Eu nunca gostei de andar sozinha à noite. Não por causa da cidade. Não por causa das ruas. Era a sensação. De que a qualquer momento alguém poderia estar ali. Observando. Esperando. O dia na clínica tinha sido normal. Quieto. Até agradável. Rodrigo estava bem-humorado, rindo de piadas bobas, contando histórias de pacientes atrapalhados. Eu consegui me distrair, rir de verdade. Por alguns minutos, achei que podia esquecer tudo. Que o mundo lá fora não era feito de sombras que rastejam silenciosamente atrás da gente. Quando o expediente terminou, guardei as pastas, organizei a recepção, desliguei os computadores. Peguei minha bolsa, conferi se estava tudo comigo. Chaves, carteira, celular. Respirei fundo. E saí. A rua estava quase vazia. O vento leve balançava os galhos das árvores. O barulho de alguns carros passando ao longe. O som dos meus próprios passos. Sozinha. Demais. E eu odiava isso. Porque, quanto mais silencioso o mundo, mais o passado gritava. Cada esq
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