A quinta-feira chegou com aquela qualidade específica de dia que não anuncia nada.Sem chuva, sem calor excessivo, sem o tipo de luz que promete ou ameaça — apenas dia, com o sol de março fazendo o que o sol de março faz em Ribeirão Fundo, que era existir com uma consistência que não pedia atenção.Érica acordou às sete.Ficou deitada por alguns minutos inventariando — o que havia, o que havia mudado, o que continuava igual. Era um hábito que havia desenvolvido em BH nos meses mais difíceis, o inventário matinal como forma de não ser surpreendida pelo próprio estado interno.O que havia: amor. Culpa. Medo do Rodrigo. A leveza nova de não carregar sozinha.O que havia mudado: Dona Lúcia sabia. E saber havia mudado a qualidade do ar na casa de uma forma que ela ainda estava calibrando — não resolvido, não simples, mas diferente, como uma janela aberta num quarto que estava fechado há tempo demais.O que continuava igual: Rodrigo não sabia. A cidade não sabia. O futuro era território sem
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