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Sienna Blake

Seis horas é o exato horário que o meu despertador apita. Passo a mão no rosto, meia sonolenta, e puxo o meu celular debaixo do travesseiro, encerrando o alarme incessante que não para de tocar. Me obrigo a me levantar da cama e me arrumo para ir acordar as crianças para ir para a escola.

Vamos lá, mais um dia. Tomara que eu não enlouqueça.

Depois de tomar um banho, vestir uma roupa e arrumar o meu cabelo, me preparo para finalmente sair do quarto. Ontem nem tive tempo para organizar nada, depois que o senhor arrogante mandou eu ficar de olho nas crianças e a Helen foi embora, me deixando com Miles e Noah. E o Miles, em questões, parece valer por duas crianças de tão inquieto que é. Assim que consegui, enfim, fazê-lo dormir, e, graças a Deus, Noah já tinha dormido antes de Helen ter ido embora. A única coisa que fiz foi deitar na cama e literalmente apagar nela, mas acordei várias vezes durante a noite.

Dormi em uma cama que não estou acostumada. É horrível.

Primeiro, vou acordar o Miles, que é o que mais dá trabalho aparentemente.

Passo pelo corredor dos quartos principais. Minha visão se ofusca nos quadros na parede, cor de creme, com Damon e as crianças, bem mais jovens do que são agora, e uma mulher, a mãe deles com toda certeza. Damon está sorrindo para ela. Parece apaixonado.

Deve ter sido difícil para ele ficar sem a mulher que ama e, pior ainda, essas crianças sem mãe.

Acho que foi a única foto que vi deles, mas também não é fácil ficar olhando para fotos da mulher falecida.

Tiro a minha atenção e foco no que é importante. Finalmente, chego ao quarto do garoto, que está dormindo como um anjo em sua cama de formato de carro. Vou até ele e o sacudo levemente para acordá-lo, mas o que não funciona, além dele murmurar coisas desconexas.

— Miles! — chamo-o um pouco mais firme. Ele abre os olhos, meio sonolento.

— Mamãe? — balbucia e esfrega os olhos como se quisesse se certificar de quem está vendo.

— Sou eu, Sienna. Levante-se para se arrumar para a escola — incentivo, fazendo-o se sentar na cama. Ele me encara por longos segundos até, enfim, parecer despertar.

— Quero dormir! — chora.

Passo a mão no seu cabelo carinhosamente. Talvez hoje seja melhor do que ontem. Vou torcer que sim e que possamos nos dar bem.

— Mas você tem que ir para a escola. Quando a noite chegar, você dorme mais, tá? — Eu fui um pouco sarcástica com uma criança, talvez?

Enfim, consigo fazer Miles se levantar, tomar banho, escovar os dentes e vestir o uniforme da escola.

Quando saio do seu quarto, deixo-o ajeitando sua bolsa e vou até o quarto de Noah. Esse foi mais difícil de arrumar. Chorou quando o peguei e não queria de jeito nenhum. E quem apareceu? Damon.

Ele apareceu só com uma calça moletom e cara de sono, como se tivesse acordado com o choro do filho, e pega Noah dos meus braços sem nem me olhar de fato. Creio que nem notou minha presença ali.

— Deixa que eu cuido dele — sibila, num tom hostil, sem nem atrever a me olhar. Noah para de chorar quando o pai passa a mão nas costas dele tentando acalmá-lo.

A única coisa que faço é assentir e sair do quarto sem dizer uma única palavra. Esse homem é simplesmente estranho.

Vou para a cozinha preparar o café da manhã deles. A Harper não está aqui, então nem preciso acordá-la e me preocupar tanto. Me informo sobre o que fazer e começo a preparar.

Quando enfim termino, Damon aparece agora vestido de terno com Noah e Miles.

Ele coloca Noah na cadeira de alimentação e manda o Miles se sentar, em tom autoritário. Ao menos parece obedecer o pai, apesar de fazer cara feia para ele, começa a comer o que preparei para ele.

