Mundo de ficçãoIniciar sessão
Hoje, sem dúvida, não é o meu dia, durante meses, meus pais e eu estivemos participando de jantares organizados por eles, sempre envolvendo a família Prescott.
— Esses encontros eram como uma peça de teatro, onde todos usavam sorrisos forçados e trocavam conversas intermináveis. Meu pai fazia questão de me manter sob a sombra de Percival Prescott, um homem que sempre esteve à margem de relacionamentos sérios. — A verdadeira razão por trás desse drama foi revelada de forma devastadora: meu pai não estava apenas sendo gentil; ele estava, na verdade, orquestrando uma aliança, semelhante a um diretor que negociava a participação de um ator em um filme. Com trinta e oito anos, ele nunca se casou e nem deu qualquer indício de que desejasse fazê-lo, e todos sabem o porquê. — Conhecemos suas preferências: ele evita a companhia feminina como um pássaro que prefere voar sozinho, buscando sempre a liberdade em vez de um lar compartilhado. No entanto, devido a uma antiga amizade entre nossas famílias e a uma promessa absurda feita por nossos pais — como se estivessem selando um pacto em um conto de fadas —, meu pai decidiu honrar esse compromisso. — Assim, através das palavras de meu pai, descobri que “vou me casar” com Lord Percival Prescott, mesmo sabendo exatamente quem ele é. A diferença de dezesseis anos entre nós, o fato de ele nunca ter se casado e a consciência geral sobre sua verdadeira natureza pareciam não ter peso, como se fossem apenas folhas ao vento, levadas por uma brisa indiferente. — Então, meu pai me olhou como se estivesse apenas fazendo uma escolha trivial em um menu, e com a mesma naturalidade revelou: — Você vai se casar com Percival. Eu demorei alguns segundos para processar essa informação, confusa como um quebra-cabeça com peças faltando. — Como assim, papai? — perguntei, sentindo como se o chão estivesse se abrindo sob mim, como se estivesse prestes a cair em um abismo. — O senhor está dizendo que organizou meu casamento com ele? — Meu coração começou a acelerar de forma descontrolada, como se estivesse correndo de um predador invisível. — Então, todos aqueles jantares e festas entre as famílias eram, na verdade, o senhor arquitetando tudo isso sem que eu soubesse? — continuei, à medida que a incredulidade crescia dentro de mim, como uma bola de neve gigante descendo uma montanha, se acumulando e tomando força a cada segundo. — E eu sou a última pessoa a saber dessa decisão? Balancei a cabeça, sentindo a raiva borbulhar dentro de mim como um vulcão prestes a entrar em erupção, lembrando de todas as vezes que desconsiderei essas “reuniões familiares” como algo casual. Respirei fundo, tentando conter o impulso de tremer, como se estivesse equilibrando algo frágil demais nas mãos. — Não, papai, eu não me casarei com Percival, nem que ele seja o último homem na face da Terra! — O senhor não pode me forçar a essa degradação, como se minha vida fosse uma moeda a ser trocada em um jogo de poder! — Charlotte Anne Victoria William James nunca foi uma invocação carinhosa; tornou-se uma armadilha tecida com tradições que pesam sobre mim. O meu nome completo, quando pronunciado por meus pais, sempre soou como um fardo, um peso que eu tinha que carregar. O noivado será anunciado em breve, exatamente em uma semana. — A frieza na voz de papai, me cortou como uma faca, revelando uma certeza possessiva que ecoava como o som de um gong de metal, reverberando em minhas entranhas. Para eles, o valor da tradição supera a minha própria dignidade; é como se estivessem colocando um colar de espinhos em mim. — No entanto, desta vez, eu me recuso a ser subjugada por isso. Ele é um depravado e conhecido por seus gostos peculiares, um símbolo das fraquezas que a realeza prefere ignorar. — Todos estão cientes de seus gostos bizarros, mas fazem de conta que não veem, como quem finge não ouvir uma sirene em meio a uma tempestade. Ele é gay, mas isso de forma alguma é o motivo da minha recusa, o que realmente me assusta são os sussurros que ecoam pelos corredores, os olhares cúmplices e os silêncios que conspiram ao meu redor. — Existem rumores inquietantes que sugerem que ele tem interesses por meninos e ultrapassa limites que qualquer ser humano decente não deveria sequer imaginar, como saídas para festas onde o consentimento parece uma mera ilusão. Eu jamais me submeterei a essa imposição vil, só porque meu pai quer. — Olhei para Lord Edward William James, meu pai, sentindo o sangue pulsar nas minhas têmporas. Ele não está me oferecendo um futuro; ele me vendeu, envolvida em seda, para preservar um nome. — “Ele é perverso, papai, é um sádico e depravado, gosta de humilhar e frequenta abertamente clubes de BDSM.” Lord Edward estreitou os olhos, visivelmente irritado com minha coragem tardia. — “E como você sabe dessas coisas, Charlotte?” protestei. “É sério que você me faz essa pergunta, papai?!” um nó se formando na minha garganta. “O senhor não pode fazer isso comigo,” dei um passo à frente, as pernas tremendo. — “O senhor e mamãe sempre cuidaram de mim, fui educada para ser esposa e mãe , me criaram como se eu fosse sagrada, e agora vão me entregar a um homem corrompido? É como deixar uma criança em um circo de horrores!” “O Percival não é um corrompido, o respeite.” respondeu meu pai, com a frieza de um iceberg à deriva. “Ele é um Montford, respeitado, é um Lorde.” Mas papai, ele é perverso! Ele não gosta de mulheres; ele é gay papai! — E mesmo assim o senhor quer me obrigar a casar com ele? É o mesmo que oferecer flores a um peixe — não faz sentido! — Se o