CAPÍTULO 1 — EU ASSUMO

3 meses antes...

O telefone tocou pela terceira vez antes que eu tivesse coragem de atender.

Eu fiquei olhando para ele como se, enquanto não tocasse pela quarta, ainda existisse uma chance de que nada fosse oficial. Era só esticar a mão. Só dizer “alô”. Mas nas últimas semanas tudo parecia maior do que eu. O hospital. As contas. A casa. E aquele número começando sempre igual, como se já soubesse que eu estava ficando sem saída.

Atendi.

— Senhorita Elena Duarte?

A voz do outro lado era educada demais para o peso que carregava. Confirmou meu nome. Confirmou meus dados. Confirmou o que eu já sabia antes mesmo de atender.

As parcelas estavam em atraso.

O titular estava impossibilitado.

Precisavam saber quem assumiria.

Impossibilitado.

Meu pai virou isso.

Eu apoiei a mão na mesa da cozinha para não sentir que estava flutuando. As contas estavam espalhadas ali como se tivessem decidido se organizar sozinhas. O cartão bloqueado naquela manhã. A parcela do financiamento da casa vencida pela segunda vez, o valor circulado em vermelho como se gritasse comigo toda vez que meus olhos passavam por ele. O empréstimo que meu pai fez para ampliar a oficina acumulando juros como se tivesse pressa de crescer mais rápido do que a gente conseguia acompanhar.

E o hospital.

Depois da terceira semana de internação, começaram a chegar notificações formais pedindo regularização de despesas que eu nem sabia que existiam antes disso.

Eu tinha passado dias praticamente morando naquele hospital, dormindo nas poltronas largas do andar dele, revezando com a minha mãe nos horários permitidos. Eram confortáveis o suficiente para não doer nas primeiras horas, mas nunca o bastante para descansar de verdade. Ela dizia que estava bem, que não precisava ir para casa. Eu dizia que precisava sim. Que alguém tinha que estar inteiro quando o médico aparecesse.

Eu segurava a mão dele. Observava o peito subir e descer com ajuda de máquina. Aprendi o som dos aparelhos. Aprendi a diferença entre um bip normal e um que fazia meu coração parar junto.

Enquanto eu esperava ele acordar, as contas também estavam acordadas.

— Então a senhora confirma que assumirá as pendências até a regularização da situação?

A pergunta veio limpa, objetiva.

Eu não respondi na hora.

Minha mãe nunca trabalhou fora. A vida dela sempre foi dentro dessa casa — almoço pronto, roupa passada, remédio separado na hora certa. Ela sabia cuidar de tudo que era nosso, mas nunca precisou enfrentar banco, contrato, negociação. Quem resolvia essas coisas era ele.

E agora estavam perguntando a mim.

Olhei para o risco na mesa. Fundo. Antigo. Ele tinha feito aquilo anos atrás, tentando consertar uma cadeira ali mesmo. A chave escapou, ele xingou baixo, depois riu dizendo que agora a mesa tinha personalidade. O armário da cozinha ele montou num domingo inteiro, recusando ajuda, orgulhoso demais para errar.

Ele sempre resolvia.

Se a lâmpada queimava, se o carro fazia barulho, se a conta vinha mais alta, eu chamava ele.

Eu tinha vinte e um anos.

E ainda chamava o meu pai.

— Senhora? — a voz insistiu.

Hospital. Escola. Casa. Minha irmã.

Eu respirei fundo.

— Sim.

A palavra saiu baixa, mas firme.

— Eu assumo.

Não foi coragem.

Foi falta de alternativa.

Ela começou a falar sobre prazos, possibilidades de acordo, juros acumulados. Eu anotei como quem copia algo que não consegue absorver. Agradeci no final. Desliguei.

O silêncio ficou grande demais na cozinha.

A torneira pingava. Uma gota. Outra. Eu fechei com força.

Minha irmã apareceu no corredor como se já soubesse. Já estava pronta para a escola, mochila nas costas. Caminhou até a cozinha devagar, tirou a mochila e colocou sobre a cadeira.

— Era do banco?

Eu assenti.

— Sobre a casa?

— Também.

Ela ficou parada me olhando. Dezesseis anos e já com perguntas demais no olhar.

— A diretora falou de novo da mensalidade — disse, fechando o bolso da mochila. — Perguntou se estava tudo bem. Eu disse que sim.

— Fez certo.

Ela respirou fundo.

— A gente vai perder a casa?

Eu olhei ao redor. Para a parede onde nossas alturas estavam marcadas a lápis. Para a cadeira que ainda balançava um pouco porque ele sempre dizia “depois eu aperto”. Para o armário que permanecia firme no lugar, como se o tempo não tivesse passado.

Aquela casa tinha o toque dele em tudo.

— Não.

Eu respondi rápido demais.

Ela percebeu.

— Eu posso procurar estágio — disse. — A Júlia está trabalhando meio período num escritório perto da escola. Não é muito, mas já ajuda. Ela disse que pode falar com o chefe.

— Não. Você vai estudar. Essas dívidas não são suas.

Ela me encarou firme.

— E nem suas.

Aquilo doeu mais do que qualquer cobrança.

Eu me aproximei dela.

— Enquanto ele estiver assim… eu seguro.

Ela engoliu seco.

— E se ele não acordar?

Os olhos dela encheram antes que ela pudesse evitar. Uma lágrima escapou quando ela completou:

— A gente tem que pensar nessa possibilidade.

Meu coração apertou.

— Não fala isso.

— Eu não quero falar… mas alguém tem que pensar.

Ela respirou fundo.

— Você vai ter que virar ele?

Eu senti como se alguém tivesse puxado o chão debaixo de mim.

Não era sobre dinheiro.

Era sobre lugar.

— Eu não sou ele — eu disse.

— Eu sei. Mas você é a única que pode tentar.

A lágrima caiu de vez. Eu puxei ela para mim. Ela me abraçou com força, o rosto escondido no meu ombro como quando era pequena e tinha medo de trovão.

Eu segurei o rosto dela entre as mãos.

— Ei… a gente vai conseguir.

Ela me olhou como se estivesse tentando decidir se acreditava.

— Você promete?

Eu engoli o medo.

— Prometo que eu vou fazer tudo o que eu puder.

Não era garantia.

Era o máximo que eu tinha.

Ela assentiu devagar. Limpou o rosto com a palma da mão.

— Eu vou me atrasar.

Colocou a mochila nas costas de novo.

— Vai. Depois a gente conversa.

Ela saiu.

A porta fechou.

O silêncio voltou.

Eu fiquei parada no meio da cozinha olhando para as contas espalhadas.

Eu tinha dito “eu assumo”.

Assumir significava pagar.

Mas também significava aceitar que talvez ninguém mais fosse dizer “eu resolvo”.

Eu tinha vinte e um anos.

E tinha acabado de prometer sustentar uma casa inteira enquanto rezava para que meu pai acordasse.

Eu não tinha plano.

Eu tinha medo.

E pela primeira vez eu entendi que talvez o pior não fosse dever dinheiro.

Talvez o pior fosse perceber que eu estava aprendendo a ser forte…

porque não havia mais ninguém ali para ser por mim.

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