como o jardineiro e uma mulher encarregada de cuidar de tudo na casa.

— Bom, a cozinheira vai se ausentar por um mês, por problemas familiares. Então você terá que cuidar da alimentação deles até ela voltar. Espero que não seja um problema — ela diz. Faço que não com a cabeça. Eu gosto de cozinhar e sei algumas coisas.

— Não, para mim tudo bem.

— Ok, aqui está o cardápio do que se deve fazer todos os dias. A mãe deles era muito meticulosa e gostava de deixar tudo escrito, uma rotina, e isso não mudou, mesmo quando ela se foi... — ela me mostra um quadro preso na parede da cozinha, com tudo pontuado do que é para fazer nas refeições. Ela desliza a mão para o outro quadro ao lado, onde está a lista de tarefas do dia. Ela continua: — Esse aqui diz o que eles fazem ao longo dos dias. Depois da escola, Miles vai para a aula de natação junto com Noah. Harper faz ginástica pelos dois dias da semana. E há outras atividades também. Aqui tem os horários para estudar e para dormir. Hoje eles não vão fazer nenhuma atividade fora de casa.

Parece que aqui tudo é cronometrado até o último detalhe. Confesso que estou um pouco curiosa para saber o que aconteceu com a mãe deles, como morreu, mas não tenho coragem para perguntar isso.

O restante do dia é mais tranquilo. Acho que porque Helen está comigo o tempo todo, me mostrando o que devo ou não fazer. Em questão ao pequeno Noah, não sei como vou cuidar dele se ele não me deixa chegar nem um milímetro perto dele.

Helen diz que logo ele irá se acostumar, mas não sei se é bem assim.

Harper não voltou para casa depois da escola, dizendo que iria para a casa dos avós maternos, que a foram buscar. Então, na parte da noite, já estava exausta, tendo que lidar com Miles, que não para quieto no jantar.

— Eu não gostei, é ruim — resmunga, tirando o alface do prato. — Eu quero pizza! — protesta.

— Hoje não é dia de pizza, Miles — intervém Helen, sentada à mesa ao lado do pequeno Noah.

— Mas todos os dias deveria ser dia de pizza — murmurou mal-humorado, jogando as costas contra a cadeira.

Ele ia abrir a boca para dizer mais coisas, mas se cala quando passos são ouvidos vindo da direção da sala até uma figura alta se aproximar da cozinha.

— Pai! — o menino se levanta e praticamente corre até o homem que ganha forma na cozinha, a poucos metros de distância de mim. Miles abraça o homem e parece uma formiguinha diante da altura do cara.

Meus olhos o observam, e, meu Deus, minha irmã está certa, ele é lindo e, mais além, muito gostoso. A primeira coisa que noto são os músculos bem definidos e ombros largos, pele bronzeada, o rosto tem traços fortes e marcantes, os olhos são de um castanho claro, assim como os olhos de Noah. Sua presença física é bem notável, ainda mais quando os seus olhos se detêm em mim, com uma expressão séria e fechada. Ele deve ter por volta dos trinta e poucos anos. Achei que fosse mais velho, por ter uma filha já adolescente.

Eu volto a mim, percebendo que a minha boca está praticamente seca de tanto secar o homem com os olhos, e ele é o meu chefe!

Definitivamente, preciso parar com isso.

Viro-me, sentindo até o meu rosto queimar de vergonha.

Vejo que ele se volta para Miles brevemente e o abraça de leve, mas logo se afasta sem dizer nada e encara sua mãe.

— Boa noite — diz ele, sua voz tem um tom seco.

Ela se levanta para abraçar o filho, que, de um jeito meio frio, retribui.

Imediatamente me levanto da cadeira em postura reta, enquanto ele se afasta da mãe e pega o Noah no colo.

— Onde está a Harper? — pergunta ele à mãe, ignorando completamente o fato de que há outra pessoa aqui.

— Ela foi para a casa dos avós — responde ela. Assentindo, ele volta a me observar com os olhos estreitos, como de águia. Minha alta confiança foi literalmente para o ralo. Esse homem me deixa desconcertada.

— Essa é Sienna, a nova babá — apresenta Helen, intercalando o olhar entre mim e ele.

— Damon Black — se apresenta ele, ainda com um tom seco.

Estendo a mão para ele.

— Prazer em conhecê-lo, senhor Black — ele se demora para pegar a minha mão, com uma leve careta, mas a aperta, e a solta rapidamente, quase como se eu tivesse uma doença contagiosa.

É impressão minha, ou esse cara parece ser uma babaca?

Vejo que sua mandíbula se contrai um pouco e ele suspira, entregando Noah a Helen de novo. Tento manter minha expressão neutra diante do seu jeito um tanto esquisito comigo, logo no primeiro dia.

— Olha, eu cheguei agora de uma viagem de cinco horas e só quero descansar, então não deixe as crianças me perturbar, entendeu? A não ser que seja algo grave — diz ele para mim, com um ar arrogante e duro que me dá vontade de ser a "adorável" Sienna que todos conhecem.

Mas delimito-me a apenas balançar a cabeça e dizer:

— Não se preocupe, irei cuidar para que isso não aconteça — senhor arrogante, quero completar.

Damon se despede da mãe e desaparece de nossas vistas, e assim percebo que, no fim, será mais difícil tudo aqui do que eu tinha imaginado.

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