Passaram-se alguns dias desde que Jana foi embora.Eu acordava cedo, ajudava Cecília a se vestir, preparava o café dela, sentava ao lado da menina enquanto ela desenhava ou treinava as letras que eu insistia em ensinar. Cecília continuava silenciosa, porém, expressiva nos olhos, nas mãos pequenas, nos gestos delicados.Às vezes eu a observava e pensava que, de alguma forma, nós duas éramos parecidas: sobreviventes caladas, tentando entender um mundo que parecia grande demais.Quanto a Adriano, eu quase não o via. Ele saía cedo, voltava tarde, e quando cruzávamos por acaso, era sempre rápido demais para qualquer conversa. Um “bom dia” seco. Um aceno de cabeça. Um olhar que passava por mim como se eu fosse parte da mobília da casa. Agora era só distância.Adriano continuava bebendo. Do meu quarto, eu ouvia o ranger da escada, o som pesado dos passos, o tropeço contra a parede do corredor. Às vezes o vidro da garrafa batendo em algum móvel, denunciando aquilo que eu já sabia sem precisar
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