Mundo de ficçãoIniciar sessãoSubi para o meu quarto chorando, com o peito apertado e a sensação sufocante de que as paredes daquela casa estavam se fechando ao meu redor.
— Fechei a porta atrás de mim e caminhei até a janela, tentando respirar, mas o ar parecia não entrar, meu peito doía. Me senti traída e vendida por meus pais. Minhas mãos tremiam quando peguei o celular, e sem pensar duas vezes, liguei para Diana, a única pessoa que me entende. — Assim que ela atendeu, as palavras saíram atropeladas. — Pelo amor de Deus, Diana, me socorre! — Charlotte, o que aconteceu? — a voz dela veio alarmada. Me diz! Que desespero é esse? — Me ajuda, amiga, pelo amor de Deus, não sei mais o que fazer, estou desesperada, papai enlouqueceu, de vez. — Charlotte, respira, controla o choro — Diana disse, tentando me acalmar. — Eu não estou entendendo nada do que você está falando. Me diz como calma o que está acontecendo pra eu poder te ajudar. Respirei fundo, tentando reorganizar os pensamentos e o caos que se tornou a minha vida. — Papai me deu um ultimato há poucos minutos, amiga e dentro de uma semana, ele vai oficializar o meu noivado. E, para piorar, você nem imagina com quem! — Como assim oficializar um noivado? — Diana reagiu, incrédula. — Ele nunca te deixou namorar, te controla o tempo todo, você é controlada até nos pensamentos? — Justamente! E agora tudo faz sentido — falei, a voz embargada. — Você lembra que estávamos sempre indo às festas na casa dos Prescott? E que o papai vivia fazendo jantares e reuniões aqui em casa, sempre convidando essa família, e eles nunca deixavam de vir? — Pai me comunicou que vou me casar com Percival. Houve um breve silêncio do outro lado da linha. — Meu Deus… — Diana disse devagar. — Eu não acredito no que você está me contando. —Sim, o Percival — falei, sentindo o estômago revirar. — Percival é um gay pedófilo, depravado! — Diana exclamou. — Exatamente, eu estou apavorada, amiga, não é só isso. Todo mundo aqui na Inglaterra sabe, Diana. Dentro e fora daqui, todos sabem quem ele é. — Teus pais estão te jogando no inferno — ela murmurou. — Eu disse tudo isso ao meu pai — expliquei. — Falei que o problema nunca foi ele ser gay, mas quem ele é como pessoa, o que faz nos clubes e nos gostos doentios que ele tem. — E o que o seu pai disse? — Disse que isso não importa, que é calúnia— minha voz falhou. — Meu pai não está preocupado com o que pode acontecer comigo nesse casamento. Ele disse que não é verdade o que falam, que Percival é um lorde e jamais faria as atrocidades que dizem a seu respeito. E que, quanto à homossexualidade, isso se resolveria com uma inseminação artificial para garantir um herdeiro da linhagem. Do outro lado da linha, Diana ficou em silêncio por alguns segundos. — Charlotte, você sabe o que pode acontecer com você se esse noivado seguir adiante, não sabe? — Esse é justamente o meu desespero. — respondi, sentindo um nó se formar na garganta. — Ele vai me obrigar a casar, Diana, meu pai quer me obrigar a casar com um monstro. Está tudo decidido, eles já organizaram esse casamento. — Você precisa sair daí agora, Charlotte agora! — a voz de Diana ficou firme. — Hoje eu estou de folga, vem pra a minha casa agora. — Eu não posso simplesmente sair — respondi, andando de um lado para o outro. — Eles me vigiam dia e noite você sabe disso. E agora, depois do que eu disse, vão controlar cada passo meu. Houve um breve silêncio. — Então faz o seguinte — disse ela, decidida. — Pede roupas emprestadas para a Marie, vocês têm praticamente o mesmo tipo físico. Sai como uma pessoa comum, pela porta dos fundos, ninguém vai perceber. Parei no meio do quarto. — Como eu nunca pensei nisso? — murmurei. — Me vestir como uma pessoa comum… eu passei a vida inteira tentando fazer tudo certo, obedecer, seguir regras, e agora eles querem me obrigar a fazer algo muito errado. — Exatamente — Diana respirou fundo. — Eu te ajudo, amiga, vem para a minha casa, meus pais não vão contar nada. Traga