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LUNA
Estou sentada na pequena mesa da cozinha do meu apartamento, com o notebook aberto e uma xícara de café já frio ao meu lado. A chuva b**e na janela como se quisesse entrar sem ser convidada, e por um instante penso que ela combina perfeitamente com o momento da minha vida: insistente, cinza e cansativa. Atualizo a página de empregos pela quarta vez em menos de dez minutos. Nada. Meu currículo está impecável — formação em pedagogia, cursos extras, referências — mas isso não paga aluguel, nem contas atrasadas, nem o vazio incômodo de quem precisa recomeçar do zero. Desde que tudo desmoronou meses atrás, tenho aprendido que “potencial” não enche a geladeira. Respiro fundo e passo a mão pelo rosto. — Vai dar certo, Luna — murmuro para mim mesma, mesmo sem acreditar totalmente. Abro outro site, depois outro. Babá, auxiliar pedagógica, recreadora. Leio anúncios repetidos, salários baixos, exigências absurdas. Alguns pedem experiência que eu não tenho, outros oferecem tão pouco que chega a ser ofensivo. Quando estou prestes a fechar o notebook, um anúncio novo surge no topo da página, como se tivesse acabado de ser publicado. BABÁ — DISPONIBILIDADE IMEDIATA Residência particular — Mansão Valmont Salário acima da média | Moradia opcional | Total confidencialidade exigida. Franzo a testa. Valmont. O nome me soa familiar, e não demora para eu lembrar. Todo mundo já ouviu falar dos Valmont. Empresários bilionários, discretos, raramente vistos em eventos sociais. O tipo de família que aparece em revistas de negócios, não em colunas de fofoca. Meu primeiro impulso é rir. — Isso não é pra mim — digo em voz alta. Leio o anúncio mesmo assim. Requisitos: — Experiência com crianças — Formação em pedagogia ou áreas afins — Discrição absoluta — Disponibilidade integral Disponibilidade integral me faz engolir em seco. Moradia opcional também. Parece mais um contrato de confidencialidade disfarçado de emprego. Rolo a página para baixo. Observação: A criança está sob tutela do responsável legal. Ambiente reservado. Entrevistas seletivas. Meu dedo paira sobre o mouse. Algo dentro de mim diz para ignorar. Pessoas como eu não trabalham em mansões. Não entram no mundo dos bilionários. Eu sou invisível demais para isso. Mas outra parte — a parte cansada de contar moedas, de dormir mal, de fingir que está tudo sob controle — sussurra que oportunidades raramente batem duas vezes. Olho ao redor do apartamento pequeno, as paredes descascando, a pilha de contas sobre a geladeira. Penso em como seria não ter que escolher entre pagar a luz ou comprar comida. Penso em recomeçar de verdade. — É só uma candidatura — digo para mim mesma, como se isso tornasse tudo menos assustador. Clico. O formulário é direto, quase frio. Nome, idade, formação, experiências anteriores. Não pedem foto. Não pedem redes sociais. Isso é estranho… e, de certa forma, inquietante. Na parte “Por que você deseja essa vaga?”, hesito. O que eu escrevo? Que preciso desesperadamente de um emprego? Que quero estabilidade? Que não tenho mais luxo para escolher? Respiro fundo e digito a verdade. A versão profissional dela. “Acredito no cuidado emocional como base do desenvolvimento infantil. Tenho experiência prática, formação adequada e disponibilidade total para oferecer segurança, atenção e responsabilidade.” Releio. Parece suficiente. Anexo meu currículo e fico encarando a tela por alguns segundos antes de apertar “Enviar”. Meu coração b**e um pouco mais rápido, como se eu estivesse cruzando uma linha invisível. Quando finalmente envio, sinto um misto de alívio e nervosismo. Fecho o notebook. — Pronto, Luna. Agora é esperar. Mas a verdade é que, naquele instante, eu ainda não tenho ideia de que aquele clique acabou de mudar tudo. Não sei que a Mansão Valmont não é apenas um lugar. É um mundo fechado, regido por regras próprias… e por um homem acostumado a controlar absolutamente tudo. Inclusive as pessoas que entram na sua vida. Me levanto, lavo a xícara de café e tento seguir o dia como se nada tivesse acontecido. Como se meu destino não tivesse acabado de ser puxado para uma órbita perigosa e silenciosa. O celular vibra sobre a mesa. Um e-mail novo. Meu coração dispara antes mesmo de eu ler o remetente. Valmont Group — Seleção Privada. Engulo em seco. E, pela primeira vez em muito tempo, sinto que algo grande — e possivelmente avassalador — está prestes a começar.