Damon anda até a máquina de café na cozinha. Desvio minha atenção dele, que parece um babaca em potencial, e entrego um copo de leite para Noah, que afasta na mesma hora, fazendo uma expressão de repúdio.

— Não — diz com a voz infantil embrulhada. A primeira vez que escuto a sua voz desde ontem. Fico até surpresa.

— Toma, Noah. Está muito bom, sabia? — tento ser persuasiva e estendo o copo em sua direção. E de novo, ele afasta e j**a o leite no chão.

Deus, me dê paciência.

— Não! — grita, me olhando em desafio, com bico. Eu até acharia fofo se não fosse um tanto estressante.

Não são nem 8 horas da manhã e já quero desistir.

— Ele não bebe nesse copo — comenta Damon, chamando a minha atenção para ele, que está com um copo de café entre os dedos, segurando-o com uma expressão tediosa. Poderia até dizer que ele está adorando o filho berrando ao pé do meu ouvido.

— Então, se não quer que ele tenha uma crise de choro, é melhor saber em qual prato ele come ou copo, porque se não, ele não come e nem bebe nada — alerta, mas dessa vez de maneira mais dura, pegando um copo do armário e me entregando. — Ele só bebe nesse copo.

Ah, agora ele quer que eu seja adivinha? Para não dizer outra coisa, limito-me a sorrir, mas deve estar parecendo mais uma careta.

— Certo, ficarei atenta, senhor Black — minhas palavras são lentas e um tanto provocativas.

Uma sobrancelha dele se arqueia levemente.

Sinto que me observa quando me viro para, de novo, dar o leite ao garoto, agora no copo certo que finalmente bebe o leite. Copo esse que é amarelo, com um desenho do Stitch. Anoto mentalmente para não esquecer o copo da preferência dele.

Harper chega na cozinha com a mochila no ombro e se j**a na cadeira. Deve ter chegado agora da casa dos avós e vejo que já está arrumada.

— Bom dia — cumprimento.

E o que recebo em resposta? Um olhar afiado e nenhum "bom dia". Conheço o tipo. Ela é a típica adolescente que gosta de intimidar os outros. Eu até tento entender e relevo, porque isso deve ser o reflexo de ter perdido a mãe tão jovem, um escudo para esconder a dor.

— Que merda é essa no seu rosto? — Damon pergunta a ela com hostilidade, seu olhar percorrendo o rosto da garota, com uma cara não muito boa.

— Bom dia, papai. Ah, sim, eu cheguei bem da casa da minha avó — diz, sarcástica, uma nítida provocação para ele.

A mandíbula dele se contrai, mostrando sua raiva e impaciência.

— Está nítido que você chegou bem, porque diabos você está com um piercing no nariz e esse cabelo pintado de vermelho, Harper? — apesar da raiva, noto que há um pouco de preocupação.

A menina cruza os braços, dá de ombros, pega o celular e começa a mexer nele como se não tivesse nem aí para o pai. Eu continuo a dar o café da manhã para Noah enquanto a discussão entre os dois continua.

— A minha vó deixou — murmura.

Ele bufa, soltando um riso amargo.

— Sua vó deixou? Com autorização de quem? Eu não autorizei você a fazer nada. Eu só fiquei uma semana fora e você já aprontou?

Ela levanta a cabeça e encara o pai, cerrando os dentes.

— É o meu corpo e eu faço o que eu quiser! E a vovó deixou, eu já disse.

— Eu sou o seu pai, e eu que mando em você aqui, não sua vó. Você não pediu a mim, que sou o adulto responsável por você, e um profissional não deveria fazer isso aí sem minha autorização, o que significa que você fez com qualquer doido por aí — apesar de achar um pouco exagerada a reação dele nesse ponto, ele está certo. Se não fizer algo com um profissional, pode ter vários riscos. Vejo que é um pai preocupado com a filha.

— Eu já fiz!

— E você deveria ter me pedido autorização, e não fazer o que bem quer toda vez!

