HEITOR CASTRO Entrei no meu escritório e mergulhei naquele silêncio perturbador. Por fora, as paredes revestidas de mogno e os livros raros isolavam o som da chuva que recomeçava a fustigar as janelas de Santos, mas por dentro, o estrondo era ensurdecedor. O copo de uísque na minha mão não era mais um prazer; era uma âncora. Eu não conseguia expulsar a imagem da retina. Valentina. Abel. O suor brilhando na pele de ambos, a risada cúmplice que morreu assim que me viram, a mão de Abel — o homem que eu considerava meu único irmão de alma — repousando no ombro da mulher que, horas antes, tinha me feito sentir que eu não era um fantasma. A noite passada no sofá deste mesmo escritório tinha sido um divisor de águas. Quando Valentina se entregou a mim, eu senti uma conexão que desafiava a lógica. A pele dela, a resposta elétrica ao meu toque, a forma como ela me olhava... tudo gritava o nome de Mirtes. Eu tinha certeza, em um nível celular, que havia encontrado um refúgio. E agora, aquele
Ler mais