KATHERINEA chuva começou de um jeito quase discreto, um som leve contra o vidro que eu mal notei no início, porque a cidade já vinha escurecendo mais cedo naquele dia e o céu estava pesado desde a tarde, carregado de nuvens baixas que deixavam Detroit envolta em uma luz cinza, opaca, como se tudo lá fora tivesse perdido contorno. Em poucos minutos, aquele ruído suave se transformou em uma presença contínua, profunda, ocupando as janelas do apartamento, a varanda, o ar, o meu peito, até parecer que o mundo inteiro tinha sido coberto por água e som.Abri a porta da varanda e deixei o frio entrar. O vento veio primeiro, úmido, cortante, trazendo o cheiro limpo do asfalto molhado e o gosto metálico de chuva no ar. Dei alguns passos para fora, sentindo o tecido leve do vestido grudar um pouco mais nas pernas com a força das rajadas, e apoiei os braços na grade gelada. Lá embaixo, a cidade parecia distante de um jeito estranho. As avenidas largas tinham virado faixas brilhantes e borradas,
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