ABEL ARRUDA Nesta casa, a calmaria nunca é apenas ausência de agitação; é o ensaio de um golpe. Eu aprendi a ler as sombras da mansão Castro antes mesmo de aprender a ler os relatórios financeiros do meu pai. E hoje, as sombras estavam inquietas. O ar cheirava a perfume caro e a um rancor antigo, o tipo de rancor que minha irmã, Beatriz, cultiva como se fosse uma planta rara. Eu a encontrei no solário, observando o jardim através da vidraça. Ela segurava uma taça de vinho branco, mas não bebia. Seus olhos estavam fixos lá fora, onde Valentina corria com Alice e Pedro. O riso das crianças subia até nós, puro e cristalino, um som que parecia agredir os ouvidos de Beatriz. — Eles parecem felizes, não? — perguntei, aproximando-me com a minha habitual máscara de tédio. — A babá nova realmente tem um jeito com eles. Até o Heitor parece mais presente. Beatriz não se virou, mas vi os nós de seus dedos ficarem brancos ao redor da haste da taça. — "Jeito" é uma palavra muito generosa, Abel
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