algumas roupas e seus documentos, eles nem vão perceber que você saiu, faz tudo com calma, te espero. Desliguei e Abri o guarda-roupa e peguei uma bolsa grande e coloquei o essencial: roupas simples, documentos, o dinheiro que eu mantinha guardado, minhas joias pequenas que vovó me deu. Chamei Marie, no meu quarto, ia pedi um chá para meus pais não suspeitar. Ela entrou no quarto sempre atenciosa. — Preciso de um favor seu, Marie — disse, em voz baixa. — Você pode me emprestar uma roupa sua? Em troca, eu te dou algumas das minhas roupas. Marie não fez perguntas, apenas assentiu. — E trás um chá para ninguém perceber, leva essa minha mochila pra teu quarto, eu vou me vestir lá. Esses vestidos aqui, sapatos e bolsas são teus, pode levar, os perfumes também, se minha mãe ver diga que eu dei, deixa que eu confirmo. — Marie saiu com as roupas e mochila nos braços. Mamãe veio logo em seguida perguntar porque eu estava dando roupas para a empregada, respondi que não queria mais, e já que ia me casar preciso de um enxoval novo. — Ela ficou satisfeita com minha resposta. Desci, fui aos aposentos de empregados, e me troquei no quarto de Marie, ela me ajudou, pedindo um Uber no nome dela, eu saí pelos fundos como se fosse ela, e ninguém percebeu. O coração quase saltou do peito quando entrei no táxi. — Para este endereço, por favor — disse, entregando ao motorista o papel com o endereço de Diana. Quando cheguei, ela abriu a porta antes mesmo de eu bater. — Você veio mesmo, amiga, até que enfim saiu da gaiola de ouro. — Vim, e o meu desespero foi o meu combustível da coragem — respirei fundo. — Peguei só o básico como você orientou. roupas simples e meus documentos. Ela me puxou para dentro e fechou a porta.— Eu vou arranjar um emprego para você, e já sei com quem. Ri, nervosa e exausta. — Diana, eu nunca trabalhei, nunca fiz nada além de tomar chá. — Vai ter que aprender — ela respondeu, sem rodeios. — Você precisa sair da Inglaterra, urgente , e se eles te encontrarem vão te casar com Percival, você sabe o que vai acontecer. Dizem até que ele mantém um site de sadomasoquismo. Engoli em seco. Será que ele é como o Epstein? — Veja o ex-príncipe Andrew… quem diria que um príncipe seria um depravado né? — O mundo está cheio de títulos e vazio de caráter — Diana se aproximou. — Amanhã eu vou te levar comigo, o meu patrão está aqui, na Inglaterra, ele está desesperado por uma babá. Levantei o olhar. — Babá? — E você quer me indicar como babá? — perguntei, desesperada. — Sim — ela disse, sem hesitar. — Ele vai perguntar se você tem experiência, e você vai dizer a verdade: que não tem, mas que precisa do emprego e vai fazer de tudo pelo bem das crianças, e que só precisa de uma oportunidade. Meu estômago se revirou. — Como eu vou saber cuidar de duas crianças? — Aprende tudo no YouTube amiga— Diana sorriu, apesar da tensão. — Aquilo é uma universidade online, e vai aprender tudo lá. Hoje você dorme aqui em casa, não vou deixar que volte mais para aquela casa, não vou te abandonar. — Amanhã cedo você vai comigo para o trabalho — continuou. — Vou avisar ao meu chefe que encontrei a babá perfeita. — E ele vai aceitar? — perguntei, insegura. — Ele é um velho mal-humorado? Ela riu. — Não. Ele é um homem bonito, decente, o conheço, chamo de tio Alexander. É gentil, mas desesperado é pai de uma menininha linda de três anos a Emilly e de um bebê, o Alex que só chora dia e noite. — E a mãe das crianças? O sorriso dela desapareceu. — Morreu três dias depois do parto, do Alex, um aneurisma. O silêncio caiu sobre nós. — Não tem babá que aguente, a s crianças sentem falta da mãe — completou Diana. — Mas você vai ter que dar um jeito, dessas crianças se apegarem a você. — Essa é a sua única saída. Apertei a mochila com mais força contra o corpo. fugir era a minha salvação e gostando ou não, aquele seria o começo de uma vida que eu jamais planejei, mas que eu precisava enfrentar. breve, dentro de uma semana, como eu te falei.