Noto que o peito de Harper sobe e desce com respirações rápidas, e ela se levanta encarando o pai de um jeito desafiador.

— E quando exatamente vou te pedir autorização pra qualquer coisa? Você está sempre ocupado no trabalho, para não ficar com os seus próprios filhos, e ainda contrata essas babás idiotas como substitutas da mamãe! Sua agenda é cheia demais para os seus filhos, "papai".

Meu queixo quase cai no chão com a audácia da garota. Damon fica sem reação por vários segundos, com uma postura rígida. Depois dessa, eu também ficaria.

— Por que será que eu trabalho tanto, hein? Estou fazendo tudo isso para você e seus irmãos — sibila, chegando perto dela. — Está de castigo e sem celular! — estende a mão para ela com expressão fria, mas a tensão muscular é evidente. Harper franze as sobrancelhas e coloca o celular na mão dele sem nenhuma delicadeza.

— Eu te odeio — rosna.

Damon, no entanto, não se deixa abater. É como se isso fosse uma interação comum com sua filha e não há nenhuma novidade.

— Grande novidade — ele fixa os olhos no piercing e nas mechas vermelhas do cabelo dela, fazendo uma leve careta. — Quando eu chegar hoje, é melhor estar sem esse piercing, senão vai ficar um mês sem o celular.

Harper fica em silêncio, parecendo ainda com raiva. Damon se vira na minha direção.

— Depois da escola, dá um jeito nisso e tira essa coisa vermelha do cabelo dela — diz para mim.

Agora sobrou para mim...

Assim que o café da manhã tão respeitado terminou, agora era hora de enfrentar outra luta. Miles não quer entrar no carro e diz que não vai para a escola. O pai deles já vazou para o trabalho, e eu, que pensava que tinha que lidar com gente grande era a coisa mais difícil da vida, sem saber que agora tenho que me dar bem com essas crianças tão complicadas para me manter nesse emprego.

Sinto falta do meu trabalho, da minha casa, da minha vida.

— Miles, por favor, entra no carro, já estamos atrasados! — imploro ao garoto.

— Eu não quero ir, a escola é chata! — resmunga, cruzando os braços.

— Vamos, babá. O tempo está passando. Vou dizer que você nos levou atrasados para a escola — provoca Harper, do carro, nos olhando através da janela, com um ar divertido.

Não tenho tempo para birras desse garoto, então simplesmente passo os braços ao redor dele, pego-o e o levo em direção ao carro, ouvindo seus protestos.

— Me solta!

— Devia ter pensado nisso antes, olha só o seu tamanho. E tenho que te pegar no colo — o enfio no carro e consigo passar o cinto nele.

Respiro aliviada quando fecho a porta do carro, vendo os três ali. Esfrego a têmpora e entro no carro também, começando a dirigir.

Miles começa a chutar o banco do motorista, onde estou, e perturbar a irmã. Ao caminho, tento me manter sã e calma, mas juro, sem Helen, isso é complicado pra caramba.

Deixo os dois na escola e volto para casa com Noah, sentindo-me aliviada por estar só com um para lidar por enquanto. Durante o dia, tento me socializar com Noah, que não dá a mínima para mim e me ignora.

Pergunto-me como nenhuma delas gosta de mim. É frustrante. É difícil conectar com ele, porque ele não fala nada comigo, e pelo jeito com quase ninguém, pelo que percebo.

A tarde chega e tenho que buscar os outros dois de volta. Harper tinha aula de italiano e Miles, aula de judô.

Assim, o restante do dia é tentando não enlouquecer, tentando ensiná-los as tarefas da escola, fazer com que durmam, e Harper tentou me persuadir a pegar o celular para ver algo da escola. Damon deixou o celular aos meus cuidados e falou que, em hipótese alguma, eu deveria deixá-la pegar o celular.

Quando falo que não vou dar e que amanhã teremos que dar um jeito no cabelo dela, ela sai pisando fogo.

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