CAP. 45 — O PESO DA SOBREVIVÊNCIA
POV RIANE O frio da clareira não parecia com nada que eu já tivesse sentido às margens do Rio Negro. Não era o frio da chuva, nem a queda de temperatura da madrugada. Era uma umidade que penetrava a carne, um resquício da presença daquela entidade que ainda parecia flutuar entre as árvores. Caruã jogou a última tora de madeira na fogueira. A chama, que antes oscilava com o vento, agora queimava estável, o calor seco começando a devolver a cor aos nossos dedos. Ele estava imóvel, com o antebraço apoiado no joelho, a manga do moletom puxada para cima. O símbolo cinzento, agora maior, parecia uma tatuagem em brasa, emitindo uma pulsação rítmica que eu sentia na planta dos meus pés. Ele não limpou a faca desta vez. Ele apenas a deixou cair ao lado da bota, com a lâmina cravada na terra. Caruã, que tinha enfrentado o bando da Yara com um arco e uma lâmina, parecia reduzido à sua essência mais bruta. As mãos dele, calejadas pelo trabalho de décadas na alcateia, tremiam de um jeito que el
Leer más