Mirtes Valença O som do mar batendo nos rochedos era a única música que preenchia o silêncio daquela manhã. Estávamos em uma pequena vila costeira, em uma casa de pedra que parecia ter sido esquecida pelo tempo. Aqui, o nome "Arruda" não significava nada. Pela primeira vez em quinze anos, eu não precisava olhar por cima do ombro a cada passo. Heitor estava parado no penhasco, observando o horizonte. Ele segurava uma pequena caixa de madeira. Ali dentro não havia cinzas, mas lembranças. Ele passou a manhã escrevendo nomes em pedras que colheu na praia: Luís Eduardo, o amigo que deu a vida por ele; Antônio Pires, seu pai de criação, que o ensinou a ser homem; e sua mãe, Dona Marlene, cuja morte foi o estopim de toda essa maldição. Aproximei-me e toquei seu ombro. Ele não se mexeu, mas senti seu corpo relaxar. — Acabou, Heitor — sussurrei. — Eles finalmente podem descansar. Ele soltou as pedras no oceano, uma a uma. Cada estalo na água parecia quebrar um elo das correntes que o pren
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