senhor deseja herdeiros, continuidade de linhagem e um nome, essa união não vai acontecer! Mesmo que se tentasse forçar essa associação, seria como tentar pôr um quadrado em um buraco redondo; a verdade é que existem aspectos da vida que não podem ser empurrados ou manipulados. — Existem soluções modernas — rebateu Lord Edward, sem mudar o tom. — A inseminação artificial resolve esse problema, e você continuará sua vida. — É como arranjar uma peça de reposição quando o carro quebra; existem acordos discretos que podem ser feitos. Você é inteligente o bastante para entender do que estou falando, um nó se formou em minha garganta. — Como assim, papai? — perguntei, sentindo meu rosto queimar. — O senhor sabe quem ele é e, mesmo assim, insiste nessa loucura? Se ele fosse apenas gay, esse não seria um problema, eu poderia aceitar, a opção sexual de uma pessoa não a define. — Eu poderia viver em silêncio, como fui ensinada, mas a situação é muito grave, já compartilhei tudo o que ele é, e o senhor não está ouvindo. — O silêncio tomou conta do escritório, pesado como uma névoa. — O noivo que você me arrumou, gosta de homens, entendeu? Ele gosta de crianças, e as preferências dele são meninos de menos de dez anos, seu escolhido é um abusador. Pense, por exemplo, em como as notícias frequentemente relatam casos de abusos envolvendo pessoas de destaque na sociedade. — Frequenta clubes, como um diretor de um espetáculo que observa o show à distância, e manda outros fazerem coisas para assisti-las. O senhor sabe o que é voyeurismo, sadomasoquismo ou dark web? — É como um labirinto cheio de armadilhas e segredos, onde as coisas sombrias e perigosas se escondem. Os casos que vemos em documentários, onde vítimas compartilham suas histórias, mostram a gravidade de tais comportamentos. — Charlotte, eu já decidi, e seu noivado será anunciado em uma semana! — a voz de meu pai soou dura e cortante, como um trovão em um dia calmo. Mamãe, por favor, me ajude, não deixe o papai fazer essa maldade comigo. — Olhei para Lady Eleanor Beatrice William James, minha genitora, que estava sentada em silêncio, suas mãos perfeitamente posicionadas no colo, como se fossem peças de um quebra-cabeça que não se encaixam. A impressão de sua rigidez me fez lembrar de um animal domesticado, incapaz de reagir a um perigo iminente. — Mamãe a senhora não vai falar nada, e vai permitir que o papai me coloque na masmorra de um indecente? —Vai permitir que me entreguem a esse monstro, só porque ele é filho de um visconde, mesmo sabendo que ele é um monstro? Mamãe não respondeu, apenas desviou o olhar, como alguém que tenta ignorar um acidente de carro, evitando assim a dor evidente. — Ele não esconde a natureza dele, papai, o Percival é um sádico, pervertido e depravado — continuei, sentindo as lágrimas ardendo como ácido em meus olhos. Era como falar sobre uma serpente que se esconde em um buraco, pronta para atacar. — Somente o senhor e a mamãe fingem não ver, todos conhecem a verdadeira natureza de seu suposto futuro gento. Respirei fundo, sentindo meu peito apertar como se estivesse sendo esmagado por uma rocha pesada. — A pressão sobre mim se intensificava, vinda não apenas do peso do sobrenome, que deveria ser um símbolo de prestígio, mas que, na verdade, se torna uma carga insuportável. A família dele deseja me casar com ele apenas por causa da antiguidade de nossos nomes, como se a honra de um sobrenome pudesse justificar um destino terrível. — Ser da família William James, ficha de um conde é como carregar um brilho que antes me enchia de orgulho, mas que agora se transformou em um fardo. A imposição desse casamento, que o senhor está me forçando a aceitar, se revela como uma prisão disfarçada de honra, onde a liberdade é lentamente sufocada. —Minha voz falhou, como um fio de esperança se rompendo. — Quando ele cair, quem estiver ao seu lado também cairá. O senhor também cairá, e eu serei a primeira a desabar, pois serei a esposa. Lord Edward se aproximou de mim, contornando a mesa com a determinação de um predador, aproximando-se do meu espaço pessoal, como se tentasse me encurralar amanhã. — Você vai se casar, Charlotte Anne Victoria William James — repetiu, a voz baixa e autoritária — quer você queira ou não. Foi nesse instante que algo se quebrou dentro de mim, como uma corda esticada ao máximo prestes a se romper. — A obediência cega que me moldou por vinte e dois anos se desfez diante da crueldade de meus pais, como um castelo de cartas que desmorona com o sopro mais leve. A imagem de uma vida inteira de submissão a suas vontades me fez sentir como uma escrava em meu próprio lar, percebo agora que nunca fui amada por esses dois, sou um objeto, ou melhor adorno. — Eu não vou me casar, prefiro a morte, está me ouvindo papai?— respondi quase em um sussurro, virando-me para sair, como um pássaro que finalmente encontra a força para deixar a gaiola. Essa decisão, embora assustadora, parecia meu único caminho para a liberdade. — Volte aqui, Charlotte é uma ordem! Estou mandando, me obedeça! — a ordenou Lord Edward, sua voz carregando a insistência de uma tempestade que se aproxima. — Saí sem olhar para trás, pela primeira vez não obedeci meu pai. Naquele instante, ao cruzar a porta, percebi que não estava apenas desobedecendo meu pai, mas rompendo as correntes douradas que me prendiam a uma realidade que não escolhi e não aceito. — Era como uma borboleta que se liberta de seu casulo, pronta para voar em direção ao desconhecido, em busca de flores onde poderia se alimentar da liberdade e da vida que nunca teve.






